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entrevista com terceirizado em greve da ufrj

O Território Livre entrevistou o trabalhador M. de 26 anos durante a greve dos terceirizados da UFRJ. M. trabalha com serviços gerais para a Qualitécnica há 8 meses, relata os abusos da empresa contratada pela universidade, e a necessidade de organização dos trabalhadores. A greve dos terceirizados forçou a paralisação total das atividades em algumas unidades da UFRJ e teve apoio dos estudantes. Foram meses de greve pelo direito mínimo de receber os salários e benefícios.

TL: Como estão as condições de trabalho aqui?

A condição de trabalho é péssima porque vira e mexe não tem material, não tem luva, saco, vassoura. Desde dezembro, o pagamento só pela metade, sem ticket, passagem. Mesmo com a merreca que cai, querem obrigar a gente a trabalhar. O trabalhador quer trabalhar, mas a firma não passa segurança. Não tem palavra… só passa mentiras e enganações. A gente fica desacreditado.

TL: Quanto é o seu salário normal?

O salário bruto é R$ 900,00, mas a gente nunca recebe. Sai R$ 800,00, 700,00, pra alguns sai R$ 500,00. Em fevereiro veio R$ 210,00 de desconto pra todo mundo sem ninguém ter faltado. Só porque a gente fez a greve. R$ 900,00 é o salário bruto. Com os descontos vai pra R$ 800,00 e alguma coisa, mas geralmente eles pagam R$750. Eles jogam na conta, a moda bangu. Por exemplo, mês passado eu recebi 600 e poucos, sem falta nenhuma. Quem receber mais é sorteado, premiado. Quem receber menos, é o azarado.

TL: Explica pro pessoal de São Paulo o que é isso de “moda bangu”.

A moda bangu é jogar tudo pro alto, na sorte. O Ticket alimentação era pra ter caído agora no dia 4. Passou uma semana que não caiu a alimentação e a passagem, a gente parou total. Dai já aproveitaram para descontar, meter a mão mais um pouquinho. O Ticket é R$ 117,00, mas pra alguns caiu foi R$ 80,00, R$70,00. E a passagem caiu R$ 35,00, 60,00 e eles querem obrigar o pessoal a vir trabalhar sem pagar a passagem, sem alimentação.

TL: Isso é pra o trabalhador não se unir com o outro trabalhador?

Eles tentam tirar a nossa força, oprimindo, ameaçando, abusando do poder. Dizendo que se não trabalhar a gente vai ser descontado… Muitos não participam da greve por causa de ameaça. O representante, gerente de contrato, Marlu, nem vem pessoalmente, fica só mandando mensagem no Whatsapp.

TL: E qual o nome da empresa?

A empresa é a Qualitecnica, contratada pela UFRJ.

TL: Qual você acha que é o motivo dessa crise, pros trabalhadores?

É a máfia, muito roubo. Porque a empresa ganha R$ 3000,00 por funcionário e nos paga 800, as vezes menos. A gente tem essas informações do pessoal que trabalha com as documentações. E a gente recebe menos que um salário.

TL: Onde você mora? Como é a sua família?

Eu moro na altura de Bom Sucesso, na Brasil. É eu, minha esposa, a filha dela e a minha filha. Então é complicado porque a gente tem que se virar nos 30, procurar alguma coisa pra fazer na rua. Eu tive que pagar R$ 200 de juros só do meu cartão. Tive que ir vender sacolé lá no piscinão, pra pagar as contas, comprar coisa pra dentro de casa. Minha esposa faz bolo pra vender, faz faxina por fora. Se não é isso a gente não sobrevive não. Porque as empresas perderam o respeito com os trabalhadores. Não tem consideração.

TL: Suas filhas moram com vocês?

Eu agradeço a deus porque a mãe da minha filha não foi pra justiça por causa da pensão. Se ela fosse, eu já estaria preso. Porque o que a gente ganha não dá nem pra manter a casa.

TL: E como vai fazer pra resolver as coisas? A política serve pra resolver alguma coisa?

Tem que fechar as ruas, fazer passeata. Fazer uma coisa legal, direita, sem quebrar, sem ter briga. Se nós brasileiros ou de outros países se unir, a gente acaba com essa pouca vergonha… Eles ficam lá dentro porque eles obrigam a gente a votar, mas se a gente se unir também não tem ninguém lá dentro. Tem que ir pra rua, se unir, fazer uma passeata, fechar, parar tudo. Correr pra frente, pra acabar com essa pouca vergonha e lutar por um país digno e direito.

TL: Você já participou de manifestações?

Eu sempre observo, escuto. Mas essa é a primeira manifestação que eu participo. Tem que abrir a boca, soltar a voz. Se não o governo vai continuar calando os trabalhadores, vai continuar encobrindo essa corrupção. Porque tudo é na corrupção. Hoje soltaram essa bomba da Petrobrás… O tolo encobre e o tolo descobre. Hoje quem se acha esperto, faz tanta coisa errada, que ai quando vem a tona, não sabe como agir. Quando ele cair na real que o que eles estavam fazendo era errado, já é tarde. Mas isso já prejudicou milhares de pessoas.

TL: Qual a importância da luta dos garis?

A luta dos garis foi importante porque eles tão lutando pelo direito deles, assim como nós hoje. E cada vez que a gente vê isso, incentiva outros trabalhadores a lutar. Antigamente os trabalhadores não tinham tanta força como tem agora. Hoje os trabalhadores tem força pra brigar, se juntar. Hoje a gente agradece os estudantes e professores aqui que se uniram, os garis que vieram dar uma palestra sobre o que eles fizeram… Isso vai nos dando força pra lutar. Os trabalhadores estavam oprimidos pelos encarregados, pelos chefes de contrato. Hoje a gente sabe que a gente se unindo a gente tem a força pra bater de frente.