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entrevista: 50 anos após o golpe, o dia a dia do exército na maré

Ocupado pelo exército, sob pretexto da segurança na Copa do Mundo, no aniversário de 50 anos do golpe militar no Brasil, em 2014, o complexo da Maré, no RJ, vive até hoje militarizado. O TL entrevistou Fernando Vife, ativista independente que trabalha na Maré e acompanha de perto o cotidiano de repressão à população.

TL – Como tem sido o cotidiano da ocupação militar na Maré?

FV- Quando eles implantaram UPP, Cabral chegou a falar assim: as incursões da polícia, do Estado, na favela, antes eram sinônimo de guerra e agora são sinônimo de paz. Só que o cotidiano são vários jipes, homens do exército com go-pro no capacete, os caras com armamento muito pesado, rifles. E eles param muita gente, os caras não distinguem quem que é do tráfico quem é morador, eles param todo mundo que tem um padrão de “suspeito”. Os caras não tem nenhum conhecimento da comunidade, sacou? Moleque do exército de 18, 19 anos, caras são completamente despreparados, é menino que entra na favela com aquela cabeça: “todo favelado é bandido, então vou agir pra reprimir bandido”.

TL- O que você acha do exército ter ocupado a Maré para garantir a realização dos jogos da copa?

FV- Rolou em vários lugares essa lógica de ocupação da cidade em prol do capital. Então assim, você vai desalojando as pessoas, vai teoricamente pacificando o lugar pra que fique menos custoso para quem tá planejando esses eventos a questão da segurança pública. Só que você não resolve a parada, você isola as pessoas. Quando tava rolando jogo no Maracanã, era proibido sair da Maré. Eles colocavam um tanque na entrada da Maré e revistavam geral, a galera não podia sair nem entrar, porque eles tinham muito medo de, como o Maracanã é relativamente aqui perto, a galera sair daqui da comunidade, de os favelados tocarem o caos.

TL- Por que você acha que o exército permaneceu depois da copa? Qual o objetivo real da ocupação militar?

FV- Primeiro, valorização da região. A Maré é relativamente próxima do centro, eixo de expansão da cidade. Se você ocupa aquilo ali, começa a oferecer serviços: escola, a Light começa a entrar, a Comlurb começa a ir, você começa a ter uma porrada de serviços junto e fica viável pra especular imobiliariamente o lugar. O preço dos imóveis aumentou pra caralho lá na Maré. Pessoas são beneficiadas, em geral uma elite imobiliária que tá querendo especular ali dentro, uma elite política que tá querendo capitalizar aquela ocupação em cima da morte de muita gente da favela, e uma resolução nula de segurança pública, porque o tráfico nunca deixou de existir com a ocupação, mas você passa uma imagem. Policial tirando foto com a galera da comunidade, aí chega no final do mandato, eles falam, porra, é isso aí, a gente já tem 36 UPPs, e agora a gente tá fazendo um eixo na Zona Norte, para poder continuar o sucesso da Zona Sul. É vender politicamente a parada, é um modelo esgotado de segurança pública, cê vê o alemão tá explodindo, a Avenida do Cruzeiro tá explodindo, a UPP tá explodindo, a UPP teoricamente era uma polícia pacificadora, não ia ser uma polícia de ostentação, com rifle, que dava rolê de armas, uma polícia que fosse próxima da comunidade, na verdade o projeto ia ser assim, as pessoas, os policiais da UPP eles eram formados em direitos humanos, tinham toda uma formação, e teoricamente eles seriam policias diferenciados. Só que não, não é isso, policial que trabalha em UPP ganha 500 conto a mais, esse é o incentivo que ele tem.

TL- A UPP incomoda o tráfico ou a vida do povo trabalhador?

FV- O tráfico mata, o tráfico tortura, mas a polícia mata muito mais, tortura muito mais e o povo trabalhador é isso, o cara chega do trampo 18h, 19h, 20h, 21h e ele é revistado pela polícia. Que que tu fazendo aí? Que que tem nessa mochila? Tu chega cansadão em casa e ainda é revistado. Trabalho muito com jovens, eu tava conversando com uma menina, menina de 16 anos, e eles falam: porra aí, tu gatinha desse jeito só pode ser mulher de bandido… às vezes elas não conseguem estudar porque tem uma barreira policial e eles falam, tu não pode passar. Mulher de bandido não merece estudar não. Teve uma galera que entrou depois do jogo do Flamengo, 3h na comunidade Salsa e Merengue, que é sul da Maré e eles tavam com som alto no carro e não ouviram a polícia falar pra parar. O que é que a polícia fez? Metralhou o carro. Um deles tomou um tiro na perna e teve que amputar, o cara perdeu a perna semana passada. Teve um pedreiro, da Vila do João, no sul da Maré, que também tava batendo laje, ficou fodido com o traficante que fica em cima da laje, tomou um tiro e morreu, deram um tiro nas costas há pouco tempo, moleque de 11 anos, aí quando todo esse processo, quando foram correr eles colocaram uma arma na mochila dele e falaram que ele tava com uma arma, tem sempre esse grau de suspeição de que de todo favelado é traficante, todo favelado é bandido, então cara, eu acho que no geral a comunidade se fode muito muito com UPP.

TL- Quais as perspectivas de um jovem hoje na Maré?

FV- Os jovens da comunidade não saem da comunidade, eles ficam por ali, no complexo, entre comunidades que sejam da mesma facção. E os caras ficam tipo isso meu rolê fica muito mais limitado, porque eu posso ser revistado por um policial babaca, que pode simplesmente colocar alguma coisa na minha mochila e eu posso me foder. Se você procurar foto da Maré na ocupação o que você mais vê é isso, tiazinha na janela e um cara passando com rifle, criança brincando na rua e um tiroteio começa a estourar no meio. Aí a criançada tem que sair correndo, os jipes são enormes, e os meninos pequenos, possibilidade de atropelamento pra caralho. A juventude se fode.

TL- Porque e perigoso ser jovem na Maré?

FV- O perigo é esse. Quando você coloca uma força de pacificação que tá lá não pra pacificar mas pra matar, no final das contas, é bem isso, pros milicos jovem é filhote de bandido. Se tu é jovem na favela, se tu for preto, vai se foder, se tiver cabelão, tiver tatuagem, tiver piercing, tiver cara de nordestino, os caras vão pra cima, vão te bater, vão te oprimir todo dia, os caras vão te revistar todo dia. Você tá dando rolê com a sua namorada, com a sua companheira, você tá com seu filho, aí tu passa vergonha de ser revistado. Ou tu vê seu pai todo dia sendo revistado porque ele é preto, ou ao contrário, você é um jovem que tá indo pra escola e tu é revistado porque tu é favelado. Os caras vivem em perigo constante, é uma vítima em potencial, na favela com pacificação. E tem morrido muita gente, morreu aquele pedreiro, confundido com um cara do tráfico, moleque de 11 anos tomou um tiro nas costas. Muita morte, muita morte na favela que não sai e, no geral, é muito isso rolado.

TL- E a resistência?

FV- Quando morreu o D.G. no Alemão, porra, o Alemão ficou parado quase o mês inteiro, tendo manifestação todo dia, neguinho virando carro, fazendo barricada na rua. E porra, tem uma autogestão na favela, a gente não vê isso, a gente que é de movimento social a gente é muito cego pra essas paradas. A juventude na favela é muito inteligente, porque os caras cresceram no momento que eles veem o lado negativo do tráfico, o lado negativo da UPP, então os caras fazem a crítica, eles veem que existe o lado ruim dos dois, mas pô, o que que é traficante, traficante é o colega do cara, quando entrou o UPP favela que tem UPP não pode ter funk, lá na Maré tinha baile aí eles proibiram. Pra você fazer qualquer evento cultural na Maré você tem que pedir pro comando com quinze dias de antecedência e garantido que não vai ter arma, droga e você não vai falar mal da pacificação, se você falar mal da pacificação, você não pode fazer o evento. A comunidade não tem liberdade, na mão de nenhum dos dois . O ideal seria poder pro povo, poder pra galera da comunidade, pro cara dar o rolê dele, pra ele poder decidir as suas paradas. E a favela é muito engajada, muita engajada. A galera não tem nem ideia do que se passa lá dentro. Porque tem aquela ideia: “Ah, a gente tem que entrar na favela pra mostrar pra eles como eles tão sendo oprimidos pelo Estado e pelo capital”… o caralho, os caras tão muito conscientes disso.