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entrevista: a luta dos garis contra as velhas estruturas

O Território Livre entrevistou Célio Viana. Célio Gari, 49, fez parte da comissão de greve na histórica mobilização dos garis cariocas, em 2014, e hoje é um dos trabalhadores demitidos da Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro).

TL – Como tem sido o cotidiano e a repressão à luta dos garis do RJ?

Célio Gari – O trabalhador fica receoso de participar dos movimentos. Eles sempre mandam alguém infiltrado pra filmar, para o trabalhador sofrer retaliação. A maior parte dos trabalhadores foram demitidos por curtir a página dos Garis do RJ em Luta. Sofreram transferência, ou demissão porque a COMLURB acha que esse trabalhador é uma potencial liderança para conduzir mais um movimento de greve. Nós que somos trabalhadores, que vivemos na opressão, mas que procuramos achar uma brecha e saímos para as ruas. Em 2014 pegamos eles no contra-pé, em 2015 falaram “vamos ter que castigar esses caras, porque esses negros tem que ficar presos na senzala, não podem sair… mordaça nesses caras”. E, como contribuição, nos propuseram esse castigo da demissão sumária por justa causa.

TL – Quantos foram demitidos na mobilização deste ano?

CG – Soube que em torno de 70. Acabei descobrindo que um jornal de esquerda falava em torno de 40 e poucos. Mas, na verdade, a COMLURB omite esses dados. Em 2014 vários trabalhadores falavam ter sido demitidos. Era algo irreal, pois tínhamos assinado, em 2014, um acordo que dizia que os trabalhadores não podiam sofrer retaliação, perseguição ou demissão. E daqui a pouco os trabalhadores dizendo que estavam sendo demitidos. Aí fizemos um ato contra a covardia na porta do nosso sindicato, pedindo uma postura daquela direção e que nos passasse os dados de quantos demitidos havia. O sindicato falou que haviam mandado só 3 trabalhadores embora. E eu falei, não é possível, porque são mais de três trabalhadores que estão falando comigo que foram mandados embora, não é possível. Pedi pra ver o comprovante, eles não deram. Me deram um papel, rascunho, com os dados fictícios e eu não engoli aquilo. Mas, para a infelicidade da COMLURB e do Sindicato, acabei obtendo os dados. Pós-greve de 2014, até setembro, mais de 200 tinham sido demitidos por justa causa. Todos eles relacionados ao movimento de greve.

TL – E agora?

CG – Em 2015 se repete. Não entregam os dados, enviam dados errados, porque temos um sindicato que não é aliado ao trabalhador mas à COMLURB e que blinda qualquer iniciativa que venha a surgir da base. Então a gente fica a mercê. A informação que a gente tem é de cerca de 70 demissões, mas como eles já estão acostumados a mentir…

TL – A função do sindicato virou a de asfixiar o movimento?

CG – A função do sindicato é essa. A de impedir o trabalhador se auto-organizar para ir à luta. Temos um sindicato aliado ao governo, um sindicato que perdeu totalmente sua identidade. Isso não é de agora, é de mais de três décadas. Participei agora de uma eleição, sempre houve eleição de chapa única e quando teve pessoas que tentaram montar uma chapa eles impugnaram. E nós conseguimos, com muito sacrifício, montar uma chapa. A categoria, esperançosa, 99% dos trabalhadores querendo uma nova direção do sindicato. Eles criaram uma série de dificuldades. Conseguimos entregar os documentos direitinho. Mas na hora das eleições eles não entregaram o documento primordial, a lista de filiados de trabalhadores sindicalizados em seus locais de trabalho. Ali fica caracterizada a fraude.

TL – A lista da chapa deles?

CG– É. Para você disputar uma eleição você tem que ter os dados dos filiados. Tem que saber quem são os filiados, quais os locais de trabalho. E eles, todavia, nos negaram esse documento. Porque é através desse documento que eles fraudam e levam as eleições. Levamos na justiça, ganhamos uma liminar pedindo a suspensão. E, segundo informações, até transferiram o juiz, deram férias. Aí vieram as eleições, não deixaram que nossos mesários os acompanhassem, tinha um horário estipulado pra sair as urnas, os caras saíam antes. Os caras trouxeram de São Paulo mais de 500 seguranças.

TL – Quais os grupos políticos que geralmente estão ligados ao sindicato?

CG – A central é a UGT. Trouxeram 50 brutamontes, os caras tem um aparato muito forte. Os trabalhadores ficaram assustados. Depois de três décadas, tínhamos uma chapa e a categoria esperançosa que aquele sindicato seria destituído através do voto legítimo e democrático. Quando chegaram lá e viram aquela muralha os caras se assustaram, até eu me assustei. Muitas vezes os trabalhadores eram impedidos de entrar. Seguranças dentro do nosso sindicato e a gente não podia entrar. E todos eles vestidos com camisa de Chapa 1, no intuito de intimidar. No fim, eles levaram, mas não sabem disputar uma eleição. Perderam, moralmente e politicamente. Eles têm apoio do próprio governo, porque é necessário que eles estejam ali para defender seus interesses. São acostumados a fazer acordo no conchavo. Mas, em 2014 e 2015, a categoria disse que não ia ter mais conchavo, quem ia decidir eram os trabalhadores.

TL – Quantos trabalhadores trabalhadores são representados pelo sindicato?

Um sindicato que pega a COMLURB e a ASSEIO – que são os trabalhadores da iniciativa privada – que deve ter em torno de 80 e poucos mil trabalhadores (no ASSEIO), na COMLURB 24.000 trabalhadores, sendo 12.000 garis, têm sindicalizados apenas 2.725 pessoas (a maior parte da COMLURB, apenas 300 ou 400 da terceirizada).

TL – O sindicato representa tanto a COMLURB como o ASSEIO?

CG – Sim. O que nos causou espanto foi que achávamos que os terceirizados eram os maiores sindicalizados. Então, como eles ganhariam uma eleição se a maioria dos trabalhadores da COMLURB estavam contra eles? Mas eles vivem numa zona de conforto, não interessa para eles sindicalizar ninguém, não fazem campanha de sindicalização, vivem do imposto sindical e tiraram daqui do nosso sindicato uma empresa vitalícia. Hoje o cara é presidente, amanhã tesoureiro… e assim fica girando entre eles. Não é um sindicato, é uma empresa dessa máfia.

TL – Qual o diferencial da luta dos garis em 2014?

CG- A categoria estava cansada dos conchavos e as redes sociais nos ajudaram bastante. Junho de 2013 também foi um grande impulsionador. Então juntando junho, o acesso às redes sociais e a insatisfação tivemos o diferencial que fez nos auto-organizarmos. O apoio maciço da população foi fundamental. As pessoas não sabiam qual era de fato o salário da categoria, quais eram de fato as condições de trabalho dos garis. O gari trabalha sempre sorrindo, é sempre solícito e um cara assim deve ganhar muito bem! Ali o cidadão percebeu o salário, as condições de trabalho e não acreditou. Não é possível que os trabalhadores que fazem a limpeza da cidade ganhem tão pouco. E mais, achavam que éramos trabalhadores estatutários, que fossemos funcionários da prefeitura. Não sabiam que éramos cebedistas. Na verdade rasgamos o véu da empresa e mostramos o que é a COMLURB de fato. Porque a COMLURB tem um programa de propaganda que mostra que todos ali estão bem mas as gestões são totalmente voltadas para oprimir o trabalhador. Parece que o cara que se torna gestor já vem com a cartilha que diz que tem que chicotear. Mas parece que esqueceram que também apanhando demais você se rebela. E nos rebelamos. Lutamos na verdade por direito. Mas, quando o trabalhador reivindica um melhor uniforme, melhor EPI, transporte, café da manhã, atendimento, esse trabalhador é um rebelde. E na verdade é o contrário, ele quer ajudar a COMLURB a se tornar uma empresa justa. A COMLURB é a maior empresa da América Latina de limpeza, e tem o terceiro maior orçamento do RJ.

TL – Quais as áreas de maior orçamento? Qual a importância os garis para a cidade?

CG – Saúde e educação. Saúde, fundamental. Educação, fundamental para o trabalhador. A limpeza, fundamental para a saúde da cidade. Como começamos a perceber, o histórico da COMLURB era: se você não estudar vai virar lixeiro. Como se fosse a pior das profissões, não serve pra nada. Esse é o histórico, eu ouvi isso muito na minha infância mas eu queria ser gari, porque via o trabalhador sorrindo, deve ser um trabalho bom pra caramba. Eu queria ser gari. Aí eu vi o sofrimento do trabalhador. Quando o trabalhador vai pra rua ele vai alegre, porque tem relação com a cidade, mas quando ele volta pra dentro da COMLURB muda, porque sabe que está num regime de escravidão.
As pessoas tem nojo de pegar lixo, te dão com as pontas dos dedos. Se aquilo contamina a cidade, essa profissão não é a pior das profissões. É um trabalho preventivo para que a cidade não fique doente. Então esse trabalhador precisa ser melhor remunerado. Para mim todos os trabalhadores tem que ganhar bem, ainda mais aquele trabalhador que trabalha todo dia com o lixo.

TL – Qual é o perfil do gari em geral?

CG -O perfil do trabalhador da COMLURB, que pegam no concurso, é o primário completo, maior de 18 anos, que tenha saúde perfeita, apesar de ter espaço para pessoas com alguma deficiência. Mas quanto menor o grau de instrução melhor.

TL – Durante a greve de 2014, a polícia chegou a fazer escolta armada para que os garis trabalhassem. Como foi essa repressão?

CG – Fizeram escolta armada pra intimidar o trabalhador, feito capitão do mato. E, detalhe, a maior parte dos policiais é de negros iguais aos garis. Negros combatendo negros. Como você vai conquistar outro trabalhador pela violência? Você conquista pelo diálogo mostrando a importância de que se deve parar, que se deve lutar. E eles colocando polícia como se tivesse pessoas a fim de agredir a moral física dos trabalhadores. Se o trabalhador quer ir trabalhar, que vá. Mas tem que ter consciência que uma vez indo trabalhar ele está mostrando ao governo que está satisfeito com seu trabalho. Então nosso trabalho é de apelo, sendo que muitos vão trabalhar pelo medo. Demitiram pessoas pelo celular. Fizeram agora um cadastro dos trabalhadores para ter acesso aos celulares dos trabalhadores, para mandar mensagem.

TL – A repressão continua?

CG – Acharam que em 2015 o trabalhador ia se intimidar porque em 2014 as mídias cobraram do prefeito. O prefeito foi taxativo: “temos um plano de contingência, nos pegaram de supresa. Não vai acontecer mais isso”. Em 2015, o trabalhador – em virtude das demissões de 2014, do não cumprimento do acordo, das más condições de trabalho e do arrocho salarial – voltou às ruas. E o plano de contingência? Teve em torno de 4 milhões de reais gastos contratando adolescentes, crianças, senhoras idosas, dependentes químicos, usuários de crack para trabalhar. Pagando de 100 a 150 reais por dia sem direito trabalhista, sem qualificação, sem treinamento. Pegamos esses dados e levamos ao ministério público e denunciamos a COMLURB. Uma empresa de capital misto que tem 99% das suas ações da prefeitura praticar um trabalho escravo, contratar pessoas sem direitos trabalhistas… e o que está sendo feito pelo MP?

TL – Fale mais das condições de trabalho. Qual era o salário médio e carga horária semanal do gari antes da greve do ano passado?

CG- Um gari ganhava R$ 803. Ele trabalha segunda e vai trabalhar até domingo. Na outra semana vai escolher um dia na semana de folga e ficar o domingo em casa. Mas muitas vezes não tem o direito de escolher o dia, a gerência escolhe. A cada quinze dias tem um domingo e um dia de folga. Num mês, quatro dias de folga, 8h por dia. O trabalhador fica doente. A falta de funcionários faz com que um trabalhador trabalhe por três.

TL – Qual o efetivo de garis hoje?

CG- Dizem que 12.000 garis para limpar toda a cidade em três turnos. Não dá vazão. Demitiram tantos trabalhadores e teve um concurso agora para contratar 100. Mas um concurso estratégico, pois sabiam que o trabalhador ia fazer greve. Então, se tirar 100 eles tem 100. Eles tinham se preparado. Se falta funcionário, se trabalhador trabalha por 3, porque contratar apenas 100? Aí tu vai ver que eles tavam preparados para demitir 100 para contratar 100. Olha como funciona a covardia.

Vou mostrar pra vocês em primeira mão. A COMLURB diz o seguinte, quando o trabalhador entra na empresa tem que estudar para crescer na empresa. Mas o trabalhador estuda, se forma, mas não tem chance de crescer na empresa. Aí tu pega um documento, isso é um exemplo, olha esse cidadão: um diretor de informação da cidade, Luís Roberto Aroeira, é engenheiro de carreira da Prefeitura do Rio é Diretor de Informação da cidade formado pela UFRJ, ou seja um homem qualificado. Fez concurso, porque é concursado. É um chefe, diretor de informação, da prefeitura. Aí ele utiliza esse cargo dele, influências políticas para fazer isso aqui. Isso aqui é um diário oficial do RJ: “designar André Aroeira, filho dele… com validade a partir de junho de 2014, para emprego de confiança de coordenador especial de diretoria. Contrataram o cara, cargo de confiança. O que essa categoria recebe como salário inicial? Ele vai receber inicialmente R$ 10.954,06 e ainda vai ter um adicional de R$ 5.246,56. Esse é um caso que ocorre de nepotismo dentro da prefeitura. Fora o presidente do nosso sindicato que também pratica nepotismo, que tem um filho que também é assessor de diretoria da COMLURB. O filho desse cidadão ganha inicialmente, isso é salário de 2014, porque houve um aumento de 8 % linear, ele vai ganhar inicialmente R$7.233,56 mais R$2.080,94 de gratificação. E o que o gari ganha? Hoje um salário R$1100, vai ganhar a gratificação obrigatória por insalubridade de 40%. Mais nada, não ganha gratificação. O que justifica esses senhores ganharem adicional? É assim que funciona a COMLURB uma empresa política em que o trabalhador não pode lutar por seus direitos. Nós lutamos pra isso. Contra esse tipo de arbitrariedade. O trabalhador entra na empresa e quer crescer, quer fazer carreira na empresa. Muitas vezes tem gerentes falando tu estudou vai embora. O cara não tem que ir embora, tem que estar aqui pra crescer. Ele quer chegar no topo da pirâmide. Mas esquecem daquele ditado: quando os de baixo balançam os de cima caem.

TL – Quais eram as reivindicações dos garis?

CG – Mandamos uma pauta de reivindicação com 28 itens. Os caras pegaram um mês e pouco a pauta. Quando vieram nos oferecer, era 3% de aumento sendo que meses antes nos parabenizaram pela limpeza do RJ. São uns brincalhões. E agora de forma arbitrária demitem mais de setenta trabalhadores por exercerem seu direito. O que queremos hoje é dialogar com a cidade, queremos a multidão na rua, companheiros.

Junho mostrou nossas necessidades. O gari tem um plano de saúde e pode colocar um dependente. Mas o gari não tem um dependente, tem vários. E esses dependentes vivem do SUS. E os filhos dos garis estudam nas escolas públicas. Então junho reflete claramente o desejo do gari. Nós temos que voltar pras ruas porque não estamos sendo atendidos.

TL – Você entrou em que ano na empresa? Como foi sua experiência em Junho?

CG – Entrei em 2002, estou com 49 anos. Em junho de 2013 estava trabalhando em Jacarepaguá, Cidade de Deus. Cara, aquela coisa fervilhando, bombando. Era o tal de anonymous pra cá, pra lá. Falei cara, maravilha, o povo acordou. E tu vê aquela multidão de pessoas. Não tinha partido, cara. Não tinha central sindical, era o povo. E depois o povo esmorece…

TL – O que os garis fizeram em 2014 foi um passo além em termos de organização?

CG – Foi reflexo. Ali foi na verdade a semente que começou a brotar. E nós não poderíamos contar com as velhas estruturas, com os velhos aparatos. Vamos fazer como o povo, lutar por nós. Foi um feito histórico, justo, e que era necessário. E é necessário. O gari é como se fosse uma criança, ele tem um ano. Ele ainda não aprendeu a andar, imagina quando aprender? O trabalhador tá começando a discutir política. O trabalhador não discutia política. Você chegava no refeitório pra comer, falava o que você trouxe? Ah, ovo, galinha. Depois o futebol, a novela. Acabou. Não tem novela, não tem o que o cara trouxe na marmita. Se discute política hoje. O prefeito, o vereador, o deputado, o presidente… trabalhador discutindo economia. Porra, isso foi um grande aprendizado. O trabalhador discutindo política e sabendo o que é uma perseguição política, o que é uma demissão arbitrária, política, em termos de exercício do direito de greve.

TL – Como tem sido feito esse debate com os trabalhadores?

CG: Hoje eu estava no Campo Santana conversando com uns sete garis e começaram a falar das demissões: “pô, sacanagem, covardia desses caras, eles tão fazendo isso pra minar a luta”… e foi enchendo de garis, tinha dois, ficou três, uns quatro, cinco, os cara perguntando e a gente debatendo sobre aquilo, sobre as mentiras que foram empregadas contra nós e apareceu um encarregado. Aí eu pensei: “putz, esse encarregado aí é ruim, hein?”. Mas não, o encarregado também se inseriu, porque o encarregado também em 2014 foi penalizado, eles não participaram da greve, quem participou foram os gari, vigias, operadores… encarregados não. Eles não receberam aumento, porque o aumento não foi linear, só foi pro gari e pros agentes de preparo de alimento.
E esses caras foram penalizados porque o sindicato não lutou. Venderam pra eles a ideia de que o Célio Gari tava querendo acabar e privatizar a COMLURB! Eu perguntei: ô, companheiro, algum de vocês é estatutário? Qual nosso regime? Celetista. Qual foi nossa pauta? Não era para que nos tornássemos estatutários? A Comlurb, os caminhões da Comlurb, todos eles são terceirizados. Os motoristas? Terceirizados. Recepcionistas? Terceirizados. Ou seja, a própria prefeitura tá privatizando de dentro pra fora. O nosso dever é não permitir que os governantes venham privatizar a Comlurb, afim de entregar na mão dos empresários. Qual o objetivo desses governos que estão aí hoje? Aplicar a PL 4330. Vejam só os nossos companheiros aqui da ASSEIO, sem receber salário? E o sindicato que não deu uma nota no seu site sobre as demissões, que não dá uma nota de apoio, de solidariedade aos trabalhadores terceirizados. O sindicato que vive de imposto sindical, que poderia pegar aquele dinheiro que eles tem, pagar os trabalhadores pra depois cobrar das empresas. Não tá tem aí, sabe o porquê? Não é um sindicato que tem compromisso com o trabalhador, é um sindicato que não tem diálogo com sua base. Nós temos que parar e discutir um sindicato de novo tipo, a discussão do sindicato, e dessas velhas estruturas.

TL – Na greve de 2014, vocês utilizaram a democracia direta, com assembleias e eleição de representantes revogáveis, como forma de combater a burocratização do sindicato. Durante a negociação de greve, 9 dos 10 representantes queriam aceitar um acordo e foram revogados na assembleia seguinte. Como foi essa experiência?

CG – O sindicato decreta greve, pela pressão da categoria, depois de termos rejeitado um acordo feito por eles. E menos de 24h, eles dizem que a greve era ilegal mas assinam um documento, primeiro dizendo que era pra voltarmos para o sindicato com uma assembleia e, quando a gente chega lá, a gerência diz que a greve é ilegal e que o sindicato emitiu outro documento. A partir daí nós não queríamos saber mais.

TL – Eles queriam fazer uma greve de fachada?

CG – Isso. Fomos, os trabalhadores todos pra porta do sindicato aguardando a diretoria, a direção do sindicato pra fazer essa greve. Eles apareceram? Não. Ali ficou caracterizado que aquele sindicato não nos representa. Foi tirado ali, de forma democrática, uma comissão de greve. Então, os trabalhadores decidiram quem iam ser os dez que iriam representá-los. Não tinha sindicato, nada, era o trabalhador. Aquela massa lá, sentamos no chão e falamos: “nós temos que ter uma comissão de greve”. E os trabalhadores que vão escolher aqui, entre todos, essa comissão. E dessa forma foi escolhido. Fulano, fulano, fulano… e deram poderes desses dez fazerem as negociações. Mas com um agravante, isso era importante: que os dez eram apenas uma ferramenta, companheiro. Ninguém poderia tomar atitude nenhuma sem antes consultar a base. Quem ia negociar eram os trabalhadores. A comissão era apenas uma ferramenta. Tivemos várias negociações, teve essa que vocês citaram, na qual eu estava lá dentro, foi uma negociação com o defensor público estadual, na qual tinham policiais de um lado, chamaram nós pra negociarmos e eu lembro muito que um segurança lá do presidente da Comlurb falou o seguinte: vocês vão subir, tá, vocês vão ter um encontro com o defensor público, que vai negociar e mediar essa negociação. Aí eu falei não, a gente quer que os nossos advogados subam. Nossos advogados são ativistas, queremos que eles subam e também tinha advogado da OAB. E eles não queriam deixar. Então a gente só vai subir se os advogados subirem. E a condição imposta foi a seguinte: tudo bem, vocês vão subir, mas os advogados não vão poder falar. Ok, então, mas que eles subam, pelo menos vão ser observadores. Isso foi feito, subimos, só poderiam falar os garis, o defensor público, tinha lá três policiais lá, nós sentados na mesa, os advogados lá atrás e o defensor público aqui. Um senhor negro, começou a contar a história dele. História triste, que ele veio da comunidade de Vigário Geral, blábláblá, contou todo o histórico dele, como ele conseguiu chegar lá, e que estava disposto a mediar aquela negociação e que nós já éramos vitoriosos por ter conseguido fazer mobilização, que era interessante nós aceitarmos os oitocentos e poucos reais que eles tinham nos oferecido e que ele conseguiria abrir uma lacuna de discussão com a prefeitura e o presidente no decorrer do ano. Os companheiros, cara, sorriram, me afastei, numa cadeira, fui prum canto, fiquei observando o grande circo. Eu percebi claramente que o cara, o defensor público, estava utilizando de táticas psicológicas. Ele hipnotizou. Acho que na hora que ele começou a hipnotizar eu devo ter piscado e consegui não ser hipnotizado.

TL – Ele se valeu do fato de ter uma origem humilde pra falar “somos iguais”?

CG – Porra! O cara ficava com o olho assim, fiquei olhando e prestando atenção naquele circo. E os colegas hipnotizados aceitaram a proposta. Eu saí do meu canto e falei: “companheiros, com todo o respeito ao defensor público, respeito o senhor, mas a proposta do senhor não é uma boa proposta, respeito vocês companheiros, mas não acho que vocês tem que aceitar nada, porque não somos nós que temos que decidir nada, quem tem que decidir é a base. Eu não quero mais fazer parte dessa negociação porque não contempla a categoria. E não me contempla. Então estou me retirando aqui da sala”. Queriam me dar até porrada. “O cara é maluco, porque você tá colocando os trabalhadores em risco, porque você desempregava trezentos…”. Aí me aparece o segurança do presidente e me fala: “olha, não são só trezentos não, tá, são 1100”. Eu falei: “o senhor falou que ninguém teria o direito de falar aqui. O senhor está fazendo uso da palavra. Quem tem que falar aqui são somente os garis e o defensor. Mas tudo bem, foi bom saber que o número aumentou pra 1100”. “Companheiros, não somos nós que vamos decidir. Eu não estou colocando o emprego de ninguém em risco. É que nós temos que consultar a base, a base é quem decide, não somos nós que temos que decidir”. Mas os caras parecem que conseguiram absorver, baixou o espírito de poder da comissão deles, que eles achavam que como comissão deveriam falar para o trabalhador. Aí quando chegou lá embaixo… era nove contra a minha pessoa, cara. Eles pegaram o microfone e começaram a reproduzir de forma fiel, cara, fiel, como se eles tivessem decorado um texto. Eles falaram tudo o que o defensor público passou. Nós somos vitoriosos… é importante… ninguém vai perder seu emprego… rapaz, eu olhei os olhos de cada trabalhador ali, rapaz. Vi a tristeza do cara, o cara não acreditando que lutou pra morrer na praia. Cara, eu falei, porra, não, a decepção desses caras… e eu tentei pegar o microfone e os caras me impediam. Até teve uma hora que eu peguei e falei o seguinte: “quem decide é a categoria. Essa comissão que está aqui ela não tem autoridade nenhuma de decidir nada. Quem vai decidir é os trabalhadores, agora vou falar por mim, por mim, sério, a greve continua porque ela não vai morrer na praia”. E a galera – buf! Explodiu. cara. Falaram “não tem arrego, parceiro”. Desculpa aí, cara, mas foi o momento mais feliz. Ninguém tava ali brincando, a gente tava lutando por dignidade. A categoria explodiu como se fosse um gol na prorrogação, nos últimos minutos pra se ganhar uma copa do mundo. E a categoria gritou: “não tem arrego, esse lixo vai feder, esse lixo vai feder”. E fedeu… os caras pegaram, saíram fora e falaram que iam voltar pros seus locais de trabalho. Aí, a greve, a luta continua.

TL: A nova comissão foi eleita no mesmo dia?

CG – No outro dia nos organizamos e escolhemos uma nova comissão. Outros companheiros e um da antiga, que depois concordou. Ele não foi trabalhar, ele deve ter refletido e falou: “não, eu tenho que continuar na luta”. Ele foi integrado na segunda comissão e tocamos a luta e a coisa já tava fedendo mesmo, fedendo, fedendo, houve aquela audiência de emergência, no TRT, onde foi uma outra porrada. A categoria lá gritando e eu deixei bem claro: “quem vai decidir é os trabalhadores, eu não vou decidir por ninguém e ninguém aqui vai decidir por ninguém”. Nós subimos e eu falei: “vocês podem acreditar, ninguém vai assinar nada. Qualquer proposta vai ser passada por vocês, podem confiar”. Subimos. Rapaz, aquela negociação… dura, com Pedro Paulo, secretário da Casa Civil e que vai vir agora pra ser prefeito do RJ. Tu imagina, o cara fazendo uma negociação rasteira, oferecendo cem reais a mais. E chama no canto pra conversar, né? “Não! Vem fulano e vem sicrano aqui. Companheiro, não sou eu quem decido nada, quem vai decidir é a categoria, não adianta você me chamar pra um canto”. Falei: secretário, o senhor gasta milhões de reais com festinha, nós ralamos de dia, de noite, de tarde, no vento, no sol e na chuva. Nós merecemos o mínimo de respeito e melhores condições salarias e de trabalho. Pedro Paulo, não sou eu que negocio. Quem negocia é aquela comissão lá embaixo. A proposta que você falar aqui eu vou levar pra aquela comissão e a resposta você vai ouvir daquela comissão daqui de cima”. E levei a proposta rasteira, a categoria gritou lá debaixo pra ele. Subi: “você ouviu. Essa é a resposta. Nós queremos 1200 reais, plano odontológico, décimo quarto, participação de resultado, tudo a que tinha direito, é isso que nós queremos”. E pá e pá, aquela negociação dura, enfim, chegou os finalmentes. 1100 e o restante todo ia ser contemplado, todos aqueles outros itens, nós iríamos ser beneficiados. Perdemos por cem reais. Nós tivemos um ganho de benefícios que nós não tínhamos antes.

TL- O que foi assinado?

Foi aquilo ali tudinho, não demissões, perseguições, retaliações. E daí assinamos tudo direito. A categoria saiu alegre e feliz, mas não esperávamos a covardia que eles iriam cometer no andar da carruagem, que foi a demissão de mais de duzentos trabalhadores.

TL- Dos que participaram da comissão, há algum demitido político além de você?

CG: Tem o Bruno também. O restante tá aí trabalhando.

TL- Fora do período de greve, sem assembleias, como fazem para manter a categoria unida?

CG – A cultura do medo impera dentro da Comlurb. Eu me considero funcionário da empresa, acordo cedo e vou na gerência falar com os trabalhadores, levo documentos, mostrando pro trabalhador que a luta continua, mostrando pro trabalhador que ele não pode esmorecer porque a prefeitura e o sindicato não querem que se despertem novas lideranças. Essas demissões políticas têm como pano de fundo as Olimpíadas de 2016 e o dissídio vai cair novamente no carnaval e que o trabalhador tem que se manter firme. Porque nós não temos uma cultura sindicalista como tem outras categorias, estamos engatinhando ainda. Mas tamos começando a colocar nas redes sociais, despertar os trabalhadores, ter consciência de ajudar com caixinha, de depositar o dinheiro ali pra manter os trabalhadores na militância, o que vai nos fortalecer é o apoio financeiro pra continuarmos na luta, você tem que gastar dinheiro pra ir na gerência, cê faz um lanche, um almoço, tal, é colocar na cabeça do trabalhador a solidariedade para com o outro nesses momentos difíceis. Nós não somos uma central sindical, somos apenas trabalhadores. Do meu ponto de vista, as centrais sindicais de esquerda deveriam dar todo apoio para que a luta vá em frente. Então a gente taí, fazendo esse trabalho de conscientização, é um trabalho… a gente tá jogando a semente aí, começando a falar pro trabalhador: cara, você tem que ser solidário, doa ali uma farinha, um arroz, para que se crie, para que se faça uma cesta básica, para que esses trabalhadores demitidos possam levar pra sua residência, para que ele tenha condições de se locomover na gerência, são mais de cem gerências, todos locais distantes, e a gente não tem Vale Transporte, então você tem que pagar cada vez passagem, então tem que ter um gasto. E a gente taí, indo pras ruas, pras gerências, conversando, dialogando com o trabalhador, tamos sempre sendo bem recebidos, mas os trabalhadores sempre com um olho no padre outro na missa pra ver se o chefe não tá olhando.

TL- E como você avalia a atual conjuntura de crise e os ataques do governo contra os trabalhadores?

CG: Eu almejei que o Lula entrasse no poder, me emocionei, falei, “porra, até que enfim um trabalhador vai governar o país. Vai ser um governo voltado pro trabalhador”. O que nós estamos vendo hoje? É um governo que está mais voltado pros interesses dos empresários do que dos trabalhadores. Aí você fica naquela: porra, não tá me representando. Por exemplo, o problema da Petrobrás, só trabalhador… se eles fizeram a merda deles lá eles que paguem. Agora o que não podemos é nós trabalhadores pagar pelo arrocho salarial que tá sendo aplicado pela merda que eles fizeram, entendeu? Ou seja: não to vendo um momento sendo favorável o governo federal para o trabalhador, né. Vou te dar outro exemplo aqui no Rio de Janeiro. Nós temos falado muito do prefeito, que é o Eduardo. Mas essas demissões que tão ocorrendo com os trabalhadores elas tem nome e sobrenome, companheiros. As perseguições aos professores também. O nome é Eduardo Paes, o sobrenome é Adilson Pires, Eduardo Paes é do PMDB, Adilson Pires seu vice do PT.
2014: trabalhadores tavam fazendo greve. Porque é que Adilson Pires, vice-prefeito, não chamou esses trabalhadores pra conversar? 2015: Adilson Pires, vice-prefeito do PT, tá vendo os trabalhadores fazendo greve, porque não chamou pra dialogar? 2015 novamente: os trabalhadores sofreram perseguição política por exercer seus direitos de trabalho, porque ele até agora não se manifestou, se se diz Partido dos Trabalhadores? Ou seja: acho que o Partido dos Trabalhadores esqueceu sua origem. O reflexo aqui no Rio de Janeiro é o reflexo do Federal, as pancadarias que você vê aí; qualquer mobilização, porrada. Isso no Brasil inteiro.

TL- Você tem tocado uma luta independente. Além da repressão, outro risco que os lutadores sofrem é o da cooptação. Você tem medo de ser cooptado? Acha que as lideranças que surgem no processo de luta correm o risco de serem cooptadas?

CG- Vamos lá. Suponhamos que o povo seja a minha categoria. Se o povo me dá retaguarda, não tem como me cooptar. O povo, e lógico, e eu também tenho que dar segurança pro meu povo, tenho que mostrar a franqueza e a realidade pro meu povo pra que meu povo também me dê retaguarda. Para que a gente possamos avançar. Eu acho que tem que ser essa troca. Eu ser sincero com meu povo, e meu povo ser fiel a mim, para que dessa forma possamos trocar.

TL- Quais as perspectivas de luta?

CG: Eu acho que algo tá pra surgir no nosso país. Eu acho que o povo vai ter que escolher uma nova direção, uma nova concepção de partido, uma nova fórmula de se governar esse país, esse estado, esses municípios. E essa fórmula ela tem que emanar do povo. A gente vai ter que dialogar com a cidade. Não podemos viver sob o jugo das arbitrariedades. Quando eu falo “a cidade”, são os trabalhadores. Trabalhador tem que se engajar na causa de outro trabalhador. A causa do gari não é uma causa isolada. A causa do gari é de todos.