! dce usp 2015 - Território Livre

dce usp 2015

ADVERTÊNCIA!

Atenção: não estamos aqui para te agradar, conseguir seu voto a qualquer custo com palavras fáceis, promessas vazias e sorrisos.

A verdade da universidade não é agradável e precisa ser mostrada. Não desvie o olhar; não ignore as próximas páginas!

Caso não queira ler, desejamos sorte. Caso queira, “abandone toda a esperança antes de entrar”.

O QUE ERA E O QUE VIROU A UNIVERSIDADE

Lembremos alguns célebres professores desta universidade: Anatol Rosenfeld, Antonio Candido, Aziz Ab’Saber, Bento Prado, Caio Prado, Celso Lafer, Décio de Almeida Prado, Eugênio Kusnet, Florestan Fernandes, Chico de Oliveira, François Châtelet, Gilda de Melo e Souza, Ismail Xavier, J. Vilanova Artigas, Jean-Pierre Vernant, Cesar Lattes, Gerard Lebrun, Claude Lévi-Strauss, Lupe Cotrim, Mário Schenberg, Maurício Tragtenberg, Milton Santos, Roberto Schwarz, Sérgio Buarque de Holanda etc. Todos já faleceram ou se aposentaram.

É forçoso reconhecer que o auge da Universidade de São Paulo já passou, e que ela está em franca decadência. A USP hoje não é nem sombra do que foi.

Obviamente, isso não é por uma incapacidade dos seus novos professores, pesquisadores e intelectuais. Isso ocorre graças às condições históricas do presente, a partir das últimas três décadas. A USP nasceu para pensar um projeto de nação-burguesa; nasceu com um caráter progressista, ainda que burguês. Muitos dos seus grandes intelectuais se inseriram nesse projeto, enquanto quadros burgueses de destaque ou intelectuais de esquerda em busca do caminho da revolução brasileira.

Hoje, entretanto, que resta de um projeto burguês para o país? A burguesia o declinou e somente se volta ao amor atávico ao privado. Ela não tem mais qualquer projeto histórico-social ou função civilizatória. Com ela afundam todas as instituições burguesas que se inseriam em marcos progressistas. “Pra que serve a USP?”, perguntam os burgueses. Dentro de seus planos esta universidade é, no máximo, secundária.

Esta universidade persegue e ataca o que lhe dá base histórica: a liberdade de pensamento. Os intelectuais com pensamento crítico, em vez de serem fomentados, são boicotados, isolados; têm a voz abafada. Quando uma instituição mina seus próprios fundamentos, está condenada à morte.

Vejam o que estão se tornando os cursos da USP: os clássicos sendo abandonados e os técnicos voltados, cada vez mais, inescrupulosamente, ao mercado.

As Ciências Humanas e a Filosofia agora formam em sua maioria professores para escolas particulares ou estaduais (escolas cuja função tem sido, cada vez mais, trancar a juventude). Carentes de reflexão crítica sobre um projeto de país, tais cursos produzem em sua esmagadora maioria ideologia, “novas” teorias para justificar a opressão estatal capitalista.

A “Letras”, herdeira direta do curso clássico de “Belas Letras” (Belles-lettres) há muito tempo abandonou o diálogo com os pilares (greco-romanos) da sociedade ocidental e hoje foca-se em formar professores bilíngues, ou secretários bilíngues para grandes empresas, ou miseráveis professores secundários, altamente explorados.

Os cursos de comunicação e artes perdem-se cada vez mais numa diluída “produção cultural” voltada ao mercado, particularmente ao mercado do entretenimento, cuja função é manter a população num frenesi constante, para melhor ser enganada ou instrumentalizada politicamente para fins duvidosos.

O curso de arquitetura e urbanismo forma cada vez mais designers de mercadorias e menos arquitetos e urbanistas. Estes, por sua vez, têm de se submeter cada vez mais à assustadora mediocridade técnica imposta pela especulação imobiliária.

Os cursos de exatas e biológicas têm suas pesquisas submetidas cada vez mais ao interesse direto de grandes empresas. Ninguém é contra o desenvolvimento técnico, é claro, mas cabe saber se ele se volta primeiro às necessidade humanas ou ao lucro de um punhado de capitalistas. Alguns exemplos: o curso de farmácia, que antes pesquisava doenças tropicais, agora pesquisa cosméticos para a Avon; o Instituto Butantã tem se especializado em… Botox!

Enfim, a USP “Inova” (como gostava de dizer o ex-reitor Rodas) rendendo-se cada vez mais à lógica do mercado. Cursos técnicos são abertos e os “humanistas” minguam. O particular reina, o universal afunda. Por exemplo: em vez de fortalecer e ampliar vagas do curso de Medicina ou Enfermagem, a USP “inova” criando cursos como Gerontologia e Obstetrícia. Em vez de fortalecer e ampliar as Ciências Sociais, se cria a Gestão de Políticas Públicas. Em vez de ampliar vagas e fortalecer Arquitetura e Urbanismo, a USP cria o curso de Design.

Diversos são os exemplos e a EACH é, sem dúvida, um movimento decisivo nessa “inovação” da USP ao mercado: a sua localização específica na cidade, a formação de mão de obra em carreiras técnicas e super especializadas (não queremos com isso fazer nenhum julgamento de valor sobre os estudantes de todos esses cursos citados, apenas descrevemos um processo real, que avança a passos largos).

A lógica do mercado se inculca em tudo: os professores, os pós-graduandos e pesquisadores têm cada vez mais de se adaptar ao produtivismo vazio, seus prazos para pesquisa são diminuídos e sua valorização se dá pelo número de artigos publicados. Livros e livros mensais com artigos superficiais enchem as bibliotecas, graças à ausência de tempo para pesquisa e reflexão crítica.

Os agentes dessa submissão e rendição ao mercado são o corpo acéfalo de altos burocratas, em geral corrompidos (seja com pequenas regalias, como viagens inúteis a supostos “congressos” onde o tempo de discussão acadêmica é mínimo e o tempo de passeio máximo; seja diretamente com desvios de verbas em licitações, favorecimento de empresas, etc.). Esse corpo acéfalo não quer nem vai se colocar contra o processo de decadência da universidade, pelo contrário: ele acelera tal processo. Ele é como um câncer que precisa ser extirpado.

Esse corpo acéfalo, como gestor capitalista da austeridade, agora tem a cara de pau de demitir funcionários, tentar congelar os salários de milhares de trabalhadores e cortar serviços prestados há anos aos estudantes e à sociedade levando a universidade, de forma irresponsável, à quase-inviabilização do seu funciona- mento e à quase-paralisia. Sendo dirigidos por esses burocratas, caminhamos rapidamente para a catástrofe.

SALVAR A UNIVERSIDADE?

A crise da universidade é tão profunda que não é possível qualquer reforma para salvá-la, porque, como dissemos, ela é apenas reflexo da crise histórica e civilizatória da burguesia.

Nenhuma pequena reforma de “democracia”, “acesso” ou “aumento de verbas” pode melhorar a universidade. Pelo contrário, tais pequenas e isoladas propostas, na medida em que não propõem uma solução efetiva para o problema, se tornam cúmplices da destruição da universidade.

Nós não defenderemos pequenas reformas porque, temos certeza, isso é enganar as pessoas, é iludir os estudantes e trabalhadores e desviar o foco das tarefas possíveis de serem realizadas.

Antes de tudo, salvar esta universidade passa necessariamente por reconhecer que ela está morta; que não pode ser melhorada, que tem de ser substituída por outra. Enterremos de vez este corpo putrefato!

CRIAR A UNIVERSIDADE PARALELA!

De forma livre, não burocrática, paralela e transversal, podemos engendrar outra universidade dentro desta.

Como? Realizando, a partir da resistência mínima contra o desmonte da universidade e contra esta cultura falida, a fusão, na prática e na ação, de todos os saberes; a superação de todas as divisões de trabalho estanques; a superação da divisão entre trabalho intelectual e manual; a superação das sub e micro divisões do saber instrumentalizado pelo e para o mercado.

Todo território que seja livre, que aglutine jovens e trabalhadores fora das estruturas da universidade, entra necessariamente em choque com elas, com a burocracia e a polícia. É para impedir que territórios livres surjam que a burocracia ataca as entidades estudantis e o Sintusp, tentando cortar o mal pela raiz, inviabilizando nossa autonomia política e financeira. É para o mesmo propósito que as câmeras brotam como cogumelos e a polícia se torna senhora do Campus.

Só um movimento estudantil não carreirista, nem burocrático ou petista, aliado aos trabalhadores, pode produzir na resistência as bases concretas dessa universidade paralela. Quantos filmes, teatros, músicas, debates, criação de territórios livres não estão engendrados no enorme potencial da juventude e dos trabalhadores? Quanta liberdade não existe, na resistência diária e numa greve, além da prisão das grades curriculares?

Não se trata de reivindicar a “democratização” da universidade ou do acesso a ela como reformas, nem de fazer um movimento estudantil de conciliação e de supostos representantes, onde a maioria continua passiva. Trata-se de, na resistência política, exercer um conhecimento e uma produção livres, sem barreiras ou rótulos, onde qualquer pessoa possa participar ativamente, independentemente de matrícula ou local de origem.

A universidade paralela pode ser a universidade de transição para uma nova cultura e civilização. A luta pela criação da universidade paralela é a única herdeira legítima do projeto original de universidade — de um saber livre para o progresso da maioria da sociedade.

Criar e aprofundar o pólo de resistência, cultura e produção é criar, ao mesmo tempo, um pólo de poder da maioria. Esse outro poder, construído na luta, é o único capaz de dirigir a universidade quando chegar a hora de passar por cima, de vez, dos burocratas acéfalos que nos governam.

Criar a universidade paralela é muito menos utópico que querer reformar e melhorar esta universidade!

VIVA A RESISTÊNCIA DA JUVENTUDE E DOS TRABALHADORES!
CRIAR TERRITÓRIOS LIVRES!
CRIAR A UNIVERSIDADE PARALELA!
CRIAR O PODER POPULAR!

Veja o programa em pdf: