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[panfleto] por que o petismo se fortalece na letras e por que votar criticamente na chapa “por isso me grito”?

Nesta semana serão abertas as urnas das eleições para o Centro Acadêmico de Estudos Literários e Linguísticos Oswald de Andrade, o CAELL, a entidade dos estudantes do curso de Letras da USP. É provavelmente a maior graduação do país em número de estudantes: entram 840 estudantes todos os anos e temos mais de cinco mil matriculados no momento. Não somente pelo número de estudantes que organiza, mas também pelo histórico de lutas do curso, o CAELL tem potencial para ser uma ferramenta decisiva nas lutas da juventude. Hoje, porém, a entidade está longe de cumprir este papel.

Há pouco menos de um ano o Território Livre divulgou suas posições nas últimas eleições para o CAELL (http://bit.ly/1uuHg7c), e desde então muito pouca coisa mudou. Na verdade, o que se apresentava como tendência apenas se aprofundou.

O movimento estudantil, conforme defendemos recentemente, tem todo potencial para se tornar um laboratório de unidade da esquerda diante do aprofundamento da crise e dos ataques que virão. Mas no lugar de vermos nascer a possibilidade de superação da representatividade eleitoral, o fortalecimento da democracia direta e a rejeição à política de gabinete junto aos chefes de departamento, vemos a oposição paralisada e dividida diante da gestão Ruído Rosa. Esta, marcada pela presença do Levante Popular da Juventude e outros petistas, pela sua construção enquanto grupo de amigos antes de se pautar por um programa, pela preferência pela conciliação com a burocracia, é fortemente beneficiada pela inexistência de mobilização real na Letras.

Embora defendam que são oposição de esquerda às políticas do governo federal, os componentes da chapa “Flores de Mandacaru” (composta por grupos ligados ao PSOL e PSTU, membros da atual gestão do DCE), não conseguem fazer com que essa oposição ganhe vida para além das palavras. Seu programa, no que toca aos elementos mínimos e mais concretos para os estudantes, não é diferente nem faz oposição ao programa da atual gestão; sua semelhança com o programa da Ruído Rosa foi um ponto frágil na sabatina das chapas.

PSOL e PSTU têm grande responsabilidade no avanço do petismo dentro do ME uspiano, particularmente na Letras. O desgaste causado após anos de gestões mornas ou burocratizadas do PSTU ou do MES-PSOL no curso, vinculadas à política de controle da entidade visando antes interesses particulares de seus grupos, prepararam o terreno que deu a vitória à Ruído Rosa. Também a luta inoportuna e oportunista que conduziram em 2013 assentou o marasmo entre os estudantes (e isso após os levantes de junho!), marasmo que fortaleceu a atual gestão petista em 2014 (e o fortalecimento do PT em toda a USP).

A chapa “Por Isso Me Grito”, dos companheiros da Juventude às Ruas, é dentre as concorrentes a que foi mais importante e atuante durante a a greve de 2014, participando de todos os piquetes, comandos de greve, assembleias e trancaços. Tentaram, ainda, unificar os estudantes com os trabalhadores, o que é muito importante. Os companheiros se destacam por trazer sempre à tona a situação precária dos trabalhadores terceirizados da universidade, protagonismo diante do qual apenas podemos tirar o chapéu, pois se trata de uma questão fundamental para a precarização da universidade e para a diminuição das condições de vida dos trabalhadores.

Porém, não conseguiram, para a eleição, escrever um programa mínimo de unidade, partindo dos problemas mais sensíveis vividos diariamente pelos estudantes do curso. Seu programa se perde em soluções superestruturais como reformas estatutárias (que certamente, na atual conjuntura, só piorariam a universidade), ou na forma de governança ideal (idealista) da universidade que não está posta neste momento, como a dissolução do C.O.; e tenta resolver de maneira formal um problema político, ao propor como solução para a falta de mobilização no curso a proporcionalidade da votação nas chapas da eleição. Os companheiros da Juventude às Ruas deveriam fazer o esforço de sintetizar algumas poucas e mínimas propostas, concretas para os estudantes, que servissem para estabelecer frentes com outros grupos, e que não excluíssem assim, por princípio, os demais grupos, via delimitação do programa partidário da LER-QI. É preciso lembrar, também, que um centro acadêmico é uma entidade frentista dos estudantes, da base, e não deve corresponder ao programa de um partido. Com essa concepção de entidade, a Juventude às Ruas, em última instância, se isola não só de outros grupos políticos como também do conjunto dos estudantes do curso, quando justamente o momento era de fazer unidade diante dos graves ataques que se anunciam.

Em certo sentido, por apresentar um programa idealista, o programa da Juventude às Ruas é a outra face da moeda do programa apenas mínimo que apresentam PSOL e PSTU, programa que não sai nunca do reformismo. Uns ficam isolados no discurso radical, outros capitulam com o rebaixamento do programa. A ausência de dialética entre as duas posições é decisiva para a desmobilização no curso.

Apesar dessas sérias críticas, deixamos nosso apoio à chapa “Por Isso me Grito”, pois são lutadores dedicados à luta dos estudantes e dos funcionários. Sua atuação na recente greve (greve fundamental para a conquista salarial dos funcionários), e o fato de apontarem para a luta internacional da juventude são elementos muito importantes para superar o atual marasmo e oportunismo reinantes no ME. Junto com os camaradas esperamos aprofundar produtivamente essas críticas e amanhã melhorar a luta conjunta.

Por fim, vale comentar sobre a situação do curso: todas as chapas deixam a desejar em importantes questões básicas dos estudantes, ou apenas as citam para ressaltar suas próprias bandeiras. Trata-se justamente das questões que ampliam os conflitos com as burocracias (locais e da USP). Tais questões básicas são tratadas, seja pela Ruído Rosa, seja pela “Flores de Mandacaru”, de forma a conciliar com os setores da burocracia, ou fugir dos conflitos imediatos. Alguns dos principais problemas são: a falta de espaço de vivência (diminuição significativa das festas e happy hours); as salas de aula agora fechadas (que não mais podem ser usadas livremente para estudo, apenas com autorização); a possibilidade de regulação para o uso do vão da história e geografia (usado por todos os estudantes da FFLCH e da USP) etc. Tais questões não são discutidas e não há nenhum debate sobre a urgência de organizar a defesa conjunta dos estudantes contra esses ataques (que para as organizações concorrentes parecem supérfluos). Além disso, nada de sério é apresentado pelas chapas que aponte para um polo de construção/produção efetiva, independente e paralelo à grade curricular. Os espaços livres de vivência dos estudantes e sua livre produção (justamente o que a universidade ataca) são, em geral, mais importantes para a formação intelectual dos estudantes que a própria universidade.

Nós, do Território Livre, acreditamos que nesse cenário nacional promissor aberto após junho de 2013, uma das maiores graduações do país deveria cumprir seu papel de ponta de lança da luta estadual e mesmo nacional da juventude. Isso, entretanto, não ocorre, em grande parte porque os grupos políticos majoritários voltam a entidade a si mesmos, se equilibrando em políticas conciliadoras com a burocracia.

(na foto, Oswald de Andrade, que dá nome à entidade estudantil, e Patrícia Galvão, lutadores incansáveis contra o oportunismo e reformismo na esquerda)