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TESE DO TERRITÓRIO LIVRE PARA O CONGRESSO DOS ESTUDANTES DA GEOGRAFIA

AFINAL, DE QUE SERVIRÁ ESTE CONGRESSO?

No atual cenário político é preciso se perguntar: de que servirá um Congresso dos Estudantes de Geografia?

Há quem acredite que não há necessidade de repensar o M.E. e muito menos de mudá-lo. Há quem acredite que é melhor manter as coisas como estão, ou mesmo “relembrar” os anos anteriores que tudo estava tranquilo e próspero, e assim viver do passado.

Para nós, no entanto, é urgente reinventar o movimento estudantil na Geografia, romper com o comodismo e a inércia da desmobilização, e retomar o protagonismo histórico do nosso curso nas lutas da juventude dentro e fora da USP.

O refluxo da luta na USP, após a derrota da última greve, não deve e nem pode perdurar. Os ataques da reitoria avançam de forma avassaladora destruindo a universidade e cerceando cada vez mais o M.E. Nenhum dos nossos problemas foram resolvidos, pelo contrário, devem se aprofundar e, cedo ou tarde, empurrar novamente os estudantes à necessária resistência.

A dimensão dos ataques às condições de vida, trabalho e estudo ultrapassa os limites locais. Temos diante de nós, não apenas os interesses mesquinhos da burocracia universitária representada por Zago – estes são os agentes imediatos da ofensiva da burguesia e dos governos estadual e federal contra a juventude e a classe trabalhadora dentro da universidade. A mesma lógica privada que determina que a população trabalhadora deve arcar com o ônus da crise econômica para manter o lucro e os privilégios de uma minoria de parasitas no âmbito nacional, é a que toma conta e destrói o que ainda resta de progressista e libertador na universidade. Os hospitais e equipamentos de saúde, as creches, a prefeitura, os bandejões, as unidades de ensino e toda a universidade seguem sendo destruídos em nome da superexploração, da terceirização e do lucro.

O momento histórico em que vivemos é de dificuldade e de resistência, todavia, nos abre novas possibilidades para a luta. É necessário que a Geografia se reorganize e esteja à altura dos desafios colocados. Junho de 2013, as ocupações das escolas e universidades, as greves, tudo isso deveria ter rompido com a apatia e com o apego da juventude à velha política, aos vícios anacrônicos da esquerda, seus velhos aparatos e programas, mas de lá para cá, apesar do acirramento na conjuntura, pouco mudou na atuação e no programa do M.E. Sob diferentes vestes, o burocratismo, o carreirismo, o reformismo e a conciliação se mantêm como lógica dominante na juventude universitária.

O momento político exige audácia, para abrir espaço para o novo nascer sobre os escombros do velho. É pra isso que deve servir o Congresso dos estudantes da Geografia este ano: para organizar e rearticular estudantes nesta conjuntura absolutamente nova que se abre. Grandes combates se aproximam, precisamos estar preparados!

UNIDADE CONTRA OS ATAQUES

Se saímos derrotados da última greve, ao menos ela nos trouxe uma importante lição: divididos não temos chance!

Na medida que o M.E. se distanciou do movimento dos trabalhadores, ambos se enfraqueceram e foram derrotados pela reitoria. O movimento sequer foi capaz de se unificar para defender o seu direito de greve, assistindo impotente ao corte de ponto dos trabalhadores grevistas e ao avanço da repressão sobre os espaços e as entidades estudantis. Vimos, inertes, a Usp ser sitiada pelos cães de guarda do reitor – PM e PPUSP talhando em conjunto a repressão e sucedendo em tirar aquilo que é nosso. A gravidade dos ataques e a miséria das condições presentes exigem a nossa ação imediata: é preciso unificar os estudantes naquilo que é mínimo e comum, na defesa da suas condições de vida, para formar um polo de resistência ao lado dos trabalhadores.
Fora da universidade o cenário não é diferente, inflação em alta, mais de 12 milhões de desempregados e cortes de direitos são impostos por uma minoria de parasitas contra as necessidades da maioria da população. Temer se prepara para desferir todos os ataques preparados pelo governo Dilma, que não o conseguiu aplicar por conta da crise política. Começou a ser aprovada na câmara a PEC 241, que congela o orçamento público por 20 anos, o que representa um profundo ataque aos serviços públicos, principalmente à Educação e à Saúde. Está sendo gestada uma nova reforma da Previdência, que vai aumentar a idade mínima para aposentadoria. Foi aprovada por decreto a reforma do ensino médio. Também está na pauta do governo retirar direitos trabalhistas tais como férias, 13° salário, FGTS e afins.

Mas, os burocratas sindicais não conseguem ignorar a pressão dos trabalhadores nos locais de trabalho. Vimos recentemente ações unitárias de diversas centrais sindicais em todo o país em resposta às medidas, em defesa dos salários, dos empregos e contra os ataques do governo Temer. A classe trabalhadora começa a entrar em movimento na defesa do mínimo, das suas condições de vida. Façamos o mesmo!

 

A CRISE POLÍTICA E A OPORTUNIDADE QUE SE ABRE

Juventude e classe trabalhadora brasileiras vivem hoje um momento histórico que não pode ser perdido. O ciclo político em que o Partido dos Trabalhadores foi hegemônico na esquerda brasileira acabou.

O enfraquecimento do PT teve início em junho de 2013: o aumento acintoso no número de greves e lutas mais radicais da juventude não à toa “coincidiu” com a queda da popularidade de Dilma, até seu impeachment. Desde a queda do regime militar, a construção do PT serviu para manter a ordem “democrática” e a estabilidade para o capitalismo no Brasil. Com o aparelhamento de sindicatos, movimentos sociais e entidades estudantis, serviu como um grande dique de contenção e controle da revolta e da auto-organização dos trabalhadores, canalizando a luta sempre para o parlamento, para pequenas reformas os falsos juramentos de um futuro promissor. Esse aparelhamento se fortaleceu muito com a chegada de Lula ao poder em 2002, podendo ser sustentado a partir de então diretamente pelos recursos do Estado, mantendo uma forte base de apoio nas burocracias sindicais e demais parasitas. Com sua queda abre-se uma etapa de instabilidade na dominação da burguesia, que precisa, agora, rearranjar suas forças no Estado, agora sem o poder de mediação com as bases da classe trabalhadora. Como afinal manter a população trabalhadora sob controle sem o auxílio do PT? O enfraquecimento da burocracia petista, somado à profunda crise econômica e um frágil governo como o de Temer, cria uma atmosfera explosiva. Finalmente algo novo pode surgir. É como se, de repente, uma carta fundamental do castelo de cartas tivesse sido arrancada, comprometendo todo o equilíbrio social. As pessoas, nas ruas, em toda a sociedade, voltam a falar de política; a dar suas opiniões, a xingar os governantes e a brigar. Há o risco — para a burguesia — de que a classe trabalhadora passe à ação. É esse risco que temos de aprofundar. A juventude universitária tem o dever de abrir caminho para o futuro. Em todo momento de modificações de ciclo político — como na derrubada do governo Jango pelos militares, ou como no fim do governo militar no final da década de 1970 —, a juventude entrou em cena trazendo novos ares e prenunciando grandes movimentos.

Hoje, entramos num período de modificações assim. Cabe saber se a juventude uspiana seguirá acovardada, temendo o futuro, utilizando-se de falsos e frágeis argumentos para auto-enganar-se e lamentar a morte do PT, ou se ela tomará o futuro em suas mãos, abrindo espaço para o novo e o risco.

O M.E. ESTÁ AQUÉM DA CONJUNTURA

Tudo isso se expressa de forma bastante distorcida nos meios universitários. Embora a classe trabalhadora tenha perdido a referência no PT e até o repudie, bem como a maioria absoluta da população, na universidade tudo parece se inverter. Quanto mais o PT é rechaçado pelos mais pobres e pelo operariado, mais as formas camufladas do petismo ganham sobrevida neste setor da juventude, que, ludibriada pelo cretinismo parlamentar, acredita que está se passando um “golpe” no Brasil. E é sobre essa base que ele pretende se reconstruir.

O principal fator da impotência do CEGE hoje, é, na verdade, a miséria política e programática que tomou conta de todo movimento estudantil nos últimos anos com o refortalecimento do petismo em seu interior. Os grupos políticos à frente do M.E., assim como os que atuam no CEGE, parodiando o programa petista, se baseiam em cartilhas mágicas nas quais a conjuntura pode ser abstraída. Centram fogo em pequenas reformas localizadas (melhorias nesse ou naquele departamento), em garantir pequenos feitos para cantar “vitórias” e se autoconstruir, quando o momento que vivemos não é o de sonhar com uma universidade reformada, mas um passo muito anterior: barrar verdadeiramente os ataques, resistir, diretamente, na luta encarniçada, aos ataques cotidianos que se aprofundam e destroem o que ainda resta da universidade. A esquerda uspiana, vivendo num certo delírio, em geral abandona a necessária luta defensiva e unitária, e a substitui por pautas “propositivas” (por exemplo: em 2013 a luta por “mais democracia na universidade” serviu para desviar a atenção da crescente repressão policial após 2011). Essa lógica de atuação reforçou a fragmentação e desarmou o movimento estudantil nos momentos mais cruciais, como na greve deste ano.

Falta a esse setor, a compreensão da situação histórica do presente, de que a crise da universidade (reflexo da crise histórica do capital) é tão profunda que não é possível qualquer reforma para salvá-la. Em vez de pequenos acordos, conciliações, reuniões burocráticas, petições, abaixo-assinados e outras ações inócuas, os estudantes podem fazer valer a sua força, manifestar a sua juventude, ou seja: lutar de forma radical. Os velhos de 20 anos, que logo cedo aprendem as manobras políticas de bastidores ou de assembleias, as conciliações e acordos de gabinetes, não servirão para nada; não abrirão o caminho do futuro.

Os ataques da reitoria estão cada vez mais profundos e encontrando menor resistência por parte dos estudantes. Muitos cursos que entraram em greve, sobretudo os de fora do eixo da vanguarda (FFLCH, ECA, FAU), tiveram como estopim as diferentes manifestações do desmonte em suas unidades: precarização das condições de estudo (salas lotadas, corte nas pesquisas de campo, etc), corte de bolsas, falta de funcionários, falta de professores, etc. No mesmo caminho caminhava a greve dos trabalhadores. Era mais do que necessário que o movimento conseguisse unificar os estudantes, dos diversos cursos, e os trabalhadores em uma mesma luta contra a reitoria e seu desmonte.

As direções do M.E. defendiam as pautas estudantis isoladamente umas das outras, como se não fossem parte de uma mesma luta com os trabalhadores. Como se fosse possível, por exemplo, conquistar “permanência estudantil” sem lutar por contratações de funcionários; como se fosse o suficiente um punhado de bolsas a mais enquanto todos os pilares da permanência seguem sendo destruídos. A destruição dos bandejões, das creches, do hospitais e etc. só pode ser impedida com um forte movimento unificado entre estudantes e trabalhadores. Além do mais, como já dissemos, a crise que assola a universidade é apenas parte da crise de toda a sociedade burguesa. Por isso, é necessário a maior unidade possível, unir os movimentos dentro e fora da universidade para tomar as ruas e combater a tentativa da reitoria e dos governos de jogar a crise sobre nossas costas e as costas do conjunto da classe trabalhadora.

A construção do projeto petista desviou por décadas as energias da juventude e dos trabalhadores para dentro dos limites da própria sociedade burguesa, da universidade burguesa, para o parlamento, para as reformas, para a conciliação com os patrões e, por fim, para o próprio governo burguês. Os estudantes deixaram de acreditar nas suas próprias forças e passaram a esperar melhorias vindas das diretorias de departamento ou em acordos com os professores. Acabaram por se adaptar à rotina universitária para construir suas carreiras. Para a juventude a rotina é a morte. Essa lógica reformista serviu e ainda serve para desarmar a juventude e a classe trabalhadora, neutralizar sua resistência e bloquear seu potencial transformador e revolucionário.


UM PROGRAMA DE LUTA PARA A ATUAL CONJUNTURA

1. Frente Única para resistir contra cada ataque!

Construir a aliança operário-estudantil.

Para não deixar passar nenhum ataque, é necessária ampla unidade de todos aqueles que estiverem dispostos a combater a destruição da universidade, os ataques da reitoria e dos governos (estadual e federal), a repressão policial e perseguição aos lutadores e suas entidades. O movimento estudantil precisa ser ponta de lança nesse processo e tomar as ruas contra os ataques, se unificando com os demais setores em luta. O CEGE, enquanto centro acadêmico, deve dar vazão às lutas, tornando-se um aparelho de Frente Única, e a Frente Única se dá sempre escolhendo um problema (ou inimigo) comum a ser atacado, contra o qual se coloca o conjunto dos estudantes em movimento.

Contra o desmonte da USP! A vida, para os que estudam e trabalham aqui na USP, piora a cada ano. Os burocratas, por trás de seus discursos mofados e cadeiras bambas, a cada canetada, destroem nossas condições de vida. Atacam a permanência estudantil, precarizam as condições de trabalho e garantem que as contas da crise financeira da USP caiam sobre nossos ombros.
Reverter o sucateamento dos hospitais, creches, escola de aplicação, restaurantes e prefeituras! Contratações de funcionários USP já!

Contra a repressão! Cada vez mais, as possibilidades de organização coletiva e resistência paralelas são minadas – os ataques à autonomia estudantil, com a proibição das festas, processos e sindicâncias e dos trabalhadores, com cortes de ponto e perseguição aos lutadores tornam-se cada dia mais comuns.
Contra a retirada dos espaços estudantis, contra o fechamento do Vão da Historia/Geografia! Em defesa da sede do Sintusp! Contra os processos e perseguições aos estudantes e trabalhadores! Em defesa das festas! Fora PM, Fora Koban!

Resistir aos ataques do governo Temer! Contra qualquer ataque, a aliança operário-estudantil. Num governo mais frágil, temos a chance de resistir e derrotar as reformas da previdência, do ensino médio e trabalhista e a PEC 241.

Pela mobilização independente dos trabalhadores e da juventude!

2. Garantir a democracia direta para as tomadas de decisões, erguer o poder da maioria!

Nos últimos anos, temos presenciado uma burocratização e aparelhamento crescente nas entidades estudantis, com reuniões fechadas e deliberações sendo tomadas à revelia da base dos estudantes. Hoje, a “privatização” do CEGE por um “núcleo duro”, que se estabelece como uma gestão não eleita, serviu, primeiramente no sentido de deixar o curso cair na desmobilização, sem nenhum tipo de construção de base ou trabalho agitativo. Pior, posteriormente, especialmente em 2016, serviu enquanto entrave à certas lutas. Se antes o CA dava vazão às lutas, priorizava uma democracia direta e aberta a todos, hoje barra lutas que não são centrais ao programa da vanguarda, caindo nos mesmos erros – a burocratização, a privatização da entidade e o aparelhamento – que inicialmente combatia.

Em cada momento, é preciso favorecer a democracia direta e trazer, para o cotidiano das entidades, a disputa política, com a participação massiva dos estudantes. Precisamos garantir o controle estudantil sobre o CA, com reuniões abertas a voz e voto regulares e assembleias periódicas. Garantir, enfim, que as deliberações que pautam o movimento estudantil na geografia partam das reivindicações reais dos alunos, não da imposição de um programa de uma pequena vanguarda, articulando a luta pelas bases contra os de cima!

3. Retomar a disputa programática para reviver o CEGE

Defendemos que o CEGE volte a ser gerido por chapas eleitas em urna. É preciso devolver aos estudantes o direito de decidir o programa de luta que eles querem para o futuro, isso não pode mais ser decidido em pequenas reuniões, como funciona atualmente o CEGE. É preciso ter uma gestão que possa agir com velocidade sobre a conjuntura, que possa ser cobrada por seus erros e acertos. Abrir novamente a participação no CA para qualquer estudante, seja ele organizado ou não, através de reuniões abertas a voz e voto periódicas, pois a única garantia que temos contra a desmobilização e o burocratismo é a disputa aberta e honesta pelo futuro da nossa entidade no processo eleitoral e principalmente nos fóruns de democracia direta.

É preciso que os estudantes passem pela experiência com os diversos programas políticos dos grupos políticos. Isso só se dá num processo, de alguns anos. É preciso haver chapas que concorram e é preciso haver gestões, para que suas políticas se provem na história, e para que os estudantes tirem as suas próprias conclusões das políticas dos grupos políticos. Isso não nega de forma alguma a “autonomia”. Autonomia significa, literalmente, lei própria, lei auto-imposta. Se a maioria dos estudantes decide retomar gestões com eleição em urna, está aplicando uma lei para si mesma; está agindo de forma autônoma.

A chamada “autonomia” que existe hoje, entretanto, é uma forma que visa a diminuir os embates políticos da maioria dos estudantes do curso; que fecha a entidade numa minoria (a “vanguarda”); que no final prepara a diluição da própria entidade dentro de um certo grupo de amigos. Quem tem medo das discussões políticas duras? Quem quer agir só por consenso? Por trás da “autonomia” atual existe uma forma burocrática de uso da entidade, incapaz de trabalhar politicamente a maioria dos estudantes do curso. Há grupos pelegos e traidores que querem usar a entidade, em gestões, para fins privados? É claro que há, mas eles devem ser combatidos com o debate público e amplo de ideias, e é preciso que a maioria dos estudantes do curso participe e decida. Só assim – não ignorando os problemas reais e a dificuldade real de envolver a grande maioria – se criará o movimento vivo e amplo que todos almejamos.