! saber secreto: a importância e os limites da revolução de fevereiro - Território Livre

saber secreto: a importância e os limites da revolução de fevereiro

A Revolução Russa é celebrada graças à tomada do poder pelo proletariado¹ em outubro de 1917, feito de importância histórica. Foi em outubro que a consciência dos trabalhadores e suas formas organizativas, seus órgãos de poder independentes e contrários ao poder burguês estavam em maturidade suficiente para tomar o poder e mantê-lo de maneira consistente. Porém, não se pode entender como a luta de classes na Rússia chegou a um grau tal que a tomada do poder pelos trabalhadores fosse possível sem entender como esse processo começou. E o primeiro ato desse drama foi a revolução de fevereiro.

É certo que amplas camadas populares russas já não podiam suportar a exploração a que eram submetidas, a fome e todos os graves problemas trazidos pela guerra. Qualquer fé na capacidade do czar ou da burguesia de dar uma resposta às necessidades do povo havia sido corroída. No front, os soldados exigiam a paz, e se recusavam a obedecer às ordens dos oficiais do exército. Os soldados, oriundos das camadas do proletariado e do campesinato pobre, se recusaram a entrar em conflito com os soldados alemães, oriundos das camadas sociais equivalentes da Alemanha. O Estado Maior² perdeu qualquer capacidade de controle sobre o exército. Os oficiais relatavam que não dariam ordem de ataque aos soldados com medo de serem linchados ou fuzilados. Em Petrogrado, as tropas de soldados e os cossacos³, antes a tropa de choque mais sanguinária da monarquia, passaram a se recusar a reprimir os protestos. É famosa a cena dos operários em protesto passando por baixo da barriga dos cavalos dos cossacos.

Em apenas cinco dias, uma greve de operárias contaminou outros diversos setores da indústria, extrapolou para além daí, atingindo soldados, e terminou com o proletariado derrotando o czar. Em apenas cinco dias a greve evoluiu de greve econômica para greve política e de greve política para insurreição armada.

Fevereiro colocou na prática a necessidade de aliança do proletariado com outros setores de classe e outras classes sociais em favor da revolução. Os diversos protestos nos cinco dias que abalaram a Rússia teriam sido muito mais sangrentos se não fosse a neutralidade simpática dos cossacos. Os soldados sublevados distribuíram armas aos operários, e sem essa aliança, o trabalho da insurreição armada e de supressão da polícia teria sido muito mais difícil. Mas fevereiro teve seus limites: foi um momento em que a cidade se ergueu e, ao contrário de países como o Brasil hoje, a grande maioria da população Russa vivia no campo. Embora os camponeses recebessem com esperanças as notícias da revolução, ficava ainda a questão de como travar de fato uma aliança com as massas camponesas de forma a arrastá-las na torrente revolucionária.

Foi muito importante para colocar as massas proletárias em movimento o chamado elemento espontâneo. Mas faltava ainda um elemento consciente que soubesse colocar a questão da tomada do poder pelos trabalhadores. Muitos historiadores e jornalistas burgueses à época tentaram negar, mas era muito claro que as classes à frente da revolução de fevereiro eram o operariado e os soldados. Porém, pela imaturidade do movimento, a revolução naquele momento tirou o poder das mãos do czar para colocá-lo nas mãos da burguesia. Embora o movimento tenha sido dos trabalhadores, o poder acabou caindo no colo da burguesia, que montou um governo provisório.

Muitos socialistas daquela época acreditavam que era impossível aos trabalhadores chegarem ao poder num país como a Rússia. Eles defendiam que antes o capitalismo deveria se desenvolver plenamente. A essa concepção depois deu-se o nome de etapismo. Quem defende hoje a revolução em etapas na verdade nunca aprendeu a lição de fevereiro. Ou pior, quer fazer esquecer essa lição! Dentro do Partido Bolchevique⁴, algumas pessoas acreditavam nisso, e defendiam colaboração com o governo provisório. Era o caso dos dirigentes mais velhos, como Stálin.

Porém, alguns dirigentes experimentados, como Lenin e Trotsky, os dirigentes que eram operários e estavam na Rússia em fevereiro e a maioria dos jovens operários que compunham o Partido acreditavam que as condições objetivas já estavam maduras para que os trabalhadores tomassem o poder. Eles defendiam que a burguesia era incapaz de levar adiante as tarefas que lhe cabiam historicamente e que caberia ao proletariado liderar essas tarefas, ao mesmo tempo que levava adiante as tarefas socialistas. Por isso, a Rússia não deveria passar a ser uma república parlamentar, afinal, já existia uma forma muito superior de organização democrática das massas, os sovietes⁵. A tarefa que se colocava para os trabalhadores em fevereiro era a tomada do poder e a passagem da Rússia para uma república soviética, e isso colocava na ordem do dia o desmascaramento do real caráter do governo provisório.

Nos meses seguintes, houve uma luta importante no interior do Partido para que a concepção correta prevalecesse. Se ela não tivesse prevalecido, os bolcheviques não teriam sabido apontar a direção correta às massas. Essa foi a lição mais dura e mais importante daquele mês. Os bolcheviques eram um grupo praticamente desconhecido da grande maioria da população russa em fevereiro. Eles só chegaram a ser o partido da revolução de outubro porque souberam extrair as lições corretas dos acontecimentos. Fevereiro trazia outubro em semente.

1. Proletariado
É um termo que vem da época do Império Romano, quando designava uma classe de cidadãos romanos cujas posses consistiam apenas na sua prole, seus filhos. Modernamente, designa a classe que precisa vender a sua força de trabalho no mercado para garantir a sua subsistência, em contraposição à burguesia, a classe proprietária dos meios de produção que compra essa força de trabalho. Não confundir com “operariado”, que é um setor do proletariado, aquele que trabalha nas fábricas e produz carros, máquinas, alimentos, roupas etc., e que tem centralidade no processo revolucionário.

2. Estado Maior
Trata-se de um órgão, composto por oficiais e outro pessoal, de informação, estudo, concepção e planejamento para apoio à decisão de um comandante militar.

3. Cossacos
Os cossacos são um povo nativo das estepes das regiões do sudeste da Europa, que se estabeleceram mais tarde nas regiões do interior da Rússia asiática. É um povo conhecido por seu talento militar, a tal ponto que foram organizados regimentos de cossacos para travar as guerras de unificação da Rússia, integrando-se assim ao Exército Russo.

4. Bolchevique
Nome dado a uma fração do Partido Socialdemocrata Russo, que se formou após o Segundo Congresso do Partido em 1903. O nome é derivado de “a maioria”, em russo, pois tal fração conseguiu maioria de votos nas questões mais importantes no tal Congresso, em contraposição aos mencheviques, “a minoria”. Os bolcheviques defendem uma organização partidária regida pelos princípios do centralismo democrático: liberdade na discussão das ações, unidade na sua execução. O Partido Bolchevique é quem dirige a tomada do poder pelo proletariado russo em outubro de 1917.

5. Sovietes
Sovietes ou conselhos são forma de organização dos trabalhadores surgidas, pela primeira vez, na Revolução Russa de 1905, pela ação independente dos próprios trabalhadores. Os sovietes são uma forma de democracia direta dos trabalhadores, que concentra as atribuições executivas e legislativas num só órgão. Os sovietes têm papel fundamental na história da Revolução Russa de 1917, pois é através deles que se organiza a tomada do poder e eles servem de base para a posterior reorganização do Estado (daí “União Soviética”).