! a máquina de moer a juventude - Território Livre

a máquina de moer a juventude

No centro de São Paulo um grupo de jovens resume o que é ser explorado em três números: dez, vinte e dez.
Na jornada de trabalho dos operadores de telemarketing da maioria das empresas, 10 min, 20 min e 10 min são as pausas no serviço, que incluem a parada para o almoço. Eis a forma como as grandes corporações trituram a dignidade de um jovem trabalhador.

“Minha carga horária é de 6 horas. Tenho 10 minutos de café. 20 pra almoçar, que só dá pra fazer se você bater a comida no liquidificador e beber. E tem mais 10 minutos de pausa, que se estourar, você perde, e é descontado. Eles me dão 42 reais de benefício no VR e no VA, não dá nem pra comprar o pão do mês. O salário é R$ 733, mas nunca vi esses 700 em cor viva. Tem muitos descontos”, desabafa Paulo, de 19 anos, morador de Pirituba.

Diante da dificuldade de arranjar um emprego em melhores condições ou relatando experiências anteriores piores, alguns ali até relativizam a exploração e consideram o telemarketing uma forma melhor de fazer dinheiro fácil, devido à possibilidade de ganhar alguma comissão pelas vendas. Porém, o dinheiro fácil fica claramente nas mãos dos patrões: “O problema é que não temos uma noção muito ampla dos resultados, apenas é relatado o que nós vendemos. Recentemente entregamos para o banco R$ 1 milhão e 60 mil em empréstimos. Eles é que dizem quanto fazer no dia pra bater a meta. O salário tem uns descontos, daí fica por volta de 680. Não acho justo”, sintetiza Felipe, 24 anos.

FANTASIA X REALIDADE

Apesar desse contraste, as chefias usam termos como “colaborador” para dar a ideia de que empresa e empregado são um time. Vende-se a ilusão de que o mundo do trabalho é uma ilha da fantasia onde “se esforçando você consegue”. Enquanto isso, os ministros do governo defendem os cortes bilionários no orçamento – na saúde, na educação e outros setores – e as medidas que restringem o acesso a direitos trabalhistas, como o seguro desemprego.

Num momento em que, em apenas um mês, 98 mil pessoas são colocadas no olho da rua, a realidade dos jovens aprendizes supera a fantasia. Em São Bernardo, os aprendizes do centro de formação (CAMP) têm clareza: são descartáveis. Um deles, que não se identifica, resume: “não consigo ter perspectiva. Quando sair daqui, lá fora 20 jovens estão esperando minha vaga”.

Moradora do Jaçanã, ZN de SP, Beatriz, de apenas 15 anos, conseguiu um vaga de auxiliar administrativa no bairro nobre da Vila Olímpia: “O salário ajuda um pouquinho, comecei a trampar pra ajudar em casa, pra comprar comida. A gente já passou por uma época de não ter dinheiro pra comer. Dou o vale alimentação pra minha mãe fazer as compras do mês”, conta.

Para se locomover até a escola na Vila Nova Galvão, Beatriz gasta até 3h e, quando se atrasa, vê o portão fechado. Não tem apoio nem da escola nem da empresa, e desmascara a ficção pedagógica do programa de aprendizes: “Ah, mas o horário tá batendo com a minha escola? Os caras vão responder: então você não pode trabalhar aqui, você só vai estudar. Eles contratam a partir dos 14 anos. E a galera trabalha com menos horário de almoço, e com menos benefícios que os contratados”.

ORGANIZAÇÃO

Frente ao abuso dos patrões e aos constantes ataques dos governos, a revolta entre os trabalhadores só aumenta. Os sindicatos, ferramenta que poderia auxiliar numa resistência, mostram-se pouco efetivos. “O sindicato nunca apareceu, infelizmente nunca lutamos”, lamenta a operadora de call center, Paola, 23 anos, moradora da ZN de SP.

A desarticulação entre os jovens trabalhadores é uma constante. Há poucos meses aconteceu um ato mundial contra a precarização do trabalho dos funcionários do Mc Donalds. Em São Paulo, o protesto era composto apenas por burocratas do sindicatos e pouquíssimos jovens. Um pequeno grupo de funcionários do fast food na ZL marcou entre si pelas redes sociais e foi sozinho ao ato. Denunciaram as péssimas condições de trabalho, mas perceberam o caráter burocrático do protesto e até ficaram com receio de o sindicato os denunciar para a empresa.

Diante da fragilidade e desarticulação, a única saída é a organização. Unidos somos fortes. É hora da juventude se organizar e lutar por seu futuro.

TRABALHADORES DO RJ: EXEMPLO DE LUTA!

Em meio ao gigantesco escândalo de corrupção na Petrobras, empresas terceirizadas deram o calote e houve demissão de cerca de 3 mil operários no pólo petroquímico da Comperj, no Rio de Janeiro, no começo deste ano. Em 2014, em mobilização por melhores condições de trabalho e salário, funcionários de lá chegaram a ser alvejados com arma de fogo e denunciaram que os tiros foram dados por seguranças do sindicato. Os operários fecharam a gigantesca ponte Rio-Niteroi em protesto.

Os operários do Comperj seguem o exemplo dos garis cariocas em 2014. Em pleno carnaval, os garis fizeram uma greve “selvagem”, pois atropelaram a burocracia sindical e criaram órgãos de luta pela base. Assim eles demarcam o nascimento de um novo sindicalismo, independente, combativo e democrático, organizado pelas bases.

Como atesta o gari Célio, “ficou caracterizado que aquele sindicato não nos representa. Foi tirada ali, de forma democrática, uma comissão de greve. Quem ia negociar eram os trabalhadores. Ninguém poderia tomar atitude nenhuma sem antes consultar a base. A comissão era apenas uma ferramenta.”

A greve foi vitoriosa e a experiência da democracia direta serviu de exemplo para outras categorias. Muitos dos garis mobilizados foram demitidos por justa causa e alguns sofrem processos. A perseguição política não desanima Célio: “vamos fazer como o povo, lutar por nós. O gari é como se fosse uma criança. Ainda não aprendeu a andar, imagina quando aprender? O trabalhador tá começando a discutir política”.