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dúvidas e desconfianças sobre o “instituto de artes”

Como muitos sabem, nos deparamos hoje na ECA com um debate que pretende mudar os rumos da Escola. Alguns professores e a diretoria, desde o ano de 2012, estão conversando e planejando a criação de um novo instituto, o Instituto de Artes e Audiovisual, I.A.A.. O instituto, como o próprio nome diz, pretende englobar apenas as artes e o audiovisual.

A discussão desse I.A. surgiu para os estudantes no final de 2012, em uma carta assinada pelas “artes” na última congregação do ano, fazendo um apelo para que o fórum colocasse o debate como pauta do próximo encontro. Obviamente, as “artes” eram apenas seus professores. Aliás, nenhum estudante ou trabalhador havia sido questionado sobre isso.

Isso ocorre enquanto o projeto da Nova ECA (abandonar os prédios das comunicações pela construção de um novo atrás do IRI para toda a ECA), apresentado em 2010 pela gestão Rodas, entra em seu calendário de implantação. Supostamente, este projeto sanaria o problema da falta de espaço da Escola, com salas de estudos para as artes, salas e laboratórios para as comunicações, e outras demandas das chefias de departamento que deveriam estar contempladas. No entanto, as plantas todas apresentaram um prédio de 5 andares com menos área que a atual, e foram rejeitadas pelas próprias chefias.

A criação do I.A., que separaria os cursos das artes e de audiovisual do restante da Escola, supostamente daria para cada parte maior possibilidade de desenvolvimento. Mas o debate que está sendo feito, em meio às contradições criadas pela Nova ECA e também de forma nebulosa, atém-se principalmente às disputas políticas internas à Escola, e não aos interesses e implicações acadêmicos da divisão. Alguns professores apresentaram um calendário de separação institucional, administrativa, com data de aprovação de um regimento, mas sem nenhuma etapa de elaboração de plano político-pedagógico prevista.

Acima de tudo, devemos nos perguntar: tais propostas de modificação afirmarão qual tendência, uma que efetivamente resolva ou uma que aprofunda os nossos problemas? Ainda que a questão seja complexa e o fundamental, neste momento, seja ampliar a discussão entre estudantes, professores e funcionários, pensamos que algumas considerações têm de ser feitas e algumas dúvidas levantadas, sobretudo porque esses processos avançam distantes dos olhos dos estudantes, que já perderam o CANiL_ e veem as obras da reitoria avançando sobre o espaço da Prainha.

A primeira questão/desconfiança que temos é: Em que medida esse instituto não está vinculado às atuais linhas gerais de produção que a gestão Rodas aplica em várias unidades? Ou seja: em que medida uma vinculação maior das artes ao mercado — e a consequente fragmentação das pesquisas e dos departamentos — é realmente melhor para as artes?

A segunda questão/desconfiança que temos é: Em que medida a divisão dos saberes é algo progressista para a nossa formação universitária? Aqui, novamente, é preciso retomar a história e lembrar que a ECA já foi separada do resto das humanidades, do que hoje é a FFLCH, quando a USP deixou de ser na Rua Maria Antônia e veio para o Butantã. Ou seja, as artes e comunicações não eram pensadas apartadas do pensamento, ou melhor, o pensamento não era pensado apartado da sua expressão. A quem servem essas divisões estáticas e técnicas? Será que elas realmente caminham no sentido de uma verdadeira formação artística e humanística?

A terceira questão/desconfiança que temos é: Será mera coincidência que tanto a ECA quanto a FFLCH, as principais e maiores unidades que hoje ainda questionam a política da reitoria e sua burocracia, estejam discutindo a mesma proposta? Como se sabe, na FFLCH paira o fantasma da implementação de um projeto de divisão dos seus cursos em institutos isolados. Isso significará quebrar, via provincianismo, divisão em pequenas localidades e separação dos professores e alunos, uma das mais fortes congregações da USP, aquela que muitas vezes se posiciona contra o Rodas. O mesmo vale para a ECA. Seria a famosa fórmula de Maquiavel, “Dividir para governar”?

Nos parece que essa proposta de institutos — que, lembramos, pode ser implementado mesmo sem um plano político-pedagógico claro — se molda no funcionamento da Unicamp. Lá existem diversos institutos para o que hoje são, na USP, os cursos das diversas faculdades. É por isso que essa universidade, a Unicamp, se diferencia da USP por ser mais técnica, mais “moderna” — no linguajar do mercado –, ter melhores estruturas, com mais financiamento. Mas a Unicamp também se diferencia por ter um movimento estudantil muito mais desorganizado e frágil que o nosso — fragmentado em seus diversos institutos — e um corpo docente também mais fraco politicamente e disperso, incapaz de se contrapor à submissão da universidade ao mercado. Será que é isso que queremos para os nossos cursos? Será que é isso que queremos para a USP?

02.05.2013


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