! corte sobre corte e voltamos ao passado - Território Livre

corte sobre corte e voltamos ao passado

Como se não bastassem os altos índices de desemprego no Brasil e a inflação que faz com que nosso salário não seja mais suficiente para suprir as necessidades básicas, sobrou para a população também a conta das despesas desenfreadas do governo. Quando falam em “ajuste fiscal” estão dizendo que é o trabalhador quem vai pagar a conta.

Isso não é novidade. Nos últimos anos, para enfrentar a crise vários países, principalmente na Europa, assumiram políticas de austeridade. Em todo lugar é a mesma história: austeridade significa para o governo maior “rigor” nas contas (cortes) e para o trabalhador retrocesso, perda de direitos, arrocho. Para aliviar a crise dos capitalistas os governos sufocam ainda mais a vida dos trabalhadores.

Em Portugal, desde 2010, as medidas de austeridade vêm se intensificando. Houve cortes salariais, eliminação de direitos trabalhistas e diminuição dos orçamentos dos serviços públicos. Jorge, 43 anos, professor e dramaturgo vive na cidade do Porto. Segundo ele, “de modo geral, a miséria é cada vez maior. Isso é visível nas filas, cada vez maiores, para receber um saco de plástico com alguma comida, oferecido por voluntários no centro do Porto e de Lisboa. Muitas pessoas deixaram de ter dinheiro para pagar os estudos dos filhos, o aluguel, os medicamentos, a comida. O endividamento aumentou. A austeridade tirou dinheiro do bolso das pessoas e usou esse dinheiro para tapar os buracos das várias fraudes financeiras feitas pelos gestores dos bancos”.

Entre os trabalhadores portugueses a revolta e a contestação se expressaram desde então com greves regulares no setor público. Segundo Carlos Gomes, trabalhador independente da área cultural em Lisboa, isso se deu “principalmente no setor dos transportes. Não me lembro de ter assistido a tantas greves na minha vida. Foram os piores anos da minha vida, com o rendimento a decrescer e o custo de vida em Lisboa a aumentar consideravelmente. Criei uma enorme depressão que necessitou de tratamento médico devido à angustia criada pela ilusão de que a austeridade era o único caminho”

Na França, as mudanças nas leis trabalhistas foram aprovadas por decreto presidencial em julho deste ano. A jornada de trabalho passa de 36 para 60h semanais, os contratos são flexibilizados para facilitar demissões e, como se pretende no Brasil através da Reforma Trabalhista, o que for negociado com o patrão valerá mais do que a lei.

CORTES EM CIMA DE CORTES

Por aqui o ajuste fiscal começou ainda no governo Dilma. Em maio de 2015 foi anunciado um corte de R$70 bilhões no orçamento público. Além dos significativos cortes nos ministérios da Saúde, da Educação e das Cidades, 21,4 bilhões foram arrancados diretamente dos trabalhadores. Mudaram as regras do seguro desemprego, auxílio-doença, abono salarial e pensão por morte. Estima-se que, com as medidas de Dilma, 80% dos jovens perderam acesso ao seguro desemprego. Hoje mais de 25% deles estão desempregados.

“Para que a economia se recupere, para que o crescimento se recupere, é preciso fazer esforço de equilíbrio fiscal”, afirmou o Ministro do Planejamento de Dilma, Nelson Barbosa, no anúncio dos cortes. A economia que vai se recuperar não é a do trabalhador, mas sim a das empresas. São medidas como o Plano de Proteção ao Emprego (PPE), também anunciado pelo governo Dilma em 2015, que estabelece a diminuição em 30% das horas trabalhadas com redução do salário pago pelo patrão.

TRABALHADORES RESISTEM

Para o operário Bruno de São José dos Campos, “a classe trabalhadora não está cabisbaixa. Apesar da aliança entre os governos e a burguesia para atacar os trabalhadores e passar o peso da crise para nós, a alternativa só é possível nas lutas, com greve, inclusive rompendo com as direções que estão aí impedindo que as lutas avancem, esse é o caminho para construir uma alternativa séria para a classe trabalhadora”.

No mundo todo, os trabalhadores têm demonstrado sua força resistindo aos ataques mesmo diante da forte repressão do Estado. Centenas de manifestações e greves pararam portos, aeroportos, usinas nucleares e bloquearam vias em toda a França. A greve de 180 milhões de trabalhadores indianos, que aconteceu em setembro, contra uma reforma trabalhista semelhante, foi considerada a maior greve do mundo – foi como se praticamente toda a população do Brasil (200 milhões de pessoas) cruzasse os braços.

PEC 55: MAIS ATAQUES ESTÃO POR VIR

O governo conhece e teme a força dos trabalhadores. Dilma não caiu à toa, caiu porque não conseguiu implementar as medidas necessárias ao capital, ficou paralisada pela revolta crescente nas ruas.

A PEC do Teto dos Gastos vem para realizar essas medidas ditas “necessárias’’. O que o governo chama de contenção de gastos é na realidade um forte ataque aos trabalhadores. Congelar as contas por 20 anos significa congelar por 20 anos os reajustes salariais dos funcionários públicos, os investimentos em saúde e educação básica. Esse congelamento torna impossível manter as atuais condições da aposentadoria, ou seja, essa PEC é só o embrulho do pacote de maldades que o governo prepara com a Reforma trabalhista e Reforma da Previdência previstas para 2017: empregos cada vez mais precários e a certeza de ter que trabalhar até morrer!

Temer sabe a que veio: “nossa missão é mostrar a empresários e investidores de todo o mundo nossa disposição para proporcionar bons negócios que vão trazer empregos ao Brasil” afirmou o presidente em seu primeiro discurso na TV. As palavras de Temer soam como o canto de sereia aos ouvidos do trabalhador, mas o futuro congelado que o governo prevê não é o mesmo que o trabalhador deseja. Sebastião, servidor público da área da saúde (RJ), sabe o que deve ser feito: “A PEC só vai ser derrubada se o povo brasileiro parar, o momento é parar, porque nós não podemos ficar 20 anos sem investimento na educação, na saúde e infra-estrutura, quem roubou foram eles: eles que roubaram o país, não o povo trabalhador”.