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entrevista com os trabalhadores demitidos do comperj

O Território Livre entrevistou no Rio de Janeiro um grupo de operários demitidos do Comperj, pólo petroquímico de Itaboraí-RJ que – em meio ao gigantesco caso de corrupção na Petrobrás – demitiu cerca de 3 mil trabalhadores em janeiro desse ano, devido ao calote das empresas terceirizadas envolvidas nos escândalos.

Mobilizados, em fevereiro, eles bloquearam a ponte Rio-Niterói. Os entrevistados fazem parte da comissão de operários do Comperj e denunciam as condições de trabalho, o descaso do governo, as arbitrariedades da justiça e as manobras e a violência do sindicato contra os próprios trabalhadores.

TL – Como começou essa jornada de luta dos trabalhadores demitidos do Comperj?

G – Sou ex-trabalhador do Comperj, ex-trabalhador da Alusa Engenharia, empresa que deu o calote em 3 mil trabalhadores, isso em janeiro desse ano. Estamos num movimento de resistência, desde janeiro, fomos pra rua para exigir os nossos direitos. No caso, direitos que nos foram negados: pagamento e direitos trabalhistas. A luta começou em Itaboraí, com a gente tentando fazer a paralisação do funcionamento do Comperj, impedindo os ônibus de entrar, como uma forma de chamar a atenção da Petrobras, porque ela tem responsabilidades pelos trabalhadores. Somos terceirizados pelo Comperj. De Itaboraí, a gente veio aqui para o Rio de Janeiro, para uma mobilização na frente do prédio da Petrobras. Ficamos ali vários dias, foi uma mobilização forte, e paramos a ponte de Niterói. Em seguida, fomos para Brasília, depois de Brasília a gente ocupou o TRT, no centro do Rio, depois retornamos para Brasília, depois fomos para São Paulo. Uma constante mobilização para chamar a atenção do governo, da Petrobras, para atender a pauta dos trabalhadores.

TL – Como se deu a atuação do sindicato?

G – O sindicato foi – como se fala? – a pedra no sapato.

A – O sindicato tem tentado obstruir desde o início a nossa luta. Se colocando contra a comissão, contra os trabalhadores que estão lutando. O sindicato, que era para tá abraçando a causa junto com a gente. Eu posso dizer isso com todas as letras: eles tão colocando os interesses pessoais deles na frente da luta da classe. Tá largando o trabalhador de lado, brigando por questões políticas. Nós estamos aqui por questões da classe do trabalhador, porque foram 3 mil pessoas que foram prejudicadas, não foi 30, não foi 40.

TL- Qual era a sua função no Comperj?

A – Sou soldador. Trabalho na área há 16 anos e calhou, assim, de eu chegar na luta. Os companheiros aqui estão há mais tempo do que eu. Mas nesses 10 meses que eu fiquei lá dentro eu vi muitas coisas absurdas. O trabalhador lá tinha que trabalhar em silêncio, qualquer manifestação que tivesse, vai para fora. E o sindicato sabe disso…

G – Mas é patronal, é um sindicato pelego. Nós temos uma bronca política em relação ao nosso próprio sindicato, que não nos representa.

A – As decisões que eles tomaram só nos prejudicou. Por exemplo, nós fizemos essa jornada toda que o amigo G. falou, fomos para Brasília, de Brasília viemos para cá e no dia 09.03, o ministro Manuel Dias esteve aqui para presidir uma reunião entre a Petrobras, a Alusa e o sindicato. E nós quase que não entramos nessa reunião, porque eles não queriam deixar os trabalhadores entrar. Nós da comissão temos documentos assinados pelos nossos companheiros. Nós fizemos uma assembleia, e nessa assembleia foi constituída essa comissão, então nós temos nome e número de documento de pessoas que nos delegaram essa missão. O sindicato não quer reconhecer essa comissão como uma comissão que está defendendo os direitos do trabalhador.

Por isso, no dia 09.03 teve a invasão do TRT, e por volta de 23h 35 da noite foi julgado o processo lá dentro. A empresa foi sentenciada a pagar a gente num prazo de 10 dias. Dois dias depois o sindicato volta pro Rio de Janeiro, sai de Itaboraí e vem pra cá. Chega aqui com um juiz, com um procurador do Ministério Público de Niterói, junto com os advogados da empresa e fecharam um acordo absurdo.

Nesse acordo foi colocado algumas coisas que estavam na nossa pauta de reivindicação (baixa na carteira, liberação do fundo de garantia, e seguro desemprego) e o que nós tinhamos ganhado foi tudo anulado. Sentenciaram a empresa a nos pagar em 6 parcelas, a primeira parcela em agosto!

Ou seja, foi um ato de vingança contra o trabalhador, o sindicato que era para defender a categoria, que era para brigar pelos nossos direitos, que era para abraçar a causa junto conosco, não abraçou. Pelo contrário, ele fez aquilo que o patrão quis. E todo mundo tá careca de saber que esse sindicato é da CUT, ele pertence à CUT, e a CUT, infelizmente, pertence a quem? Ao PT, e o PT é quem? É o governo, não é?

G – A nossa postura é de luta, é contra o governo. Não aceitamos nada que vem contra nós, estão aí vários pacotes de maldades; então nós, os trabalhadores, estamos unidos, estamos empenhados em manter uma resistência contra o governo. O PT, o governo do PT, o PSDB, o PMDB, são todos nossos inimigos. Inimigos da classe trabalhadora.

O sindicato de Itaboraí é filiado a CUT, ele não nos representa. Quem nos representa somos nós, os trabalhadores da comissão, nós nos representamos. Os trabalhadores se representam, nós nos representamos, nós estamos unidos, comprometidos numa resistência.

A – Como trabalhador eu vou permanecer lutando. O juiz que julgou isso aqui foi um cara que nunca trabalhou na vida dele, ele é um cara que nunca faltou comida pra família dele, ele é um cara que ganha 26 mil por mês, mora na beirada de uma praia, come nos melhores restaurantes, recebe propina das empresas para julgar causa contra o trabalhador. E ainda se diz justo, né? Ele não passa de um bandido de toga. A minha revolta é saber que um juiz fez isso contra nós, sabendo do estado de miséria que cada um de nós tava passando. Prejudicou o companheiro aqui , que não recebeu nada ainda. O único companheiro no meio dessa luta toda. Parece que pegaram ele pra Cristo, porque você puxou o bonde. Não pagaram um centavo pro cara até agora.

TL – Como eram as condições de trabalho lá?

A – Rapaz, o regime de trabalho lá dentro do pólo, a maioria das empresas adotou seguinte sistema: ou você faz aquilo que eles querem ou você tá fora. O intuito deles é eliminar toda e qualquer resistência, toda e qualquer oposição que seja contra o sindicato, que seja contra o governo lá dentro.

Esse canteiro no qual a gente trabalhava era assim: completamente cercado de câmeras. No primeiro dia lá na recepção, eu achei um absurdo, na palestra de boas vindas, aquele chefe da segurança do trabalho falou assim: “ninguém convidou vocês aqui, vocês que ficharam na Alusa, então, qualquer atitude de vocês aqui que vá contra os interesses da empresa vocês já estão eliminados logo de cara. Para isso, nós investimos pesado” – eu guardei bem as palavras dele – “para isso nós investimos pesado, nós temos aí um monte de câmeras, gastamos na base de 600 mil em câmeras para vigiar vocês”. – E de fato tinha câmeras no canteiro inteiro.

Qualquer atitude sua ali no canteiro que fosse contra os interesses da empresa, você já se tornava um alvo lá dentro. A comissão que tinha na época era fechada junto com o sindicato. Se eu chegasse aqui e fizesse um comentário para ele, fizesse um comentário para um outro companheiro, e um companheiro chegasse lá no outro e falasse, de imediato, minha lata era amarrada e ao mesmo tempo eles ligavam pro sindicato e falavam para o sindicato me barrar dentro da Petrobras.

Eu fui vítima disso. Comecei a trabalhar, a chamar os companheiros pra luta, a falar para eles que eles não tinham que acatar aquele tipo de coisa, porque aquilo era um regime escravo, e a própria comissão me queimou lá dentro da empresa e com o sindicato. Eu tive que ir no sindicato e ligaram na minha frente para o chefe do RH. Eles têm uma lista negra… É o nosso caso aqui, provavelmente a gente nunca mais entra dentro do pólo petroquímico de Itaboraí, por causa da nossa luta.

G – Em nenhuma outra empresa da Petrobras a gente vai conseguir trabalho. Não vai conseguir, eles queimam mesmo.

TL – A jornada de trabalho é de quantas horas lá?

A – A jornada vai de 7 da manhã até às 5 e meia da tarde.

TL – Há relatos até de capangas armados dentro do canteiro. Confere?

M – Toda assembleia deles tinha os capanga armado para proteger o perímetro.

A – Eles cercavam a área toda. Não permitiam. Se um de nós chegássemos lá, vinha uns dois, três, cada cara armado, meu irmão! Houve casos lá que balearam funcionário, por causa de manifestação, o próprio sindicato. O presidente do sindicato hoje é o Paulo Sérgio Quitanilha. A arma que baleou os funcionários lá dentro tava dentro do carro do Paulo Sérgio Quintanilha. Eles desenvolveram uma máfia tão grande lá dentro que envolve juiz do trabalho, a Polícia Militar, o comandante da PM. Envolve também políticos, vereadores, envolve também o próprio prefeito.

Na última manifestação que nós tentamos fazer lá, o comandante da polícia virou na minha cara e falou assim: “aqui tem mais vagabundo do que na favela”. E se você entrar 100 metros do lugar onde a gente tava fazendo a manifestação, na favela, lá tá repleto de traficante, eu sei porque minha sogra mora lá e vejo os caras desfilando de fuzil.

G – Nós passamos um bom tempo fazendo manifestação, lá em Itaboraí, num lugar que chama Trevo da Reta, que é a entrada pro Comperj. Ficamos ali vários dias, e todos os dias, a polícia me filmando, dia inteiro com a filmadora em cima da minha cara. Se eu não saísse, tinha polícial dentro do carro especialmente me filmando. Meu telefone tá grampeado. Lá o trabalhador é cerceado pra se manifestar, a gente teve que brigar com comandante da polícia para manter o nosso movimento ali, brigar, enfrentar a polícia, e bomba pra tudo quanto é lado.

TL – Vocês conseguiram dar o troco quando ocuparam a ponte Rio-Niterói. Como vocês conseguiram articular isso? Qual o sentimento que tiveram?

A – Eu tenho o maior prazer de falar sobre essa ocupação, porque aquilo ali foi um plano de última hora, que nós unimos o útil ao agradável. Nós já estavamos aí numa série de uma semana fazendo essas manifestações na porta da Petrobras. O sindicato queria forçar a gente a assinar a nossa demissão. A empresa saiu do canteiro em dezembro, no recesso de fim de ano, e quando voltou a atividade em janeiro já tinha estourado a bomba e a galera não tava entrando, tava indo e vindo, indo e vindo. Foi no dia 10 de fevereiro, não vou esquecer essa data nunca na minha vida, o sindicato fez uma assembléia em frente à uma casa de show. Tinha uns 2500 naquele dia, praticamente o efetivo todo que tava ali naquele dia.

O sindicato usou da seguinte estratégia: eles pegaram umas folhas, para forçar a galera a assinar o papel, e eles colocaram numa prancheta e no papel vinha assim: “aqui você coloca o seu nome, sua função, o número da matrícula, entendeu?” Sendo que embaixo tava faltando uma assinatura. Aí o grupinho deles começou a passar aqueles papéis no meio do pessoal. Como trabalhador é ingênuo, qualquer coisa que eles pegam eles vão assinando sem ler. Aí eu peguei e perguntei:
– “Vem cá, esse papel aqui é pra quê?”
– “Não, isso é lista de presença que a gente tá passando dos trabalhadores.”
– “Mas, precisa de nome, função, número de matrícula? E pra quê essa assinatura aqui embaixo?”

Tava escrito o nome do sindicato embaixo e faltando a assinatura de alguém, aí não souberam me explicar. Na mesma hora comecei a gritar:

– “Ninguém assina isso aí não! Isso aí é um truque.”

No ano anterior eles já tinham feito esse mesmo truque dentro da Andrade Gutierrez com a gente. Eles usaram essa mesma artimanha pra fazer a gente pagar a greve, e a gente pagou a greve, assinou sem saber. Aí a galera parou de assinar. O sindicato queria que a gente assinasse aquele documento porque nele estávamos abrindo mão de dar baixa na carteira no dia correto. Ia dar baixa em 5 de janeiro, mas era já 10 de fevereiro, a gente tava perdendo mais de um mês. Aí a galera:

-“Não, não vou assinar, não vou assinar, não vou assinar”. Aí ele falaram:
– “Vamos juntar todo mundo, vamos para a frente da Petrobras bater panela e botar nariz de palhaço.” Aí eu pensei,
-“Não, ele tão de zoação com a nossa cara. A gente já fez isso durante quase 15 dias e ninguém ouviu, só passa flashzinho na televisão.” Aí a gente falou:
-“Tá vamo pro Rio sim, mas a gente vai precisar de mais ônibus, tá?” Aí o sindicato fechou com a gente, mandou buscar mais ônibus. Tinha 3 ônibus, mandaram buscar mais 4, ficou 7 ônibus. A gente tava com o material guardado, cartolina, tinta. Começamos a confeccionar os cartazes lá: “Fomos roubados, somos injustiçados, um bocado de frases, tal, tal, tal.”

Aí eu falei pro meu companheiro:
– “Cabeludo, quando a gente chegar lá na subida da ponte, nós vamos esperar todos os ônibus, ficar um atrás do outro, porque nós vamos desembarcar na ponte.” Ele falou:
– “Quê isso cara cê tá maluco? Eu falei:
– “Não, cara, nós vamos descer na ponte.
– “Não, cê não vai fazer isso não.”
“Pode falar pro PC que nós vamos desembarcar na ponte.” Quando nós fomos avisar pra ele:
– “Ó manda o carro de água ir na frente por que nós vamos desembarcar no voo central.” Aí ele pulou.
– “Vocês são malucos, vocês tão querendo me fuder se fizer isso.”
– “Não, nós vamos fazer.”

Pagaram pra ver, aí quando chegou em cima do voo central ali, meu irmão, alinhou os ônibus tudo um atrás do outro, foi só dar o sinal, desceu todo mundo, foi questão de segundos a ponte já tava toda tomada. Para mim, foi a melhor coisa que nós fizemos nesse combate. Foi a melhor atitude da nossa vida. Porque agora todo mundo vai saber que aqui tem lutador!

Todos – Andamos 21 K m. – 22Km!!!

A – As pessoas até perguntavam, por que a gente andou 22km. – “Pô, mas a gente não podia ter parado mais perto do cais do porto? Eu falei: – “Não, trabalhador tem que mostrar pro outro que para conseguir atingir um objetivo ele tem que caminhar.”

Teve vários significados aquilo ali: 1. Foi chamar atenção da população pra nossa causa, 2. As pessoas saberem que tem que caminhar pra poder atingir o alvo, e 3. Para mostrar para esses governantes aí que nós não somos poucos, que não existe mais trabalhador escravo.

TL – O Comperj é um bom exemplo. Sempre se dizia que a pauta da corrupção era uma pauta da direita, só que vocês estão sentindo na pele, no próprio emprego, que essa corrupção astronômica virou um ataque aos trabalhadores. Companheiros seus foram morar na rua. Como tem sido essa situação, pelas consequências da corrupção da Petrobras para a categoria?

A – Isso é vergonhoso. Uma obra com as dimensões daquela ia ser a obra top, a menina com os olhos de ouro da Petrobras, e se tornou um caos desse. É vergonhoso saber que o cara que veio de outro estado, na esperança de construir um futuro melhor para seus filhos, tem que morar de baixo de um viaduto… isso é vergonha, irmão. E mais vergonha ainda é o governo saber que existe o roubo, que existe um desvio de verba e tá passando a mão na cabeça das pessoas que fizeram isso. O empresário tá preso? Não tá, o empresário tá com uma pulseirinha no pé deitado no sofá da casa dele, no conforto do lar dele, tomando o uísque gelado dele, com pedrinhas de gelo de água de coco, que eles gostam muito, e rindo da cara da nação brasileira.

AP – A justiça ela é cega para o trabalhador, a justiça trabalhista tá em função do empresário, nunca do trabalhador. Com essa sentença, o cara vai ter que esperar 6 meses para receber seus direitos? Isso não cabe na cabeça de ninguém, isso é simplesmente um pacote de maldades que jogaram no colo do trabalhador. Mas isso nós não vamos aceitar não!

Nós não vamos aceitar esse calote. Falamos com secretário da presidene, tivemos muita reunião com o ministro também, só promessa. Um monte de promessa que depois não cumpre. Nós não vamos arredar um passo até ter os nossos direitos.

G – Especulava-se lá dentro do canteiro que a Dilma era uma das sócias da empresa, da Ausa Engenharia, muita gente não acreditava, achava que era balela, muita balela. ”Não é possível a Dilma ser dona da Alusa”, mas interessante, esse boato lá no canteiro era geral, constante, ” A Dilma é uma das sócias, majoritárias da Alusa Engenharia, da nossa empresa”.

TL – Como vocês tem feito para se manter mobilizados, mesmo demitidos?

G – Estamos comprometidos em todos os dias ir para rua, num esforço sobre-humano. Um companheiro ajuda o outro, entidades nos ajudam. Entidades, a CSP Conlutas, pessoas fisícas contribuem. Estamos vendendo camisetas. Vendemos em São Paulo, na USP, no congresso do Sintusp, as camisas é que estão nos mantendo de pé e nos dando condições… porque a gente tá desempregado, sem dinheiro, o que nós recebemos já gastamos com as divídas.

A – Eu fui despejado da minha casa, não tenho condições de quitar, e essa parcela que eles vão pagar pra gente daqui 3 meses, essa parcela aí, ela não dá pra cobrir nem um terço da minha dívida. Por isso, estamos na luta! Convocando os trabalhadores do Brasil inteiro para sair da inércia e vir para luta. Vir para o campo de batalha, porque do jeito que tá não pode ficar. A gente precisa de pessoas que levem isso para os outros trabalhadores, para eles saberem que nós ainda estamos sendo injustiçados.