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entrevista: se possível eles matavam todos

A guerra entre as facções nos presídios no começo de 2016 escancarou a barbárie cotidiana dos presídios brasileiros: mortes, superlotação, a falta de condições mínimas, a repressão do Estado, a ação do crime organizado, tudo num cenário de aprofundamento da crise econômica.

O TL entrevistou dois ex-internos da Fundação Casa. Ambos foram detidos pela primeira vez com cerca de 12 anos de idade e agora, mais velhos, correm atrás da sobrevivência com empregos instáveis. Eles nos contam sua visão sobre o sistema carcerário.

“PRESO NÃO TEM QUE FALAR NADA”

A Fundação Casa revolta, às vezes o moleque entrou lá dentro e nem é bandido, ele acaba se tornando por necessidade. Se ele não for, ele não vai ser respeitado, tanto pelos funcionários quanto pelos internos!

Meio dia nós almoça, deu uma hora, ninguém almoçou ainda, aí fica todo mundo revoltado, com fome, aí nós vai querer falar alguma coisa que é do nosso direito, eles já vem “não, vocês é preso, vocês não tem que falar nada!” Aí eles já vem com a tropa toda pra cima de nós.

A perspectiva pra quem está lá é as pessoas não acreditarem em você, você já perde a fé de correr atrás. Os funcionários que trabalham lá veem que você pode crescer na vida, mas eles já jogam barreira, eles atrapalham.

Dos funcionários, muitos não gostam de nós, alguns que é de boa, que incentiva você a parar, mas é um ou outro, a maioria tipo pra ele tanto faz tanto fez, eles não dão um incentivo pra você sair. Muitos até desacreditam, alguns adolescentes ficam revoltados. Em vez de falar “eu consigo, vou sair, vou fazer outra coisa”, ele fala: “Ah, tá bom, saí, vou fazer tudo de novo, vou descontar tudo nas pessoas lá fora”.

Às vezes eu acordo ainda assustado, sabe? Falando: “não, não vou voltar pra lá!”. Aí eu acordo e tá tudo bem… passou, sou maior de idade, não vou voltar pra aquele lugar. Ainda tenho certo trauma em relação à Fundação Casa, parece que sinto o cheiro do lugar, o cheiro que nós fica, às vezes volta essa sensação, alguns lugares me lembra como era lá e dá tipo uma certa agonia.

NOS PRESÍDIOS É AINDA PIOR

Cresci no meio da criminalidade, envolvimento com tráfico de drogas, dentro de casa mesmo, eu via e convivia com aquilo. Fui achando que era bom, via eles lá, eles tinham respeito com as pessoas. Comecei a me envolver com eles, aí que eu me joguei, tinha a questão financeira, minha família não tinha um bom rendimento por mês, achei que ia conseguir mudar através daquilo, dar uma casa bonita pra minha mãe, pros meus irmãos, pra mim. Do tempo que eu me envolvi, fiquei mais tempo preso do que me envolvi.

Tenho família presa e vejo que (no presídio) eles só querem prejudicar. Eu tenho familiar preso, eles mandam pra longe, que já é pra acabar com a vida da pessoa mesmo, a probabilidade da pessoa não mudar de vida é muito grande. A pessoa acaba se envolvendo, entrando numa facção, fazendo outras coisas piores.

Na Fundação eles até oferecerem alguma coisa, informam você pra algum lugar quando você sair, agora na cadeia eles julgam que é tudo ladrão, se possível eles matavam todos.

CRIME ORGANIZADO

Lá dentro tem a hierarquia deles, tem o crime organizado, que atua, que comanda, e isso também faz com que você se dedique a eles. Eles falam assim: tal dia vai acontecer isso, tá com nois ou tá contra nois. Você vai ter que participar. De qualquer jeito, se outra facção entrar no seu prédio, você vai morrer…

Eu acredito que o crime em si, essa guerra, não vai acabar. Tem os interesses de outras pessoas, poderosas, eles têm os interesses deles, capitalistas, eles lucram com aquilo, muito, também tem a questão do sistema querer que seja desse jeito, eles lucram desse jeito, os caras tão se matando desse jeito, que se dane! Assim como tem os que tão dentro do crime que tem esse lucro nessa história… dificilmente vai deixar de ser assim porque os responsáveis por aqueles presos que estão lá dentro não dão condições para que eles mudem.

Tem até envolvimento do governo com o crime organizado, pô, eu acredito que eles têm tipo um acordo, assim como deve ter membros do crime organizado que atuam na política, que atuam para eles lá, vamos dizer que o crime organizado evoluiu bastante, não é mais aquela coisinha do tipo, só vou roubar ali e já era, tem outros interesses. Nas fronteiras, os políticos tão tudo envolvido, porque foi preso um em uma fronteira com 10kg, e na outra fronteira acabou de passar 50kg, e eles que liberam!

POLÍCIA

O certo seria ela fazer o bem, proteger o cidadão, que não é o que acontece. Tipo, muitas vezes, a polícia age de uma forma incorreta, não é como deveria ser, isso também causa revolta. Muitos entram na polícia com uma forma de pensar, mas lá dentro acabam mudando, fica cego, fazendo o que eles quer, fica manipulado, alienado, “vai lá e faz isso”, aí vai lá e faz!