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a democracia de base no movimento estudantil

O seguinte texto foi produzido pelo TL para a Revista Canhota, da Geografia-USP.

O movimento estudantil da USP está aquém da conjuntura e das tarefas que se colocam frente à juventude. O marasmo reina e boa parte dos espaços e fóruns estudantis se encontra esvaziado, o que dá margem para alguns setores estabelecerem um debate anti-político, contra a própria existência das organizações e partidos, os responsabilizando pelo esmorecimento do ME. Ao mesmo tempo, e de maneira contraditória e quase
oportunista, os mesmos setores afirmam que o esvaziamento em um curso horizontal como é a geografia se dá de maneira espontânea e descolada das diretrizes e direções políticas atuantes no CEGE. Nesse sentido, o TL acredita ser fundamental fazer um debate menos simplista. Especialmente pensando no combate ao burocratismo através da democracia direta, e qual é a sua importância na condução das políticas das entidades.

A​ NOSSA DEMOCRACIA E A DELES

As tarefas da esquerda se tornam cada vez mais urgentes, e também complicadas. O capitalismo, hoje, já não possui mais um potencial progressista, vive sua crise histórica e seus reflexos na superestrutura deixam cada vez mais claro a farsa que é a democracia burguesa e a representatividade eleitoral. Cada vez mais se escancara a crise dessas instituições e a percepção de que a grande maioria dos direitos vigentes nas sociedades
modernas só servem para mascarar os antagonismos sociais, e de nada beneficiam a população. E, não conseguindo mais se maquiar com o discurso de que as eleições são uma possibilidade real de mudança, que representaria um espaço de igualdade de participação independente da condição de classe, as próprias elites passam a negar as perspectivas da construção coletiva da sociedade e todo o discurso humanista que o capitalismo um dia já sustentou (nesse sentido é que se dá, por exemplo, o discurso neoliberal). De um lado ou de outro, e principalmente com a ruína do projeto conciliatório, no Brasil representado pelo PT, passa a ficar óbvio a impossibilidade de uma democracia real em uma sociedade de classes.

Hoje, não só a esquerda precisa bradar contra a naturalidade da exploração e da opressão (e de toda o tipo de barbárie que se estabelece ao nosso redor), como também precisa resguardar com todas suas forças a construção das narrativas coletivas, da necessidade de uma universalidade radical que nos iguale por meio do poder da maioria – o que é, verdadeiramente, o pensamento democrático.

É preciso que se diferencie: a democracia deles e a nossa. A primeira existe em função de perpetuar os mecanismos de decisão política como instrumentos indissociáveis do poder econômico, engendrando um sistema no qual formalmente somos todos iguais, mas que carrega em si a exploração e formas brutais, uma verdadeira ditadura do poder econômico, onde eleger alguém significa apenas escolher a mão que te aplicará ataques. A segunda, se fundamenta em elementos diametralmente opostos: trata-se justamente de impedir que as decisões políticas caiam nas mãos dos interesses do poder econômico, do estado ou da burocracia, garantindo um poder de dominação real para maioria, em contraposição ao
poder estabelecido. Que nós mesmos possamos decidir sobre o nosso futuro.

É um erro misturar as coisas e acreditar que a “crise da representatividade”, que se dá em um âmbito político completamente diverso, deva ser transposta à entidades, fóruns e espaços outros que estão sob o controle estudantil. A democracia burguesa, de fato, é uma grande farsa que não nos interessa, mas nestes espaços podemos – e devemos – expressar uma outra democracia, que é verdadeira e está em função dos interesses da maioria. Que é construída debaixo para cima e historicamente, se provou a maior aliada dos revolucionários na construção da dualidade de poder, porque é capaz de aglutinar uma ampla maioria e, mais que isso, de ligar o presente ao futuro.

A DEMOCRACIA DE BASE​ ​ME

O movimento estudantil, historicamente, seja nos seus momentos mais gloriosos ou nos mais mortos, se depara com as mesmas contradições e entraves de sempre. E a burocratização é o maior deles – e esta sim, a principal causa de um esvaziamento. Os germes que levam à burocratização são inevitáveis e isso é um problema objetivo, que precisamos encarar com a devida seriedade. Posto isto, é necessário compreender quais são os meios mais eficazes para combater essas tendências. No plano político, para nós, o caminho é um: fortalecer a democracia de base e a intervenção direta dos estudantes na política da entidade.

É claro que não existe uma fórmula mágica para lidar com isso, porque não se trata apenas de uma questão de forma. A democracia direta é uma premissa, mas não basta por si só. Precisa estar sempre vinculada a uma mobilização real das bases e a um horizonte expansivo das lutas. E é justamente nesses pontos que o CEGE – e diversas outras entidades – tem falhado. É preciso insistir no fato de que, as incumbências históricas (e também as conjunturais, visto a gravidade dos ataques e a profundidade da miséria das condições) do ME só podem ser realizadas com o amplo apoio das bases e a organização conjunta de nossas próprias forças. É um equívoco tático e estratégico partir das concepções do âmbito individual para realizar a ação política. Os CAs não podem funcionar enquanto entidades nas quais cada um pauta seu próprio projeto político, sem disputas, embates ou unidade nas ações. Um aglomerado dissociado e inorgânico de micro-políticas. Quem quer que tenha alguma experiência de luta no ME, seja em greves, piquetes, ocupações, atos, paralisações, sabe pelo próprio critério da prática que as ações mais bem sucedidas são sempre as preparadas e conduzidas por meio de inúmeras assembleias e fóruns outros, onde os lutadores disputam e chegam a acordos mínimos sobre a maneira de organização mais efetiva da nossa categoria. Quando as coisas não funcionam por estas vias, reina o distanciamento e o desinteresse, pois retorna-se, novamente, à lógica individualista. É neste sentido que afirmamos: nada além da nossa própria organização e ação coletiva é capaz de mobilizar os estudantes de maneira eficaz. A ausência da democracia direta real – isto é, uma sem vícios burocráticos ou eleitoreiros – obstrui a ação coletiva e a construção de uma linha política correta.

Nosso constante esforço, ao perceber um distanciamento entre entidade e seus estudantes, uma clara distinção entre vanguarda e base, não pode ser o de nos blindar de fazer embates e limitar-nos à esses pequenos projetos pessoais (que claro, são importantes e devem sim encontrar vazão para que sejam realizados): precisamos, mais que nunca fazer um esforço constante de garantir a reaproximação dos estudantes e de firmar, mais que
nunca, a democracia direta. Garantir que as decisões e deliberações, das mais simples, como calendário, às mais relevantes, passem pelo aval do conjunto dos estudantes, evitando a privatização da entidade por um “núcleo duro”. Pois essa é a nossa única garantia contra a burocracia e o imobilismo.