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saber secreto: o contexto histórico russo em 1917

A Rússia em 1917 encontrava-se entre o Ocidente e o Oriente. Não apenas pela sua posição geográfica, atravessando Europa e Ásia, mas porque no mesmo país se encontravam, de um lado as maiores indústrias da Europa, que utilizavam as mais modernas técnicas de produção capitalista, e de outro toda uma série de formações econômicas que combinavam a servidão feudal à propriedade comunal asiática. No começo do século XX, a monarquia dos Romanov, na figura do Czar¹ Nicolau II, sintetizava o jugo despótico vindo da formação asiática² do Estado russo à pressão militar e econômica exercida pelo Ocidente, que não permitiu que a Rússia se formasse como nação asiática.

Mais que em outro lugar do mundo, o atraso econômico russo envolvia o desenvolvimento do capitalismo em pesadas contradições. A burguesia russa, fraca e vacilante, se apoiava num czar que tinha sérias limitações para garantir o bom funcionamento do capitalismo no país. Essa burguesia não tinha nem capacidade nem interesse em levar adiante as tarefas democráticas elementares que se colocaram como tarefas históricas da burguesia em outros países. O governo russo era um governo autocrático, com um monarca incapaz, governando para uma burguesia igualmente incapaz.

Ao mesmo tempo, as contradições capitalistas atingiam seu ápice, naquele momento, na esfera internacional. As maiores potências capitalistas lutavam para dominar o mercado mundial e redividir a economia do mundo de acordo com seus interesses de dominação imperialista³. O evento que ficou conhecido como a Primeira Guerra Mundial nada mais era que uma guerra de rapina entre as burguesias alemã, inglesa, francesa, italiana, norte-americana… para defender seu capital, essas burguesias colocaram fileiras e fileiras dos filhos do proletariado e dos camponeses pobres de todo o mundo para atirar e matar uns aos outros.

A Rússia, apesar de ser considerada uma das grandes potências, cumpria um papel absolutamente secundário e vergonhoso. Pelo seu atraso econômico, o país não tinha de fato capacidade para disputar o mercado mundial com as outras potências europeias. Apesar de estar em guerra contra a Alemanha, seu interesse se limitava a garantir sua exploração do mercado de pequenas nações a sua volta. Embora as grandes indústrias nas principais cidade do país, como Petrogrado e Moscou, garantissem a produção de armamentos de guerra e munição, o capital era incapaz de garantir a distribuição de comida à população e de fazer chegar bens alimentícios e ração ao exército. Em 1917, mais soldados russos haviam morrido de fome e doenças relacionadas à falta de alimentação, como tifo e escorbuto, do que em combates.

No front, os soldados morriam de fome. Em casa, o povo não tinha pão. Os operários e demais trabalhadores assalariados, nas cidades e no campo, trabalhavam muito e ganhavam uma miséria. Os camponeses pobres perdiam suas terras. Era uma situação limite, que as massas não podiam mais suportar. A demanda por pão, paz e terra colocou as massas em movimento e deu início ao evento que estremeceria todo o mundo.

1. Czar

Nome dos comandantes supremos da Rússia, que exerciam o poder despoticamente, concentrando em sua figura todas as atribuições do poder do Estado. O regime dos czares, o czarismo, durou de 1547 até a Revolução de Fevereiro de 1917.

2. Formação asiática

Quando dizemos que a Rússia tinha uma “formação asiática”, estamos nos referindo ao fato de que o país possuía, em grande quantidade, relações de produção pré-capitalistas, quer dizer, relações que não eram fundadas na divisão dos meios de trabalho daqueles que trabalham neles, como é a relação capitalista de assalariamento, onde o trabalhador é “livre” num duplo sentido, segundo Marx: livre de vínculos baseados em sangue, terra, filiação, para vender a sua força de trabalho no mercado; e livre no sentido de estar sem a posse dos meios de produção (ver “proletário”).

3. Imperialismo

Conceito estudado a fundo pelo revolucionário Lênin, em seu livro “Imperialismo, estágio superior do capitalismo”, para designar o período histórico do capitalismo em que o capital financeiro, que é a fusão do capital bancário com o industrial, procura aumentar seus os lucros para além dos mercados internos das nações capitalistas, através da exploração das colônias, levando a guerras por mercados e matérias primas, como foi a própria Primeira Guerra Mundial.

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