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ELEIÇÕES ESTUDANTIS NA USP [2017]

Em 2015, apesar de ter sido um ano de marasmo, em que nenhum embate consistente ou conflito profundo ocorreu, algumas entidades estudantis, que historicamente se localizam na vanguarda do ME uspiano, mostraram resultados eleitorais bastante atípicos: a esquerda mais radical, que se localizava na oposição ferrenha ao petismo e ao burocratismo do DCE, venceu as eleições na ECA, Letras e História. Esse resultado foi muito importante para vislubrarmos um ME mais combativo e democrático em 2016 (você pode ver o balanco das eleições 2016).

Nos resultados das eleições deste ano, porém, ocorreu o processo contrário, o PT retornou aos CAs da História e Letras além de vencer também as eleições na ECA, onde não atuava, sem maiores problemas e mesmo com chapas frágeis e inexperientes. Quem olha de fora pode acreditar que a chamada “esquerda radical” é incompetente e/ou que não sabe gerir um Centro Acadêmico. Nós não acreditamos que tenha sido essa a razão, mas sim que alguns fatores ocorridos neste ano mudaram muito o cenário entre uma eleição e outra.

O primeiro fator de relevância é o impeachment do governo Dilma. A queda do governo petista culminou com a destruição de quase todo o aparato estatal do PT, expresso nas eleições municipais deste ano, o que levou esse partido a quase bancarrota. Agora a existência desse partido está condicionada às eleições de 2018, principalmente na esperança de eleger novamente Lula para a presidência da república. Com seu aparato vindo do estado burguês enfraquecido, o PT está correndo atrás de retornar às entidades de base para que estas sirvam de trampolim para a campanha eleitoral em 2018.

Um dos locais onde se quer dar o ponto de partida para a reconstrução do PT é, sem dúvidas, nas universidades públicas, pois é onde seu programa reformista pequeno-burguês encontra mais respaldo. A universidade está se tornando seu último reduto, quando mais o PT desfalece, perde base e é odiado pela população, mais ele ganha sobrevida nos meios universitários pequeno-burgueses.

Seu programa de “gerência”e “representatividade” é uma tradução do histórico programa petista aplicado a universidade que se adapta à consciência dos estudantes, que é condicionada pela política burguesa. O PT sempre cultivou que as mudanças acontecem no parlamento, não no movimento de massas; o movimento de massas ( as greves, os sindicatos) têm poderes limitados e serviriam apenas para apoiar a atuação parlamentar deste partido. Na universidade eles fazem uma tradução análoga, em que a burocracia universitária é que faz as mudanças, é onde está o “poder real” (sic) assim como o parlamento; então o movimento estudantil (os CAs, o DCE, etc) serviriam para apoiar a atuação dos Representantes Discentes (RDs) dentro dos fóruns colegiados para conseguir conquistas efetivas.

É a lógica do parlamento burguês aplicada ao ME. É a mesma lógica que opera a USP Livre (chapa do PSDB), por exemplo: eles também acreditam que os CAs e DCE tem poderes limitados, por isso abriram mão de disputar as eleições de DCE para disputar apenas as eleições de RDs, que neste ano se desvinculou das eleições de DCE após um golpe da reitoria sobre o movimento. Mas o que diferencia esses partidos é que o PT se apoia sobre as costas do movimento popular e sindical, sua política de conciliação e colaboração só pode existir paralisando e traindo o movimento de massas, o PSDB por sua vez se limita a atuar dentro da política burguesa somente.

A esquerda que esteve à frente do ME este ano foi justamente aquela que pensa o completo oposto desses partidos. Para as gestões que estavam a frente destes CAs os estudantes organizados são o poder real e o poder da burocracia é que é limitado. Não à toa os cursos que levaram os confrontos da greve deste ano até o limite foram a ECA, a História e a Letras: nas atividades de greve, piquetes, atos, etc, os estudantes desses cursos estavam sempre em grande número, foi onde houve houve uma luta intransigente contra os ataques da burocracia culminando em ocupações dos prédios da FFLCH e da administração da ECA.

Mas é disso que também recorre o segundo fator preponderante dos resultados eleitorais: as seguidas e derrotas e o desgaste do movimento estudantil. Há muitos anos o movimento estudantil não consegue derrotar a reitoria, pelo menos desde 2007, o que faz com que seus organismos e métodos caiam em descrença frente a massa dos estudantes. Na medida em que os CAs tomaram a dianteira do processo da greve, o ônus dessa derrota desta recai sobre suas lideranças, os estudantes culpam o M.E pelas degradações das condições de estudos e também por “paralisar as aulas” (fazer greve) por nada. O PT tira sua responsabilidade, alimenta e assume esse discurso para si, desviando as esperanças dos estudantes da sua mobilização independente e transferindo-a para a atuação dos RDs.

Então, como apontamos, se há um motivo geral para o resultado catastrófico das eleições de CA esse ano não foi pela “incompetência” das gestões da esquerda, e sim do momento histórico que vivemos. O PT conseguiu aglutinar todos os votos de repúdio ao ME e aos seus métodos históricos após a derrota da greve, além de surfar na onda do “golpe”, que encontrava fôlego apenas nas universidades e setores oriundos a ela, o que deixou a esquerda praticamente de mãos atadas para as disputas eleitorais deste ano.

Frente a isso cabe parabenizar as organizações e estudantes independentes que forjaram chapas de unidade da esquerda em oposição ao avanço petista. Na ECA e na História a unidade foi fundamental para expressar a força do movimento estudantil e da esquerda frente ao PT. Valorizamos ainda mais que estas chapas de unidade souberam se focar no defensivo, voltados para as tarefas reais de organizar os estudantes contra os ataques impostos pelos burocratas universitários e governos, isso é um avanço para o ME da USP, que costuma ter o sectarismo como marca; diferente das eleições na Letras, em que a fragmentação total da esquerda fez os representantes do ME terem resultados eleitorais insignificantes (a chapa do PT teve 400 votos a mais que segunda colocada).

O ano 2016 está acabando completamente conturbado, a crise política nacional se agrava e a máscara do governo está caindo frente a população. Apesar de estar numa corda bamba, este mesmo governo, assim como os outros, quer tentar passar uma série de ataques. Não podemos ficar isolados e fechados na universidade, a unidade do ME com os trabalhadores na defesa das nossas condições de vida será fundamental para desembocar um movimento grande e radical contra os governos no próximo período, e é na luta que nos separamos e desmascaramos os traidores e oportunistas.

Tomar as ruas contra os ataques!
Não trabalharemos até morrer: abaixo a reforma da previdência!

22.12.2016


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