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a democracia deles e a nossa

O resultado das eleições pode mudar a sua vida? “Pode! Pra pior…” A professora Cássia, de Osasco, resume assim o que é a percepção geral da população frente às eleições: “a gente não vê perspectiva nesses candidatos que estão aí, são os mesmos, algumas caras novas, mas todo mundo querendo resolver seus próprios interesses, o povo é a ultima questão em que eles estão pensando”.

Uma das principais fontes de descrédito nos políticos em tempos de eleição são as falsas promessas. O TL colheu entrevistas em São Paulo, Osasco, Guarulhos, São Bernardo e Rio de Janeiro e em todas elas esteve presente o sentimento de desilusão com as eleições.

O número de votos nulos, brancos e de pessoas que sequer foram votar foi enorme neste ano, algo que tem sido cada vez mais frequente nas eleições. No primeiro turno das eleições municipais de 2016, a somatória desses votos de protesto venceu até mesmo o candidato mais votado em muitas cidades, inclusive em 10 capitais, como Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

Após o impeachment da presidente Dilma, os eleitores expressam o desejo de que todos os políticos pudessem ser retirados do cargo por não cumprirem a sua função. “Eu não acredito em nada disso. O ideal é que se o cara fosse eleito e não fizesse o papel dele, tinha que ser tirado. Contra nós, qualquer funcionário que não cumpre o mínimo já é colocado pra fora do emprego! Em nosso país tem impeachment pra presidente, tinha que ter pra vereador, prefeito, pra tudo!”, afirma Cássia. O desejo da maioria é que a própria população pudesse decidir sobre o futuro político da sua cidade. Se os representantes não nos representam, que caiam!

Para o pintor carioca Mário Ferreira, a forma de cobrar seria organizar a população de toda a comunidade. “Eles prometem tudo, compram voto a 50 reais, depois não cumprem. Tem uma rua dando lama… depois da eleição não aparecem nunca mais: na minha rua, eles apertam a sua mão, entram na sua casa, tomam café, beijam quem tem que beijar… e aí? Eles só querem chegar lá! Era questão de ir o bairro inteiro, na hora de cobrar, pra protestar. Ah! É isso que tu tá prometendo? Então, vamo lá! No fim, eles prometem coisas que eles não podem cumprir.” Para a lojista Mariza, “só os ladrões se beneficiam nas eleições, a gente que tá aqui todo dia trabalhando se lasca! Já destruíram o Rio de Janeiro todo, vão fazer o que agora?”. A visão de Mariza e de diversos outros reflete a situação de calamidade das cidades. Diversos serviços públicos como saúde e educação destruídos, o Estado endividado como nunca e as empresas lucrando como sempre. A rejeição às eleições expressa uma desconfiança ainda maior sobre a própria gestão do Estado. Os interesses da população não são atendidos por esse sistema. As promessas e as pequenas reformas dos políticos não tocam no essencial. Para Leandro, de Guarulhos, que está desempregado, “o que o Brasil precisa hoje é de emprego. Cê pode até dar um passe livre pra desempregado, mas não vai adiantar nada! Você vai tá dando passe live, mas não vai tá dando um emprego, uma oportunidade pra ele tá trazendo um pão de cada dia pra família dele; um leite, um café, um chinelo pro filho dele, um aluguel se ele paga aluguel; o cara tá desempregado, ele faz loucura pra tá mantendo o filho dele, ele não quer ver o filho dele dizer ‘pai, meu chinelo quebrou’ e você não ter um dinheiro pra comprar um chinelo”. Já Diego, mesmo empregado como jovem aprendiz, reclama da exploração no trabalho. “Como em toda a crise acontece, o trabalhador é que vai carregar os patrões nas costas. Eu trabalho por oito; demitiram, e eu faço o trabalho de oito no meu serviço, ganhando um salário mínimo”.

Os trabalhadores e jovens sem emprego e com baixos salários acabam vendo a “democracia” como uma grande farsa; mas se esta democracia não nos representa, como expressar uma verdadeira democracia, que seja em defesa dos interesses da maioria?

Para Célio, operário, há 13 anos trabalhando na GM, em São José do Campos, “o trabalhador está descontente com eleição e com razão. Não vai ser através de eleições, não vai ser através do parlamento que nós vamos mudar a nossa vida, vai ser através da luta, parando os meios de produção”. No dia 29.09, Célio e outros trabalhadores fizeram uma paralisação de 24h na empresa, num dia nacional de paralisação dos metalúrgicos. Fazendo piquetes nas portas da fábrica, os trabalhadores que realizaram assembleia para aprovar a paralisação deixaram de produzir, num único dia, 300 automóveis. Segundo Célio, na democracia burguesa os candidatos têm apoio das grandes empresas. “Eles estão aceitando dinheiro da classe dominante. A democracia operária é o seguinte: quando o trabalhador decide pela sua grande maioria, a minoria acata. Quem vota na democracia operária são os operários, são aqueles que vão parar as máquinas. Se eles pararem a linha de produção, a burguesia não vai ter dinheiro nem pra financiar o PT, nem o PDSB, nem o PSOL. Aqui, pra arrancar um aumento salarial ou pra conquistar algum direito é muita luta, tem que fazer greve, tem que enfrentar a polícia; por isso achamos que só com a democracia operária, com conselhos populares, junto com o trabalhador, na base, e nas periferias é que nós vamos conseguir mudar! A democracia burguesa não nos interessa. É uma democracia falida”.