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saber secreto: o que é o 1º de maio?

“A todos
Que saíram às ruas
De corpo-máquina cansado,
A todos
Que imploram feriado
Às costas que a terra extenua –
Primeiro de Maio!
Meu mundo, em primaveras,
Derrete a neve com sol gaio.
Sou operário –
Este é o meu maio!
Sou camponês – Este é o meu mês.
Sou ferro –
Eis o maio que eu quero!
Sou terra –
O maio é minha era!”
(“Meu Maio”, Vladimir Maiakoviski)

Origens e esquecimento

As origens do Primeiro de Maio, o dia Internacional dos Trabalhadores, remontam a um episódio crucial das lutas da classe trabalhadora. Hoje, quando vemos os shows e os comícios que a burocracia sindical faz para “comemorar” o Primeiro de Maio – que agora sabemos, com as delações da Odebrecht, já terem sido inclusive bancados pela própria burguesia –, mal dá para suspeitar que a data originalmente era um dia de luta, escolhido em homenagem a trabalhadores que morreram na luta por uma bandeira histórica do movimento operário, a jornada de trabalho de 8h.

O dia primeiro de maio, nos Estados Unidos do século XIX, era para diversas categorias o que hoje chamamos de “data-base”, o período do ano em que se definem os termos que vão reger os contratos coletivos de trabalho. A Federação Americana do Trabalho (AFL – American Federation of Labor), uma federação nacional de sindicatos americanos que agrupava uma série de categorias de trabalhadores, lutava à época pela redução da jornada de trabalho às 8h diárias e marcou uma paralisação e um ato público no primeiro de maio de 1886. No dia 3 de maio, seis grevistas foram assassinados pela polícia, o que foi seguido por uma manifestação no dia 4, onde foi decretado o estado de sítio, vários manifestantes foram presos e oito militantes anarquistas foram condenados à morte e executados no dia 11 de novembro daquele mesmo ano. Desde então, a data foi adotada pelo movimento operário internacional como um dia para que a morte dos mártires de Chicago e sua luta não caísse no esquecimento.

Mas o processo de apagamento, de velamento do significado original do primeiro de maio, começou no próprio século XIX. Já em 1890, o SPD (Partido Social Democrata Alemão), garantida sua representação no parlamento burguês e conquistada sua legalidade como partido, não mais propôs a greve no dia Primeiro de maio e sim sua transformação num dia de festa, para comemorar as vitórias do movimento operário até então. Em 1891 a Segunda Internacional aprovou a transformação do Primeiro de Maio num feriado, o que a burguesia acabaria aceitando para seu melhor proveito, como logo veremos que aconteceu no caso brasileiro.

Não é à toa que esse movimento veio da parte do Partido Social Democrata Alemão. O maior partido operário do mundo, já nos anos 90 do século XIX, dava mostras de se adaptar à legalidade burguesa e abandonar a perspectiva revolucionária. Suas perspectivas reformistas e revisionistas do marxismo foram expressas com a maior clareza pelo teórico Eduard Bernstein, e combatidas vigorosamente pela revolucionária alemã Rosa Luxemburgo no seu hoje clássico “Reforma ou Revolução?”, de 1902. Em 1914, o Partido Social Democrata Alemão consumará sua trajetória de adaptação à legalidade burguesa votando pelos créditos de guerra no parlamento alemão, tornando a classe trabalhadora do seu próprio país bucha de canhão na guerra imperialista. Em 1919, será ela própria a carniceira da revolução na Alemanha, assassinando Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht e ajudando a salvar o regime burguês do colapso.

O Primeiro de Maio no Brasil

No Brasil, a classe trabalhadora, no começo do século XX, levava a sério a proposta de fazer o dia primeiro de maio um dia de luta e não um mero dia de festa. Em 1907, os anarquistas convocaram um primeiro de maio na Praça da Sé, que foi proibido, com tropas armadas se concentrando no centro de São Paulo, o que resultou em confrontos, prisões e expulsões de estrangeiros do país. Foi só em 1924 que o governo Arthur Bernardes decretou o dia primeiro de maio como feriado do “Dia do Trabalho” (inclusive, diga-se de passagem, antes que houvesse lei que regulamentasse a jornada de trabalho para 8h), que passou a ser “comemorado” no ano seguinte.

Seu uso político por parte do governo de Getúlio Vargas é mais conhecido: as assim chamadas “festas do trabalho”, realizadas no Estádio Vasco da Gama, a partir de primeiro de maio de 1939, serviam como exaltação da figura de Getúlio e já estavam muito longe do espírito de luta que originalmente lhe inspiraram. Tais eventos se associavam à vinculação dos órgãos da classe trabalhadora, como os sindicatos, ao Estado, associação que se mantém até os dias de hoje e cujo imposto sindical é uma das mais importantes expressões. Os deploráveis festejos da burocracia sindical contemporânea, de rabo preso com o Estado, têm nessas festas oficiais suas origens históricas.

Mas a luta dos trabalhadores de Chicago ainda está viva. Aprendemos com os gregos que a verdade é o não-esquecimento (a-létheia): é dever dos revolucionários lembrar a verdade das lutas da classe trabalhadora para que ela não caia no esquecimento, para que o significado original desse dia não seja esquecido. O Primeiro de Maio não pode ser nem uma festa vazia da burocracia, bancada com o imposto sindical ou diretamente com o dinheiro da burguesia, nem tampouco uma mera comemoração “histórica”, dissociada das lutas do presente, como boa parte da esquerda faz, como se a luta contra o aumento da jornada de trabalho não estivesse na ordem do dia, como se os problemas postos no século XIX tivessem sido superados. Basta ver como a reforma trabalhista em tramitação no Congresso quer nos colocar de volta ao século XIX, permitindo que a jornada de trabalho diária seja estendida até 12h. É preciso resgatar a memória do Primeiro de Maio porque a luta contra o capital ainda persiste!

VIVA A LUTA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES!
VIVA OS MÁRTIRES DE CHICAGO!
ABAIXO A REFORMA TRABALHISTA!

01.05.2017


Categorias: Teoria

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