! balanço da luta contra a copa do mundo - Território Livre

balanço da luta contra a copa do mundo

As manifestações de junho de 2013 revelaram que a situação precária da vida da população trabalhadora e da juventude chegou num limite. Cada ataque do capital é sentido como a gota d’água. Contra essa situação limite – que tende a se manter e a se aprofundar –, a revolta espontânea dos trabalhadores e da juventude ainda se manifesta de forma indeterminada, atacando símbolos do problema e não o problema em si.

O aumento dos 20 centavos em junho era um símbolo de um problema maior. Tão logo caiu a tarifa, a própria queda foi reabsorvida pelo capitalismo sem grande sofrimento (a partir da retirada de dinheiro de outros serviços e de subsídios de governos às empresas de transporte). O problema foi contornado, mas não resolvido. Sem caminho que fosse do símbolo à essência do problema, outro símbolo tomou o lugar. A Copa do Mundo assumiu a função do símbolo do ataque do capital, símbolo contra o qual se deve lutar. No “país do futebol”, mesmo as pesquisas da grande mídia revelavam que metade da população era contra a realização do evento, e mais de 80% era contra a destinação das verbas com a Copa. Havia, sem dúvida, uma grande bomba de descontentamento prestes a explodir.

Nós, do Território Livre, mesmo sabendo que a Copa era mais um símbolo, um pequeno problema diante dos profundos problemas da sociedade brasileira, fizemos o máximo que pudemos para dar vazão à revolta contra esse evento. Sabíamos que tal luta permitiria, aos trabalhadores e à juventude, aos poucos, encontrar o caminho que leva do símbolo aparente à essência do problema, ao próprio sistema, e por isso demos toda a nossa força à luta contra esse símbolo do capital.

Assumimos com orgulho e destaque o slogan “Não Vai Ter Copa!” para fazer expressar a posição mais radical da juventude contra o governo. Da nossa parte, não se tratava de um mero grito de revolta, de uma revolta difusa que buscava “direitos sociais”, mas de uma proposição pelo cancelamento da Copa, sabendo que isso significaria uma profunda derrota para o governo e um enorme fortalecimento da luta dos trabalhadores e jovens.

Colocamos-nos também, nesse processo que polarizou o país, o objetivo de manter as ruas aquecidas para que importantes setores da classe trabalhadora entrassem na luta. Dedicamos a luta contra a Copa, portanto, à luta geral da classe trabalhadora, que ultrapassa megaeventos pontuais.

A verdade é que a luta contra a Copa poderia criar uma conjuntura muito particular, muito rara e importante, em que uma luta econômica básica (como a por empregos e salários) poderia se unir à luta política contra o governo (sobretudo federal). O “Não vai ter Copa” e o “Vai ter Copa” polarizaram o país no âmbito político. Bastava apenas saber fazer o “político” influenciar o “econômico” e o “econômico” de volta o político para se ter grandes chances de vitória dos trabalhadores e da juventude em todo o país. A unidade entre trabalhadores em luta e a juventude radicalizada poderia ter criado a explosão que tanto temiam os governos e o capital.

A ATUAÇÃO DA ESQUERDA NESSA CONJUNTURA PECULIAR

Entretanto, esse momento único de afronta com o governo federal não foi aproveitado pela esquerda da melhor forma possível, mesmo a que afirma incessantemente oposição ao governo federal. Diante do país polarizado a esquerda trabalhou com fórmulas mais ou menos conciliadoras, que diminuíam o confronto com o “Vai ter Copa” governista e, além disso, rapidamente abandonou as ruas.

A briga pelo slogan mais radical contra o governo seria totalmente secundária caso se mantivessem nas ruas todos os grupos políticos, em frente única contra a Copa do capital. Ensaiou-se uma frente realmente representativa e de luta – a “Se não tiver Direitos, não vai ter Copa” – cujo mérito de puxá-la coube ao grupo Domínio Público, do PSOL, e que foi composta por diversas organizações de esquerda e por jovens que estão nas ruas em luta desde junho de 2013.

O Território livre participou desta frente e se colocou em defesa da criação do Poder Popular, como forma de os próprios jovens e trabalhadores resolverem os problemas que o Estado burguês não quer ou não pode resolver. Acreditamos que ao ocupar seus locais de trabalho, escolas e universidades, trabalhadores e jovens começam a criar os embriões de um mundo novo – o Poder Popular – e fortalecem sua organização para enfrentar o capital.

Outros setores optaram por trabalhar com a lógica de reivindicar direitos ao Estado. Mas, apesar destas diferenças, construímos a frente por acreditar que era a melhor forma de unificar a juventude em luta. Consideramos que esta experiência de unidade foi muito importante para o avanço da luta em São Paulo, embora ela tenha manifestado muitas vezes sectarismo vazio de vários lados, seja de setores organizados em partido, seja de setores radicalizados da juventude.

Ainda assim, a frente única contra a Copa (ou em questionamento da Copa) logo começou a ruir, devido em parte ao sectarismo interno, mas sobretudo à repressão policial – que quase fez uma vítima fatal já no primeiro ato contra a Copa em São Paulo, em 25 de janeiro.

Depois do segundo ato contra a Copa em São Paulo (quando mais de 250 pessoas foram presas), realizado no mês de fevereiro, parte da esquerda tradicional (setores do PSOL e o PSTU) diminuiu significativamente sua presença nas manifestações, ou praticamente se retirou delas. Isso se deu por temor diante do recrudescimento policial, mas também pelo caráter pequeno-burguês de muitos desses grupos.

Tradicionalmente instalados nos Movimentos Estudantis das universidades, tais grupos têm como foco de sua atuação a cooptação de estudantes para conquista de aparelhos estudantis, sobretudo universitários (CAs, DCEs); não lhes interessa tanto o fortalecimento de um movimento geral de juventude nas ruas. Assim, à medida que a repressão policial afastou jovens mais pequeno-burgueses das manifestações – restando apenas setores mais proletarizados, desgarrados dos aparelhos tradicionais de organização –, o sentido da presença de tais grupos nas manifestações foi subtraído. Já a partir do 6º ato contra a Copa, realizado ao final de abril (ato que saiu do metrô Tatuapé), tais grupos não estiveram presentes nas manifestações, restando em peso apenas o Território Livre e jovens radicalizados (havia, é verdade, poucos representantes de outros grupo, alguns realmente participando na construção das atividades, outros apenas acompanhando). Essa situação, de difícil isolamento sob repressão atroz, se manteve até o 10º ato, no dia da abertura da Copa, 12 de junho, quando outro grupo de juventude esteve presente com grande representatividade, o Domínio Público, que tem maior força no interior de São Paulo.

AS GREVES DOS TRABALHADORES ERAM O CAMINHO

Muito antes do dia 12 de junho, entretanto, assistimos importantes greves da classe trabalhadora, algumas delas surgidas espontaneamente, que se somaram, querendo ou não, ao movimento geral contra a Copa (e portanto contra o governo), sendo um grande alento e inspiração. Foi o caso da importante e vitoriosa greve dos garis do Rio de Janeiro – onde gritavam “Não Vai Ter Copa!” –, que logo influenciou garis de outras cidades, bem como influenciou outras categorias. Foi o caso, também, da greve dos rodoviários de São Paulo, que paralisaram repentinamente a cidade chocando os empresários e os sindicalistas pelegos. Não espontâneas foram as greves dos professores municipais de São Paulo e dos metroviários dessa cidade. Além disso, à medida que se aproximava a Copa, pipocavam categorias em greve por todo o país, ainda que menores, revelando que a concepção de unificação entre a luta econômica específica e a luta política geral estava correta. Também o MTST participou para fazer o caldo geral, a ligação entre lutas básicas e lutas políticas, trazendo à rua dezenas de milhares em luta por moradia.

Entretanto, falou mais alto ainda o isolamento desses diversos setores da classe trabalhadora dentro do movimento sindical. Apesar da importância de tais greves, espontâneas ou não, seu isolamento diante do controle burocrático exercido pelas centrais aliadas do governo foi fundamental. Tais centrais mantêm uma hegemonia quase absoluta sobre o sindicalismo, impedindo que a classe trabalhadora se mova de forma mais radical e, ao mesmo tempo, sempre blindando o governo (ainda mais numa importante questão como a Copa).

Assim, devido a esse isolamento, também as importantes greves que se sucederam não obtiveram grandes resultados e foram, em geral, desbaratinadas por pelegos ou destruídas pela repressão do Estado. O fim da greve dos metroviários – uma das mais radicais – poucos dias antes da Copa foi determinante para jogar o movimento geral para baixo pouco antes do início do megaevento esportivo.

O LEGADO DA COPA

Muito já se disse sobre o legado da Copa do Mundo ser o grande recrudescimento da repressão. É verdade: o país terminou o evento com um grande saldo de centenas de presos e feridos; ocupações militares em morros e favelas como a da Maré; demissão de metroviários, rodoviários e garis em greve; ação ditatorial, arbitrária e ilegal das polícias militar, civil e federal etc.

Os ataques mais graves à liberdade de organização foram as prisões de alguns manifestantes em SP e no RJ. Em São Paulo, Fábio Hideki e Rafael Marques foram presos com base em flagrantes claramente forjados pela Polícia Civil. Além deles, João Roza e Jefte Rodrigues foram presos com base em acusações absurdas como manter no facebook “frases e imagens que remetem às manifestações de rua”. João Roza continua preso injustamente! No Rio de Janeiro, 23 ativistas foram presos em mega-ação orquestrada pela Polícia Civil, Ministério Público e judiciário, revelando complô de todos os setores do Estado burguês contra a luta dos trabalhadores e da juventude.

A repressão atingiu tal grau que um ato pela libertação dos presos Fábio Hideki e Rafael Marques foi impedido pela polícia militar de sair caso não fossem apresentados líderes da manifestação (o que, numa conjuntura onde a polícia infiltra agentes provocadores e prende forjando flagrante, seria de alto risco). Para piorar, no dia 1/07 um ato-debate público, numa praça, com a presença de personalidades, foi reprimido novamente pela polícia, que provocava a todo o momento buscando efetivar novas prisões e acabar com a atividade.

Mas, se aqueles que se colocaram a tarefa de cancelar a Copa foram derrotados, isso ocorreu apesar deles, apesar de toda a disposição de luta colocada nas ruas. Se há culpados por essa derrota (que pode-se considerar uma derrota para todo o povo trabalhador), eles são, antes de tudo, a repressão estatal e os aparelhos burocráticos do sindicalismo vinculado ao governo, que conseguiram tirar a juventude das ruas e segurar os principais setores dos trabalhadores. Mas, é inegável, a vacilação e sectarismo da esquerda também foram determinantes. Em vez de lutar frontalmente contra a Copa, como dissemos, a esquerda optou por fórmulas conciliadoras e particulares. Em vez de compor com forças a rua, setores importantes da esquerda foram preconceituosos com as formas de luta da juventude e se negaram a se aliar a setores mais radicalizados, dispostos a defenderem-se legitimamente do ataque policial.

Ainda assim, temos certeza, se fomos derrotados em nosso objetivo – barrar a Copa – saímos desse processo muitos mais fortes. Não só nós, do TL, mas toda a juventude radical e lutadora e de todo o país. Estamos mais fortes e mais bem preparados para as lutas que virão.

Diversos jovens tiveram uma importante experiência de unidade e sentiram a possibilidade e a necessidade de unificar sua luta com a da classe trabalhadora. Essa experiência ajudou a preparar setores novos para pensar cada passo da luta contra o capital de forma firme e consequente.

15.08.2014


Categorias: Editorial, Não vai ter Copa!

Tags: , ,