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batalha do remp: o rap na periferia

MC Zulu relata ao TL o prazer e as dificuldades de organizar a batalha do Remp e os casos de repressão aos jovens na Vila Ferreira, na periferia de São Bernardo do Campo.

TL- O que o rap significa para a juventude?

Z – Para a nossa favela, nossa comunidade, o rap significa muitas coisas em termos de atitude, união entre as pessoas ter uma concepção melhor sobre sua vida, não se iludir com o que a TV fala. Se a polícia chegar aqui agora tacando bomba nós bate de frente, nós vamos ser linha de frente. Isso aqui a gente não abandona por nada, pode ter duas pessoas que nós tamos aqui. O rap é isso.

TL- Como surgiu a ideia de vocês fazerem a Batalha do Remp?

Z – Nós tínhamos a Batalha da Matrix como referência. Eu ainda não colava muito com o MGO (MGO organiza a Batalha do Remp junto com Zulu), foi um parceiro nosso que apresentou nós dois aqui nessa praça (Praça do Remp). Aí eu falei “caralho, você mora aqui eu moro aqui a gente nunca tinha se conhecido, você é da hora pra caralho muleque, graças a deus eu conheci você!”. Aí eu estava na Matrix brisando “mano, minha favela precisa disso. Imagina eu fazer um rap na quebrada. Rap é vida, vamos fazer aí”. Aí eu comecei a puxar assunto com os caras da Matrix mesmo, comecei a trocar ideia com eles. Tava na rua e falava, logo menos vai ter batalha na vila. Isso desde o ano passado. Os caras diziam:“batalha na vila?” e tiravamsarro, davam risada… Falavam que ia vir só pra usar droga…

TL – E por que tinha essa descrença?

Z- Não sei, porque os caras não botaram fé, não acreditavam que ia rolar uma batalha de rap na vila nem fodendo! “Uma batalha de rap na vila, numa praça escura ainda? Vai tomar um pau da polícia! Os polícia não vai deixar não!”. Ainda não teve nenhuma represália da polícia, de ninguém. Ainda.

TL – E quais são as dificuldades de organizar a Batalha aqui no Remp?

Z- Dificuldade a gente teve bastante. De primeira a gente tava em choque, toda hora a gente olhando pra ponta da rua. O maior medo da polícia. A primeira vez rolou, não veio nenhuma polícia. Na segunda também não veio, agora vai ter a terceira e nenhuma represália. Acho que a comunidade gostou, porque não teve nenhuma denúncia. Eu falei com o pessoal aqui e eles disseram “caralho negão, você é foda”, maior orgulho de mim mesmo! Dá uma educação também.

TL – E do ponto de vista técnico?

Z- Fazer contato pra chamar os MC’s… Porque alguns não dão valor ainda pra cá. Você viu que os caras meio que desmereceram. “Batalha do Remp se eu posso ir pra Santa Cruz?”, que acontece no mesmo dia. Qual tem mais visibilidade? Os caras pensam assim. “Se eu ganhar na Batalha do Remp…. Agora, se eu ganhar na Santa Cruz”, tá ligado? Tem uns caras que pensam que é assim. Mas tem a parte da divulgação também, o MGO faz mais essa parte, divulgação, falar com os MC’s…

TL – E você faz mais o que?

Z- Eu faço mais a organização. Correr atrás dos bagulhos a semana inteira. E a equipe é só eu e o MGO mesmo. Durante a semana vamos na Batalha da Matrix e pedimos
pra eles divulgarem também. Os muleques já tão ajudando nós, o Itinerário Rap já apresentou nossa batalha. Máximo respeito pelo pessoal do Itinerário Rap, da linha de frente, tamo junto.

TL – O que significa ter uma Batalha aqui no Ferreira?

Z – Representa… O sangue que essa favela chorou. Uma criança que tá crescendo agora, porque durante a minha infância eu não tive uma praça dessas. Eu tive que correr de tiro e essa mulecadinha andando de skate, brincando, ainda bem que não sofreram isso. Essa batalha, pra mim e até pra eles, é bom. Graças a deus tive o coração bom e o MGO também, de trazer isso pra favela.

TL – Quais os perigos que a juventude passa na quebrada?

Z – A juventude da periferia… Porque o filho do rico nunca vai passar o que a gente passou aqui. A gente sofre demais. Vou usar o exemplo, vou ter que falar, é a polícia. Eles são sujos. E quando eles passam aqui eles já falam “mão na cabeça” e com a arma apontada pra fora do carro. Eles andam com a arma tudo em punho, sabe? Mostrando que tão armados, criança na frente deles, e eles fazendo isso.

TL – E por que quando você pensa em fazer um rolê do rap automaticamente já surge o medo da polícia?

Z – Vamos fazer um rolê do rap… Já aparece o medo de tomar enquadro. Mano, se você tomar enquadro aqui, velho… Você tá longe de casa vai tomar enquadro os caras vão esculachar, vai falar que nós é do rap. “Cê mora aonde?”. No Esmeralda. “Cê sai de lá pra vir aqui neguinho? Cê tá tirando?”. É uma represália horrível que a gente sofre. Até pelo meu cabelo. Já quiseram cortar meu cabelo, quase me bateram por causa disso. Teve várias aqui. Várias e boas pra contar. Muita represália.

TL- Aqui no bairro teve recentemente casos fortes de violência contra jovens, né?

Z- Teve. Não posso falar muito porque eu não sei o nome dos caras… Não era muito chegado com eles, mas eles eram aqui da Vila do Ferreira. Eles tavam andando com o carro e aí os vermes viram e pensaram que era roubado. Aí meteram bala nos muleques. Os muleques já tinham se rendido. Os muleques saíram do carro levantando e eles já foram metendo bala. Acabou morrendo dois dos muleques, um sobreviveu mas tá de cama. A família tá sofrendo. Um policial foi preso, mas já foi solto. Ainda mais aqui em SBC, matar muleque da favela… Ah, matou. E pra você ver como foi uma injustiça. Tinha uma câmera que ficou o tempo inteiro gravando pra dentro da escola. Não tem como uma câmera daquela, na favela, ficar virada pra dentro do portão da escola, não vira. Ainda mais no final de semana, aquela câmera fica rodando, filmando várias sujeiras na favela. Não filmaram.

TL – E qual é a importância de resistir à repressão?

Z- A importância é máxima, é extrema. Dar o sangue contra a repressão. Repressão aqui não vai rolar não. Se rolar, a gente vai bater de frente. Já falei pro MGO no começo, se rolar repressão vamos ter que bater de frente! Mesmo se tomar bomba na cara, vamos ter que continuar, parça. Porque a gente é linha de frente do bagulho, querendo ou não. Damos o sangue pra esse bagulho.