! tese para o xii congresso de estudantes da usp - Território Livre

tese para o xii congresso de estudantes da usp

NÃO VAMOS PEDIR NADA!
NÃO VAMOS EXIGIR NADA!
NÓS VAMOS TOMAR E OCUPAR!

…dizia uma pichação em um muro de Paris, em maio de 1968. Poderia ter sido em um muro de Tóquio, da Cidade do México, de Praga ou, até mesmo, de São Paulo. Um momento no qual, em diferentes partes do mundo, a responsabilidade histórica da juventude foi cumprida. Estudantes e trabalhadores ficaram ombro a ombro, resistindo contra a polícia, o Exército, o Estado, o capital. Não havia, então, a crença nas reformas: não se arruma um cadáver destroçado. Muita água rolou. Estamos aqui de novo. Nos últimos anos, vimos explosões de revoltas estudantis no Chile, na Grécia, no Canadá, na Inglaterra, na Holanda, e fomos ficando para trás.

Nossa prioridade: Lutar, nas ruas, contra os ataques da reitoria.

Nós, do Território Livre, acreditamos que as resoluções deste Congresso devem ser discutidas e elaboradas a partir das experiências de luta travada nos últimos anos pelos estudantes, ou correm o risco de não servirem para nada. Apenas assim poderemos nos organizar para resistir aos ataques da reitoria e para agir além dos estreitos limites da universidade.

Pensamos que o principal impasse da luta estudantil nos últimos anos foi a incapacidade da vanguarda de unificá-la. O movimento tem sido protocolar e apático, sem conseguir responder à altura aos ataques da reitoria. É chocante pensar que hoje a polícia está cotidianamente no campus, e corremos novamente o risco de termos centenas de estudantes processados por diversos motivos, de ocupações e piquetes até pela venda de cerveja e pela organização de festas.

A rigor, de nada nos servirá fazer mais um Congresso se ele apenas reafirmar as mesmas e velhas coisas de sempre. O momento exige, na verdade, que nos organizemos e tomemos as ruas. Sabemos que alguns dos recentes Congressos dos Estudantes da USP, por falta de quórum, nem mesmo terminaram. Isso não mudou em nada o Movimento Estudantil. Mesmo os Congressos que terminaram com “sucesso”, aprovaram planos e planos de luta que raramente saíram de fato do papel.

Os atuais Congressos dos Estudantes da USP estão muito presos a uma lógica de calendário, um rotineirismo que os faz servir meramente como um espaço para cooptação de militantes. É preciso mudar a lógica do movimento. O que devemos fazer, na atual conjuntura, é tomar as ruas, pois motivos não faltam no país e na USP.

O governo federal vem desferindo severos ataques à população. Abrimos o ano com as MPs 664 e 665. Em seguida, vieram Plano de Proteção ao Emprego, inflação galopante, demissões e arrocho salarial, culminando nas medidas que hoje tramitam no Congresso: o ajuste fiscal de Dilma e a Agenda Brasil. Para garantir o sucesso dos ataques o Governo fortalece a repressão contra aqueles que lutam. Para além das já conhecidas ocupações militares das favelas e das prisões políticas arbitrárias em manifestações, esse ano o governo federal deu mais um passo: a lei anti-terrorismo, que possibilita que um manifestante vá para a prisão por até trinta anos. De um lado, ataques às condições de vida dos trabalhadores; de outro, ataques ao direito de organização, ponto mínimo sem o qual não há resistência.

Entretanto, o ME segue sua rotina e sua vida morna…

Diante dos cortes e do avanço dos ataques, permanecemos calados, sem saber o que fazer. Neste momento, nossa tarefa fundamental é partir do nosso ponto mínimo comum, a defesa intransigente da liberdade de organização dos estudantes e a luta contra os cortes e o desmanche em curso na universidade.

A luta defensiva não segue a cartilha tradicional da esquerda, mas vem da necessidade dos estudantes em resistir e não perder o pouco que temos. Um bom exemplo da luta defensiva tem sido o movimento de mulheres da USP, que após inúmeros casos de violência no campus, vem levantando uma forte luta para dar um basta à violência, e não ceder à (re)pressão da reitoria com a PM e o Koban. A burocracia já mostrou sua incapacidade de resolver esses problemas, oferecendo apenas mais repressão, e as mulheres estão mostrando que a única alternativa é a resistência e auto-organização estudantil junto das trabalhadoras.

Se a reitoria procura nos vigiar mais de perto com sua proposta de policiamento “comunitário” – o Koban –, nós devemos dizer não a isso e expulsar a polícia, a qual, desde o fim da ditadura até a assinatura do convênio da USP com a PM, em 2011, sequer entrava no campus. Devemos resistir à instalação de câmeras, à proibição de festas e da venda de bebidas.

Devemos resistir aos cortes de bolsas, à destruição do HU, enfim, a todo o plano de cortes e desmantelamento dos serviços da universidade de Zago – assim como procuraram fazer os trabalhadores em 2014 ao lutar contra o rebaixamento de seus salários e o PDV.

A luta defensiva deve ser o ponto zero, o menos pretensioso, o denominador mínimo comum que pode nos levar além. A pauta que é aparentemente a mais básica, a autodefesa, defender o direito de se organizar, defender tudo o que temos hoje, sem que a reitoria nos tome nada, contém um grande potencial. Dessa luta pode surgir a solidez da organização estudantil da qual tanto nos ressentimos.

Mas se essa luta defensiva é o ponto comum entre os estudantes, a reação imediata aos ataques que sofremos da reitoria e do Estado, ela contém algo além e, nesta conjuntura nacional explosiva de crise econômica e política, essa luta mínima dos estudantes pode se vincular à luta geral dos trabalhadores em defesa dos empregos e dos salários. A juventude da USP pode ser a vanguarda da juventude estadual e nacional (revoltada com a repressão policial e com a crise, por exemplo), trazendo à cena o protagonismo da juventude na atual conjuntura, como muitas vezes ocorreu em nossa história.

Entretanto, a juventude está calada. Para desencadear essa luta nos faltam sobretudo entidades com vontade de luta e vontade de politização real dos estudantes. É preciso chamar os estudantes para intervir na História. Tragicamente, no entanto, devido a meros cálculos eleitorais, as entidades ficam paralisadas, não servem como ferramenta efetiva de luta; servem apenas à vontade de autoconstrução morosa dos grupos políticos. Isso é desastroso, pois, além de desperdiçar um momento único da conjuntura, tem feito o ME cair na mão de grupos oportunistas e governistas.
Não podemos cair na ilusão de sonhar, neste momento, com lindos planos sobre o futuro de uma universidade reformada. Mesmo se fosse possível conquistar pequenas melhorias localizadas, em pouco tempo elas seriam retiradas, como acontece hoje nas federais.

Sonhar com reformas, neste momento, é vender ilusões aos estudantes e desviar nossa energia sem conseguir fortalecer nossa própria organização. A partir da luta defensiva, pelo contrário, é possível desencadear e erguer, por meio da nossa organização direta, um poder paralelo que controle e reorganize a universidade, para que ela deixe de ser um balcão de negócios em decomposição. A partir do nosso controle da universidade junto aos trabalhadores, podemos construir uma universidade paralela, onde seja possível produzir e aprender com a liberdade que é cada vez mais restringida e atacada na universidade atual. Por isso, devemos valorizar e dar vida aos nossos fóruns de democracia direta, desde as reuniões abertas das entidades nos cursos até nossa assembleia geral e organismos de luta.

Cabe aos estudantes, muitas vezes, o papel de apito da panela de pressão, que enuncia o estouro por vir. É preciso nos aliarmos com os trabalhadores para preparar a luta unificada contra os ataques dos governos. É preciso nos organizarmos para ultrapassar o comodismo e as burocracias que corroem a vitalidade e o desejo de luta.
Apenas a democracia direta e a luta defensiva podem nos levar a superar os problemas atuais da universidade. Não há saída que não passe pela organização dos estudantes em unidade com os trabalhadores, dentro e fora da universidade, para tomarmos as ruas.

FORA PM! NÃO AO KOBAN!

NÃO AOS ATAQUES DA REITORIA!

DIANTE DA CRISE, FAZER DO ME DA USP UM PÓLO DE
RESISTÊNCIA DA JUVENTUDE E DOS TRABALHADORES!