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saber secreto: quais as condições pra revolução?

Os diferentes períodos históricos podem ser caracterizados centralmente a partir de seus “modos de produção”: as maneiras pelas quais se dá em cada momento a relação entre os homens para produzirem sua própria existência material, e a transformação e domínio sobre a natureza.

O mar da história é agitado. Os processos revolucionários que levaram à transição entre diferentes “modos de produção”, e à transformação das “relações de produção” ocorreram sempre, segundo Marx, a partir do conflito entre as classes. “Homem livre e escravo, patrícios e plebeus, senhor feudal e servo (…) em resumo, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada; uma guerra que terminou sempre ou por transformação revolucionária da sociedade inteira, ou pela destruição das duas classes em conflito”.

Se, no passado, a própria ascensão revolucionária da burguesia como classe dominante se deu por meio da luta contra outras classes, a nós explorados — hoje — cabe a pergunta: quais as condições para uma nova revolução? O que na sociedade atual dá base para a superação do capitalismo enquanto modo de produção?

Todos os modos de produção até hoje representaram determinado desenvolvimento das forças produtivas. As forças produtivas podem ser explicadas por três elementos básicos: os objetos de trabalho, os meios de trabalho e a força de trabalho. Os objetos de trabalho são os materiais encontrados na natureza (ou previamente transformados) sobre os quais se exerce o trabalho; os meios de trabalho são os instrumentos pelos quais esse trabalho é exercido (das mais rudimentares ferramentas até a mais desenvolvida maquinaria); e a força de trabalho é a potencialidade humana em desempenhá-lo.

No capitalismo há uma contradição inconciliável. De um lado, os trabalhadores têm apenas sua força de trabalho para vender, como mercadoria, e, de outro, os capitalistas, os proprietários dos meios de produção (objetos e meios de trabalho), que compram a força de trabalho e a exploram de tal maneira a extrair um valor a mais. A fonte de toda a riqueza advém da exploração da força de trabalho: do tempo de trabalho e de vida de uma classe apropriado privadamente por outra classe.

É justamente a contradição existente na apropriação privada e violenta, por parte de uma minoria, dos frutos do trabalho de uma maioria a origem de todas as crises no capitalismo. As relações de propriedade se apresentam como um verdadeiro bloqueio ao desenvolvimento das forças produtivas.

Observamos um extraordinário desenvolvimento técnico e científico, capaz de ampliar de maneira impensável as formas de intervenção sobre a natureza. O desenvolvimento tecnológico potencializou de maneira gigantesca os meios de produção, aumentando a quantidade e qualidade do processo produtivo no mundo todo. Contraditoriamente, nada disso serviu para deter — ao contrário, só vemos cada vez mais e em escala ampliada — o desemprego, o rebaixamento dos salários e a miséria.

As crises no capitalismo expõem de maneira crua esta contradição: o desenvolvimento dos meios de produção sob a lógica da propriedade privada degrada a força de trabalho, refreando o desenvolvimento das forças produtivas, levando milhões de trabalhadores à destruição, pelas atividades laborais (com adoecimento e morte) e pela miséria e carestia de vida.

Esta situação paradoxal e insustentável faz do capitalismo um sistema em agonia. Os capitalistas matam, dia após dia, aqueles que são responsáveis por sua própria existência. Há décadas as taxas de lucro caem como uma tendência inevitável diante do conflito entre exploradores e explorados, e pela própria concorrência entre os exploradores. Sequer as guerras e a consequente reconstrução de forças produtivas destruídas são capazes de sustentar uma revitalização duradoura do sistema. As crises mesmo que superadas de modo momentâneo ou localizado sempre retornam de maneira mais profunda.

Se a crise é inevitável, seu desfecho não. A barbárie cotidiana já se apresenta. Se a crise do capitalismo é estrutural, abrem-se oportunidades para “a transformação revolucionária da sociedade inteira”. As condições estão dadas, e é preciso avançar: organizar a classe e lutar a luta decisiva de todas as revoluções.