! a verdade não importa! entrevista com mc carol - Território Livre

a verdade não importa! entrevista com mc carol

Na música Delação Premiada, há uma frase que diz: “A verdade não importa. É negro, favelado, então tava de pistola”. Qual a verdade por trás da morte dos Amarildos?

Até o ano passado, pensava que o Amarildo era um bandido que foi morto; o falatório foi esse: a polícia pacificadora tinha matado um bandido, e os moradores tinham sido obrigados a fazer protestos! Quando vi o documentário Estopim, com imagens reais do dia, vi que ele era um morador que foi morto. Pra TV, a verdade não importa! Quando fui produzir a música Delação Premiada, fiz pesquisa no youtube porque queria colocar áudios reais de torturas policiais. Agora tô lembrando, tô me arrepiando até! Policial batendo em criança, matando. Quatro policiais batendo numa criança, sem blusa, sem short, desarmada, e no final eles matam. Gente com celular, que confundiram com pistola; o cara com uma makita numa lage; tem um amigo meu aqui em Niterói que sofreu acidente de moto, e tava entrando na comunidade com as muletas e tomou dois tiros na barriga, porque pensaram que ele tava com um fuzil. Ficou por isso mesmo e no jornal saiu que ele era bandido! A comunidade desceu, botou fogo, porque é muito revoltante você conhecer a pessoa que trabalha dia e noite e aparece bem grande: Bandido de Niterói no hospital!

O que tem por trás dessa matança?

A maioria que sofre isso são negros, e os que moram dentro da comunidade; o cara chega lá e dá tapa na cara de uns 50 e sabe que não vai dar em nada. Um policial chega assim, isso se chama forjar, “quero 3 mil reais, se não vou enfiar essa droga aqui no teu peito”. É a palavra de um policial contra a de um morador… a verdade não importa, porque quando acontece um fato, os jornais querem vender; ninguém quer saber: a primeira notícia é o que importa! Tomô tiro? Comunidade? Negro? Bandido!

Tem muito preconceito contra o funk, mesmo contra o rap, contra a cultura livre da juventude. Qual a verdade por trás da cultura viva da periferia?

O funk é uma forma de a gente se expressar, de a gente relatar o que acontece na comunidade, de a gente se divertir. A capoeira era o que? Era luta e dança. Uma forma de se divertir e se defender também. O funk é tudo isso!

Sua música diz que “bandido rico e poderoso tem sala separada, tratamento vip e delação premiada”. Qual a verdade por trás dessa justiça que é só pros poderosos?

O Brasil, cara, é o país da impunidade, isso aqui é corrupção. Aqui prevalece quem tem dinheiro; quem tem dinheiro fala mais alto. Esses dias mesmo, um amigo meu, usuário de drogas, foi assaltar um telefone em Icaraí… e foi linchado! E ele hoje está em coma. Está em coma por causa de um telefone! O caso passa na TV e as pessoas aplaudem.

Ninguém lincha os políticos que roubam a gente o tempo todo.

Aí a gente vê a diferença do roubo. Quantos milhões esses políticos roubam! Aí o cara rouba um celular e merece morrer! Político? Esses caras nunca vão presos! Prisão domiciliar? Prisão com mansão, com cavalo, com piscina? A cadeia é separada. Pobre vai pra cadeia fechada.

Os trabalhadores produzem toda a riqueza, que é tomada pelos patrões. E o que falar desse roubo?

Hoje em dia quem consegue viver com 700 reais? É uma nova escravidão. Como você paga um aluguel dentro da comunidade de 500, 600? Como compra algo pra tuas crianças? Como tem tempo livre? Enquanto esses caras ganham 30 mil na carteira e roubando milhões. Com 10 anos, eu tinha um sonho de ser juíza; com 14 eu pensei em que mundo eu tô vivendo? Eu nunca vou ser uma juíza. Eu comecei a pensar dentro da minha realidade. Com 17 abandonei o estudo, e arrumei uns bicos pra sobreviver.

A escola dá estímulo?

A escola até dá: porque lá tem almoço! Mas muita gente pára porque sabe que não vai levar a lugar nenhum. Eu fui morar sozinha com 14 anos e tive que escolher. Vou ficar na escola em vão e vou passar fome! Fico a tarde inteira na escola, como vou trabalhar? Na comunidade a gente tem menos oportunidades. Eu não sei nem como tratar da raiz disso. Minha comunidade tinha vários esportes, fiz capoeira, hip hop, fiz um dia de aula de ballet, volei, triatlo, velejar… acabaram com tudo!