! destruição na busca do lucro, trabalhador na lata de lixo - Território Livre

destruição na busca do lucro, trabalhador na lata de lixo

Ouvimos tanto falar em empreiteira, construtora, Odebrecht, Andrade Gutierrez, Galvão, Gafisa. Os canteiros de obra não têm fim: vemos obras públicas se estendendo por anos e não temos mais esperanças nas promessas do governo; a cada instante um novo prédio, maior e mais moderno, surge no lugar de um antigo. A questão é que a indústria de construção é responsável por um quarto da riqueza produzida pela indústria no Brasil. Construir um prédio é a forma mais fácil de valorizar um terreno e por isso as empreiteiras querem construir mais e mais, mesmo que isso implique em destruir o que estava construído.

As demolidoras são um ramo pequeno dentro da indústria de construção, mas ilustram a irracionalidade e o desperdício de matéria prima e trabalho humano que caracteriza todo o sistema capitalista. Mesmo com 20 milhões de m² construídos abandonados na cidade de SP, foram lançados outros 20 mil edifícios em 2015. Com todo material de construção que sobrou das demolições naquele ano poderia-se construir 7 mil edifícios. Não há falta de recursos, ao contrário, existem recursos em excesso e para que os burgueses continuem enchendo seus bolsos, parte desse excesso deve ser destruída para dar novo fôlego à produção desenfreada.

Na China, país mais populoso do mundo, cidades inteiras foram construídas no interior do país para atrair a população das grandes cidades. Ordos é uma cidade para 1,3 milhão de habitantes, mas os preços dos imóveis monumentais não são acessíveis à grande maioria do povo chinês, que continua vivendo amontoado em moradias insalubres. Ordos é a maior cidade fantasma da China, praticamente vazia, mas não é a única.

As cidades fantasmas são o resultado da tentativa de aumentar a riqueza e de dar utilidade para o excesso de aço produzido pelo país. A China produz quase a metade de todo o aço utilizado no mundo, já são mais de 65 milhões de toneladas de aço produzidas esse ano. No Brasil, foram consumidas 9 milhões de toneladas de aço no mesmo período. O principal setor consumidor de aço é a indústria de construção.

Para que os produtores de aço, os empreiteiros e toda a burguesia enriqueça, é preciso diariamente destruir o que foi produzido em excesso. Para que sempre se construa, é preciso demolir. E, cada vez que se reconstrói, se encarece o m² dificultando sua venda. Esse é o beco sem saída em que o capitalismo se meteu: ou se destrói ou é destruído.

“Essa obra aqui é muito cansada! Você faz muita coisa, e eles pedem pra desmontar e fazer de novo!”, esta é a percepção sobre o próprio trabalho que tem Joel, 18 anos, operário em uma das obras públicas tocada pela prefeitura, no centro de SP. A construção já dura um ano e teve sua equipe totalmente trocada. A troca e o “faz-desfaz” tem cheiro de maracutaia, como percebem os próprios trabalhadores, mas a trapaça e o superfaturamento não são um caso isolado, desconstruir e construir para garantir o lucro é o próprio alimento das empresas.

Se as empresas precisam fazer malabarismo para seguir lucrando, quem não tem garantia alguma são os trabalhadores. Douglas, que mora em Mogi das Cruzes, ficou desempregado por um ano antes de ser contratado para trabalhar nas obras do calçamento da rua 7 de abril, em SP. Não há contrato, nem carteira assinada, ele recebe pela diária. Ao final da obra, a perspectiva de seguir trabalhando é duvidosa. Antes, Douglas trabalhava com vendas e tinha carteira assinada, mas a crise, a diminuição das vendas, a destruição de postos de trabalho e a experiência do desemprego o levaram a procurar esta ocupação. O esforço físico é muito maior, e o cansaço e a exposição ao frio fazem com que aumentem os problemas de saúde relacionados ao trabalho, expressões concretas de como a irracionalidade destrutiva do capitalismo joga na lata do lixo aqueles capazes de gerar toda a riqueza.

Cláudio, de Francisco Morato, é encarregado e foi atropelado em frente a seu local de serviço. A empresa deveria notificar o acidente de trabalho, mas registrou como doença para não pagar os encargos: “queria ter saúde para continuar trabalhando, mas não consigo nem levantar um quilo de açúcar”. Apreensivo em relação ao futuro, procura a assistência social do governo e sequer tem garantias de que terá auxílio justo. No INSS, há muitos casos de trabalhadores que foram mandados de volta ao trabalho mesmo sem estarem em condições para trabalhar.

José Raimundo, pedreiro, morador do Jd. Ângela, teve o desprezo do médico do trabalho que banalizou o seu acidente e o liberou para voltar à obra no prédio em que trabalhava. Em 2007, teve a mão direita esmagada por uma ferramenta, aos 27 anos. Até hoje briga pra conseguir suas indenizações, para sustentar os 3 filhos que cria sozinho. “A gente só tem valor quando tá trabalhando. Quem enche o bolso é os patrão, e nós ganha a merrequinha, é a maior carestia do mundo, e a consequência cai pra cima do trabalhador”.

Camila, de Guarulhos, pagou caro essas consequências. Trabalhava numa farmácia e tinha que bater metas irrealizáveis. Perdeu 10 kg em 6 meses e ficou com anemia pra suportar a rotina de trabalho e estudo, sob o risco de — ao largar a escola — ter o benefício do Bolsa Família concedido à sua mãe cortado. “Fui ficando fraca, vivia desmaiando, precisei sair. Fiquei na pior: tinha que receber seguro desemprego, e não me deram. Eles tão diminuindo muito o quadro de funcionários; se você não mostrar que é útil, vão te dispensar; se você mostrar que é útil, vai ser explorado ao máximo! Recebia 600 reais, teve mês de receber só 100. Não viam a hora que eu fazia a mais, mas se eu chegasse minutos atrasada, eles descontavam tudo de mim”.

Para Camila, “o trabalhador sempre dá uma forma de se segurar no meio da crise, é acostumado a viver no perrengue. Daí, mano, se os trabalhadores estivessem no poder, provavelmente davam um jeito mais fácil de resolver a crise; se os trabalhadores estivessem no poder, a crise ia ser ficha; ia ser rápido pra terminar”.