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a linha de frente do rap no abc: resistência na matrix

MC Jorge Mario compõe um grupo chamado Linha de Frente, criado na própria Batalha da Matrix, em São Bernardo do Campo. Aqui ele fala da repressão às batalhas e o significado do RAP na periferia.

TL – Você frequenta desde o começo a Batalha?

JM – A primeira vez que eu rimei foi na segunda edição da Batalha da Matrix. Um parceiro que me falou, na porta do trabalho. Aí eu vim rimar no intervalo do trabalho, nem sabia como era. A gente nem fazia rap mano, conhecemos a vida de fazer rap aqui na batalha mesmo, gostou e meteu a cara.

TL – Como o rap serviu para você se expressar?

JM- Vim da comunidade da Vila São Pedro e lá é uma comunidade bem carente de hip hop, de todos os movimentos, não tem muito rap. Vivi uma adolescência meio conturbada, não tinha uma influência para estudar, para procurar um futuro. Cheguei aqui no rap e conheci outras pessoas que me deram exemplos.

TL – Por que acontece repressão aqui na Batalha da Matrix?

JM – O sistema se incomoda a partir do momento em que estamos aqui em quatro pessoas, porque gira informação e o sistema não quer o povo informado. O que ele quer é acabar com isso aqui. Isso aqui é um tapa na cara do sistema. E o da hora é que isso aqui é mó exemplo, porque depois daqui começamos a fazer batalhas em diversas cidades do ABC. Agora temos uma batalha na Vila Ferreira e vamos fazer uma na Vila São Pedro. Para poder concentrar pessoas e não concentrar por concentrar, colocar alguma coisa na cabeça delas. O sistema só quer a sua piora. Ele quer que você passe na escola automaticamente e que se forme sem saber de nada.

TL – Pra quem você vai passar o bastão do rap nessas batalhas novas?

JM – Eu acho que o rap, em si, ele não salva. Ajuda a pessoa a começar a ver o mundo de outra maneira. A ver as falhas que o sistema põe na sua vida. E você tem que levar isso para a comunidade. Porque aí, estando na comunidade, as crianças e as pessoas que precisam mesmo (porque a classe pobre é a mais prejudicada) vão ter uma informação a mais para poder bater de frente com isso. O sistema quer prejudicar e você precisa bater de frente.

TL – E lá a repressão é mais pesada? Qual a diferença?

JM- A diferença é que quando a polícia chegar aqui eles podem, às vezes, chegar tacando bomba mas, no geral, vão tentar chegar nos organizadores para tentar acalmar quem tá na cabeça. Já na comunidade se você passa na rua e tem um baseadinho no bolso e toma um enquadro, já era. A qualquer momento pode tomar até um tiro. Porque a polícia na madrugada, na favela, não tá nem aí não. Qualquer maluco é um bandido, qualquer um. Eles querem acabar com sua vida mesmo, um a menos é melhor pra eles.

TL – Você acha que essa é a diferença, de fazer um rolê organizado, e estar sozinho?

JM – Sabotage falou no rap que a cara é andar de monte. Porque se você anda de monte, a polícia não vai chegar com a viatura e barrar todo mundo. Mas se você tá sozinho, sem testemunha, sem ninguém, aí é outra lei, eles que fazem. Aqui é um movimento legal porque é bem organizado. Mas de qualquer jeito o pessoal tem que ter uma disciplina a mais.

TL – Você acha que as vezes o sistema não joga um contra o outro?

JM – Eu acho que o que mais o sistema quer é que a gente lute contra a gente, porque se a gente luta contra a gente ninguém luta contra ele. Eu acho que todo mundo devia ter a sua liberdade. Desde o momento que você quer pixar, vai lá faz sua arte, você quer usar droga? O cigarro prejudica bem mais do que a maconha… O sistema quer que a gente se derrube entre a gente, ele não quer que o MC e o pixador andem juntos. A partir do momento em que a música defendo o ato da pixação é prejuízo.

TL – Por que é perigoso ser jovem?

JM – Acho que o perigo tá desde ser pequeno até ser velho. Mas no jovem é maior porque é a fase que você saiu de ser criança mas não é maduro. Você ainda tá aprendendo tudo. Mas o sistema quer te ensinar para que você viva como uma pessoa comum que obedeça todas as leis. Mas quandovocê é jovem você busca aprender do seu jeito. Você não liga muito para o que os caras digam se na sua cabeça não faz sentido. Várias coisas do que eles pregam é ponto sem nó. Porque na real não serve para nada, só para benefício do governo.

TL- No seu trabalho você se sente tão reprimido?

JM – Eu acho que a condição do mercado de trabalho atual no Brasil, pra quem mora na comunidade, tem menos instrução, é algo ridículo. Porque é muito injusto uma pessoa trabalhar 8, 9 horas por dia, passar 3, 4 horas dentro de um ônibus pagando o absurdo que paga, e ganhando um salário de 800, 900, 1000 reais no máximo. Acho que o trabalho oprime o ser humano mais que tudo. E acho que o fato de que o sistema quer acabar com a Batalha é porque é muito ruim quando você consegue andar com suas próprias pernas. A partir do momento em que o artista tá aqui e pode ter um futuro, vindo da comunidade, pro sistema não é legal, porque ele vai falar muitas verdades e viver bem, ajudando a comunidade com isso. Quanto menos movimento cultural, ainda mais hip hop, pra eles é melhor.

TL – Por que você acha que querem transferir a batalha para o Parque da Juventude?

JM – Acho que eles querem fazer isso pelo fato de que quem puder chegar lá não vai poder andar com seu skate, estar com seu caderno na mão fazendo um point de pixação, não vai poder fumar seu baseado, não vai poder fazer nada. Eles vão controlar tudo, bem menos gente vai comparecer e o movimento vai morrer.

TL – No que isso mudaria o caráter do rap?

JM – O rap é pra todo mundo. Se o artista quiser fazer um rap falando de deus, falando de drogas, ele pode fazer o que ele quiser. O que ele não pode é depender do sistema, defender o sistema. Ele tem que por a sua ideia real.