! entrevista com o "mouvement anti-loi travail" - Território Livre

entrevista com o “mouvement anti-loi travail”

version française

O “Mouvement Anti-Loi Travail” (Movimento Anti-Lei do Trabalho) acompanha os protestos e manifestações da juventude e dos trabalhadores franceses contra a reforma trabalhista do governo Hollande e respondeu a algumas perguntas do Território Livre sobre o movimento e suas perspectivas. Abaixo a íntegra da entrevista:

Território Livre: Em linhas gerais, quais são os ataques que essa lei representa para a juventude e para os trabalhadores franceses?

Mouvement Anti-Loi Travail: Para nós, é uma tentativa de oscilar em direção a um “modelo alemão” que domina na Europa: uma baixa considerável de salários, nenhuma garantia social para o trabalhador: ele poderá ser demitido mais facilmente, mas isso também representa uma individualização da relação trabalhista: nós não teremos mais todos a mesma lei, mas cada um terá uma lei diferente em sua própria empresa, o que significa que nós não poderemos mais lutar tanto como classe, mas mais como indivíduos.
Essas condições já existem, infelizmente, para uma parte do proletariado francês:com essa lei, o estado vai assim legaliza-la e generalizá-la a todos os trabalhadores.
Isso se insere dentro de uma reestruturação geral do capitalismo, e toda a Europa já passou por ela: na Inglaterra com Thatcher e Blair, na Alemanha com Schroder (Reformas Hartz, anos 2000) e no sul da Europa mais recentemente, em torno de 2010: Grécia, Espanha, Portugal, Itália (“job act”, 2015). Porque ela não chegou mais cedo na França? Porque aqui houve uma série de movimentações sociais contra as reformas liberalizantes: 1995, 2003, 2006, 2010 e agora 2016!

TL: Nós temos visto que os trabalhadores tem paralisado as refinarias, o transporte público e mesmo jornais da imprensa burguesa, ao mesmo tempo em que a juventude resiste à repressão da CRS (a tropa de choque francesa). Existe alguma articulação entre a luta da juventude e a dos trabalhadores?

Mouvement: A juventude é efetivamente numerosa, encabeçando em grande número as manifestações, enfrentando a polícia e mostrando sua revolta através da destruição de símbolos do capitalismo como bancos, lojas de luxo, e viaturas policiais. Trata-se de um fenômeno novo, que tantas pessoas tomem a frente das manifestações, sem se filiarem nem a partidos nem a sindicatos, mas autonomamente. Milhares de jovens (e alguns não tão jovens assim) se encontram nesse lugar, enfrentam a polícia e desenvolvem técnicas de contra-repressão: há um equipe de “médicos de rua” que socorre os feridos e uma equipe anti-repressão “Decol” (Defesa Coletiva) que assegura a ajuda jurídica para os presos nas manifestações.

Esse fenômeno é o mais midiático, mas não dá conta do conjunto das manifestações, porque os jovens são alguns milhares, mas os outros, os trabalhadores, são dezenas de milhares. Eles também são combativos, eles também estão irritadíssimos. Faz seis anos que a França não via nenhuma grande movimentação social e, durante esses seis anos, a repressão patronal e estatal foi bastante dura: várias leis foram aprovadas para liberalizar a economia, para endurecer e acabar com os direitos dos pobres, como a declaração do Estado de urgência , por exemplo.

A luta da juventude que se expressa nas ruas está dentro da luta de classes tanto quanto a luta dos trabalhadores. Os jovens se veem hoje numa situação particular: eles são muito mais atingidos pela pobreza e pela precariedade social em comparação com outras gerações e faixas etárias, eles são mais atingidos pelo desemprego e são contratados em empregos mais precários, porque não são fixos (cdd, contrato de duração determinada), enquanto os outros trabalhadores têm empregos fixos (cdi, contrato de duração indeterminada).

Essa juventude, que vê suas condições materiais se degradarem, também viu suas condições de luta se endurecerem profundamente. De minha parte, eu entrei no liceu em 2004 e tomei parte em diversas lutas: contra a reforma escolar (2005), contra o CPE 1 (2006), pela regularização dos camaradas imigrantes sem documentação (2007). Quando eu saí do liceu em 2007, e retornei a vê-lo em 2008/2010, constatei que o clima não era mais o mesmo. A polícia vinha rapidamente aos piquetes, mesmo com “flashballs” , quando no meu tempo a polícia não vinha ou vinha muito tardiamente. Hoje, a polícia aparece sistematicamente na frente dos liceus, mesmo dos burgueses, para desmontar os piquetes. A repressão contra os liceus aumenta gradualmente até agora: hoje, dezenas de estudantes de liceu são levados em custódia por conta do incêndio de lixos, o que parecia impossível há alguns anos. Sei que isso não tem nada a ver com a repressão no Brasil, mas aqui isso representa muito!

Além disso, depois de alguns anos, a escola pública também se transformou em um local de repressão: as meninas usando véu são suspensas, mesmo uma menina que usava uma saia muito longa foi suspensa! Depois dos atentados, os jovens que afirmaram sua complacência em relação aos terroristas foram levados à polícia com acusações de apologia ao terrorismo. Essas repressões altamente midiáticas, que demonizam os jovens, mascaram o fato de que a escola tem cada vez menos recursos e não tenta nem mesmo esconder qual é seu pequeno sucesso: fabricar proletários em larga escala.

Esses fenômenos de repressão, muito elogiados pela mídia, no meu entender, são muito ligados à reestruturação do capitalismo; a juventude é tratada de maneira muito dura pelo Estado, e esse tratamento exageradamente midiático, que demoniza uma parcela dos jovens, não serve a nada a não ser realizar uma degradação de seus direitos e de seu valor no mercado de trabalho.

Assim, os jovens (classes médias e populares), que se mobilizam cada vez mais desde os distúrbios de 2005 , são um ponto crucial da sociedade francesa: é pela juventude que se opera a baixa de salários e de direitos civis. Ela é assim particularmente combativa, como os outros trabalhadores.

Assim nossas forças estiveram juntas em cidades como Le Havre e Saint Nazare, quando foram paralisadas por greves em setores estratégicos (estivadores, petroleiros) e bloqueadas pelos manifestantes. Também estivemos nas linhas de piquete onde se encontram os precarizados para participar dos bloqueios de depósitos de petróleo como em Lille ou Marselha e nas manifestações de rua onde a juventude mostra sua revolta, como em Nantes, Rennes e Paris.

TL: Aqui no Brasil nós também sofremos ataques do governo (restrição do acesso ao seguro-desemprego, cortes na educação e na saúde, reforma da previdência, os gastos absurdos com as Olimpíadas) e a juventude e os trabalhadores tem resistido a esses ataques, principalmente depois de junho de 2013. Vocês tem uma mensagem para a juventude brasileira que luta?

Mouvement: Em primeiro lugar, parabéns por suas lutas! Nós ficamos bastante impressionados com os movimentos de 2013, que tiveram um eco particularmente na Praça Taksim na Turquia e através de todo mundo. Junto com as revoluções árabes, depois em 2013 no Brasil e na Turquia, e os movimentos na Grécia e na Espanha, isso representou para nós um novo momento na luta de classes: o mundo inteiro está em cólera e é capaz de se sublevar!