! [panfleto] greve na encruzilhada! - Território Livre

[panfleto] greve na encruzilhada!

AVALIAÇÕES DA GREVE ATÉ O MOMENTO

A greve está caminhando para um triste desfecho, mas não podemos esmorecer. É hora de reorientarmos nossas forças, de resistirmos em unidade com os trabalhadores, e de começarmos a tirar as lições dessa experiência de luta para o futuro do movimento estudantil. Afinal, como permitimos que o movimento chegasse ao atual estágio de enfraquecimento e impotência?

Milhares de estudantes e trabalhadores se levantaram nas três universidades estaduais paulistas em uma forte greve unificada e saíram às ruas. Cursos que tradicionalmente não se mobilizam na USP se levantaram com greves, piquetes e ocupações, por sentirem na pele os ataques da reitoria: falta de funcionários, degradação das condições de estudo, ameaça de desvinculação do HU, racismo institucional e repressão da burocracia universitária e da PM. Mas esse fôlego inicial da revolta não se sustentou por muito tempo e vemos agora o movimento minguar rapidamente sob a pressão das férias. Por quê?

A FRAGMENTAÇÃO E O ATRASO PETISTA DO MOVIMENTO ESTUDANTIL

A greve estudantil, desde seu início, tem se afastado da perspectiva de barrar o desmonte pela luta conjunta com os trabalhadores. Mesmo entre os estudantes a luta está fragmentada; embora o desmonte e a repressão sejam sensíveis pra amplas camadas estudantis, cada curso tem respondido aos seus impactos de maneira localizada (reverter a falta de professores aqui, falta de estrutura ali, etc). Houve certa dificuldade em unificar a resistência e convertê-la em uma única batalha contra a reitoria. A greve se expandiu nos cursos, mas não conseguiu consolidar grandes assembleias e atos gerais, tampouco vincular-se à greve dos trabalhadores.

Acreditamos, no entanto, que essa dificuldade para a unificação não advém apenas da forma difusa como o desmonte atinge a cada curso ou unidade. Tal obstáculo teria sido facilmente superado tendo em vista, por exemplo, que a defesa do H.U. pelos estudantes da saúde é a mesma dos funcionários que reivindicam contratação de pessoal, ou que a defesa da permanência estudantil está totalmente vinculada à luta contra a terceirização e precarização do trabalho nos bandejões e pela manutenção das creches.

O principal fator para a fragmentação da luta é, na verdade, a miséria política e programática que tomou o movimento estudantil nos últimos anos com o fortalecimen to do programa petista. Os grupos políticos à frente do M.E., parodiando o programa do PT, se baseiam em cartilhas mágicas nas quais a conjuntura pode ser abstraída. Centram fogo em pequenas reformas localizadas (melhorias nesse ou naquele departamento), em garantir pequenos feitos para cantar “vitórias” e se autoconstruir,deixando a defesa pelo que é comum e estrutural em segundo plano. Essa lógica de atuação reforçou a divisão e desarmou os estudantes.

Junto com o desmonte, o aumento da repressão fica cada vez mais claro com a expansão do efetivo policial no campus, os processos de perseguição aos lutadores e a ofensiva sobre os espaços estudantis e o Sintusp. O eixo da luta contra a repressão foi bastante importante nos cursos que entraram em greve, tinha (e ainda tem) grande potencial para a unificação entre estudantes e trabalhadores. É bastante significativo que a gestão do DCE (PSOL, PCB) e o PSTU negligenciem essa pauta fundamental a ponto de terem defendido contra a sua inclusão na assembleia geral que deflagrou a greve.

Contra uma força de destruição da universidade de tamanha magnitude, só um movimento de resistência amplo e radical de toda a juventude pode dar uma resposta. Estaria interessada a esquerda em sair de sua pequena lógica e encarar os problemas de frente?

Os companheiros partem de um pressuposto falso de que é possível melhorar a universidade por meio de reformas e mudanças parciais. Mas a crise que assola a universidade é, na verdade, apenas parte da crise de toda a sociedade burguesa. A construção do PT desviou por décadas as energias da juventude e dos trabalhadores para dentro dos limites da própria sociedade burguesa, para o parlamento, para as reformas, para a conciliação com os patrões e, por fim, para o próprio governo burguês. Essa lógica reformista serviu e ainda serve para desarmar a juventude e a classe trabalhadora, neutralizar sua resistência e bloquear seu potencial revolucionário.

Partindo desse mesmo pressuposto de que seria possível melhorar a universidade e a sociedade burguesa dentro dos limites do capitalismo, salta aos olhos como toda a esquerda, sobretudo a universitária, coloca em primeiro plano as chamadas “demandas democráticas” das mulheres, negros e LGBTs. Não à toa, essas questões se disseminaram no M.E. nos anos de crescimento do PT, reforçando que a esquerda ainda não foi capaz de superar sua gênese petista. Para nós, o destino dos setores mais oprimidos dos trabalhadores está vinculado ao destino de sua classe, que resiste antes de mais nada pela manutenção das suas condições de vida. Tais demandas só podem ser concretiza das pelos trabalhadores na construção de uma nova sociedade, não no capitalismo. A luta democrática não pode autonomizar-se e sobressair-se à resistência da classe trabalhadora contra a exploração capitalista. Se travada separadamente, essa luta pode ser sequestrada pela burguesia, servir para o inverso do que se propõe e voltar-se contra os setores mais oprimidos e explorados que pretende defender. Se distante de uma perspectiva de classe, as lutas democráticas podem servir para o aumento da miséria e da barbárie e o consequente fortalecimento do racismo, do machismo e da LGBTfobia.

São esses limites programáticos da esquerda tradicional, que ainda reproduz as concepções históricas do PT, que abriram espaço para que nesta greve se criasse uma cisão cada vez maior entre a luta democrática por cotas e a resistência conjunta contra o desmonte e a repressão. Fica cada vez mais claro que nenhuma reforma para democratizar o acesso pode de fato melhorar a universidade ou mudar sua realidade, se tomada isoladamente. Pelo contrário, se concorre com a resistência unificada, expressa cumplicidade, mesmo que inconsciente, com a destruição que se aprofunda na universidade e com a repressão a todo o movimento.

A ESQUERDA COLHE O QUE PLANTOU: A DIVISÃO DO MOVIMENTO E SEU DISTANCIAMENTO DOS TRABALHADORES

A esquerda tradicional, portanto, abriu espaço para o autointitulado “movimento autonomista” e hoje parcela dele se coloca como algo “novo” e “radical”, mas na verdade é o herdeiro mais legítimo do velho pro grama do PT e está levando-o às ultimas consequências. Para estes, não importa qual o caminho que tome a greve, não importa as forças que temos, não importa para onde caminha o movimento unificado, não importa sequer a democracia direta, a decisão da maioria em assembleia. Para essa parcela dos autonomistas, importa apenas a luta por cotas, embora também não importe como realmente conquistá-las!

Os grupos políticos da esquerda se veem reféns desse setor, pois temem ser atacados pelos seus insultos de cunho moral e populista, cuja base ideológica esses mesmos grupos reforçaram por anos, ficando agora paralisados.

Hoje, este setor dentro dos autonomistas atua na prática para travar o movimento e enfraquecê-lo. Fomentando o divisionismo de forma totalmente irresponsável, atuam para quebrar a resistência unificada. Ao invés de fomentar a unidade entre as categorias em greve, promovem ações isoladas que dividem não só o movimento estudantil, mas também fragiliza a greve dos trabalhadores. Nossa divisão nos impediu de criar uma articulação real e de, em unidade, tirar ações radicalizadas nas últimas semanas, nos fragilizando frente à repressão que avança.

Muitos dentre os autonomistas são companheiros que tem um sentimento legítimo de rechaço ao burocratismo das direções do M.E., mas infelizmente tornaram-se armas para essa parcela inimiga, nos dividindo, enfraquecendo nossas formas democráticas de organização e nossos métodos de ação direta, nos separaram ainda mais do movimento dos trabalhadores, nossos principais aliados com quem, se nos unirmos, podemos ter força para enfrentar a reitoria.

“AS VESTES POEIRENTAS DE NOSSOS DIAS, CABE A TI, JUVENTUDE, SACUDI-LAS”

Cabe-nos responder uma pergunta: estaria o movimento estudantil disposto a mudar de postura política diante da realidade?

Esse movimento viciado, eleitoreiro e carreirista, com toda certeza não. Mas a greve levantou uma nova geração, que ainda não tem apego à cartilha morta do passado. Novos lutadores que continuarão o movimento e precisam desatar um novo futuro.

Essa nova geração não pode se intimidar diante dos desafios colocados, mas sim tomar da greve as lições mais importantes para construirmos um movimento real, defensivo e radical, que consiga levantar os estudantes no que é mais sensível e central, e que leve os confrontos até seus limites.

É preciso superar esses entraves históricos da esquerda, seu reformismo e sua covardia, e se livrar desse passado petista que oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. A mudança de lógica do M.E. a partir da atual experiência será um importante saldo dessa greve, e é o que nos permitirá levantar a luta em outro patamar no próximo período.

UNIR FORÇAS PARA BARRAR O AUMENTO DA REPRESSÃO

Desde o início da greve, o reitor impôs o corte de ponto com o intuito de coagir e desmobilizar os trabalhadores. Agora se aproveita da nossa divisão e enfraquecimento para nos reprimir ainda mais; é fundamental concentrarmos nossas forças neste momento em reverter o corte dos salários dos grevistas, defender nossas entidades e cada companheiro perseguido. Não podemos permitir a punição de nenhum grevista por parte da reitoria e das diretorias. Não podemos baixar a cabeça e nem aceitar que a PM domine o campus. Precisamos manter a geração de lutadores que se formou nessa greve unida e de pé, não deixar ninguém pra trás, barrar a repressão e criar as melhores condições possíveis para a luta no próximo período.

É preciso reorientar nosso movimento para a unidade. O final do semestre se aproxima e é urgente unir todas as forças para barrar os ataques à nossa organização e ao direito de greve na universidade. Isolados, nem os estudantes nem os trabalhadores conseguirão responder aos desafios que se colocam nesta conjuntura.

UNIFICAR E RESISTIR!
NÃO AO CORTE DE PONTO DOS GREVISTAS!
FORA PM! FORA ZAGO!