! dce usp 2017 - Território Livre

dce usp 2017

O PRESENTE

1. JUVENTUDE EM TEMPOS DE MISÉRIA

Um em cada quatro jovens entre 18 e 24 anos está desempregado no Brasil. A porcentagem dos que simplesmente desistiram de procurar emprego e não constam nas estatísticas é inestimável. Inflação em alta, mais de 12 milhões de desempregados e cortes de direitos são impostos por uma minoria de parasitas contra as necessidades da maioria da população. Temer se prepara para desferir todos os ataques que Dilma preparou mas não conseguiu por conta de sua fragilidade política. Começou a ser aprovada na câmara a PEC 241, está sendo gestada uma nova reforma da Previdência, que vai aumentar a idade mínima para aposentadoria. Por decreto, foi aprovada a reforma do Ensino Médio. Também está na pauta do governo retirar direitos trabalhistas, tais como férias, 13° salário, FGTS e afins.

Se hoje não há oportunidades para a juventude, o que se dirá de amanhã? Seremos uma geração perdida?

Soma-se à total falta de perspectivas para o futuro, o crescente descrédito com a política tradicional. O PT que durante décadas alimentou ilusões nesse sistema falido em gerações inteiras, agora desmorona e deixa nu o verdadeiro caráter do Estado: um balcão de negócios para garantir os interesses privados e o lucro da burguesia às custas das condições de vida da população.

A mesma lógica privada, que determina que a população trabalhadora deve arcar com a crise econômica para manter os privilégios de uma minoria parasitária no âmbito nacional, é a que toma conta e destrói o que ainda resta de progressista e libertador na universidade. A corrupta burocracia universitária, incorporada na figura de Zago é a correia de transmissão da ofensiva burguesa e dos governos contra a juventude e a classe trabalhadora dentro da universidade. Os hospitais e equipamentos de saúde, as creches, a prefeitura, os bandejões, as unidade de ensino e toda USP seguem sendo destruídos em função da superexploração, da terceirização e do lucro.

2. O QUE VIROU A UNIVERSIDADE

Sob o domínio da burguesia decadente, a universidade não pode desenvolver plenamente a ciência e a cultura. Não suporta nada de totalmente libertário, novo, ou original. Restam medidas burocráticas de controle dentro e fora das salas de aula.

O Saber é asfixiado pela mesquinhez dos burocratas que dirigem a universidade. As aulas tornam-se cada vez mais castradoras,domesticadoras de mão-de-obra barata – em cursos cada vez mais precarizados – quando não, passam a ser formadoras de mão-de-obra super especializada financiadas e voltadas aos interesses de grandes empresas. Os cursos tradicionais são abandonados e os técnicos voltados cada vez mais ao mercado.

Nos é imposto apenas reproduzir o conhecimento enlatado, fazer provas e trabalhos muito distantes da realidade, dos anseios da nossa geração e da maioria da população. Os professores, os pós-graduandos e pesquisadores têm cada vez mais de se adaptar ao produtivismo vazio, seus prazos de pesquisa são diminuídos e sua valorização se dá pelo número de artigos publicados. Enquanto isso, as bibliotecas lotam-se mensalmente de livros e revistas empoeiradas com artigos superficiais, graças à ausência de tempo para pesquisa e reflexão crítica.

Esta universidade persegue e ataca o que lhe dá base histórica: a liberdade de pensamento. Os intelectuais com pensamento crítico, em vez de serem fomentados, são boicotados, isolados; têm a voz abafada. Toda discussão e produção independente dos estudantes é reprimida, seja pela grade curricular obrigatória e a imposição de produtividade quantitativa, seja diretamente pela perseguição do departamento jurídico da reitoria e pelas botas da Polícia Militar.

Os agentes propagadores dessa submissão ao mercado são o corpo acéfalo de altos burocratas, em geral corrompidos (seja com pequenas regalias, como viagens inúteis a supostos “congressos” onde o tempo de discussão acadêmica é mínimo e o tempo de passeio máximo; seja diretamente com desvios de verbas em licitações, favorecimento de empresas, etc.). Esse corpo acéfalo não quer, nem vai se colocar contra o processo de decadência da universidade, pelo contrário: ele acelera tal processo. Ele é como um câncer que precisa ser extirpado.

Esse corpo acéfalo, como gestor capitalista da austeridade, agora tem a cara de pau de demitir funcionários, tentar congelar os salários de milhares de trabalhadores e cortar serviços prestados há anos aos estudantes e à sociedade levando a universidade, de forma irresponsável, à quase-inviabilização do seu funcionamento e à quase-paralisia. Dirigidos por esses burocratas, caminhamos rapidamente para a catástrofe.

3. DERROTA DA GREVE DE 2016 E MISÉRIA DO MOVIMENTO ESTUDANTIL

Este ano, milhares de estudantes e trabalhadores se levantaram nas três universidades estaduais paulistas em uma forte greve unificada e saíram às ruas contra esse processo de destruição. Cursos que tradicionalmente não se mobilizam na USP se levantaram com greves, piquetes e ocupações, por sentirem na pele os ataques da reitoria e a decadência da universidade. Mas esse fôlego inicial da revolta não se sustentou por muito tempo e o movimento minguou rapidamente. Por quê?

Embora o desmonte e a repressão sejam sensíveis pra amplas camadas estudantis, cada curso respondeu aos seus impactos de maneira localizada (tentar reverter a falta de professores aqui, falta de estrutura ali, etc). Houve certa dificuldade em unificar a resistência e convertê-la em uma única batalha contra a reitoria. A greve se expandiu nos cursos, mas não conseguiu consolidar grandes assembleias e atos gerais, tampouco vincular-se à greve dos trabalhadores.

O principal fator para esta a fragmentação da luta foi, na verdade, a miséria política e programática que tomou o movimento estudantil nos últimos anos com o fortalecimento do programa e dos métodos petistas. Os grupos políticos à frente do M.E., parodiando o programa conciliador e reformista do PT, se basearam em cartilhas mágicas nas quais a conjuntura pode ser abstraída. Centraram fogo em reformas localizadas, na garantia de pequenos feitos para cantar “vitórias” e se autoconstruir, deixando a defesa pelo que é comum e estrutural em segundo plano. Essa lógica de atuação reforçou a divisão e desarmou os estudantes.

Contra uma força de destruição da universidade de tamanha grandeza, só um movimento de resistência amplo e radical de toda a juventude, se unindo aos trabalhadores (a começar pelos da universidade), pode dar uma resposta. Estaria interessada a esquerda em sair de sua pequena lógica de reforminhas e encarar os problemas de frente?

A esquerda tradicional parte de um pressuposto falso de que é possível melhorar a universidade, democratizar sua estrutura de poder por meio de reformas e mudanças parciais que acabam em si mesmas. Se prepara agora para fazer uma campanha por “eleições diretas para Reitor” ano que vem. Mas a crise que assola a universidade é, na verdade, apenas parte da crise de toda a sociedade burguesa. Nenhuma eleição possivelmente mais ampla e democrática poderia reverter tal processo histórico. Se empenhar em ampliar a participação na escolha do reitor só servirá para desviar a atenção dos ataques fundamentais que seguirão sem trégua.

Enquanto isso, a burocracia se fingirá mais democrática, podendo ceder um pouco na forma, sem comprometer seu controle privado e os interesses da burguesia sobre a universidade. Essa ilusão foi semeada nos anos de construção do PT, este desviou por décadas as energias da juventude e dos trabalhadores para dentro dos limites da própria sociedade burguesa, “por mais democracia,” para o parlamento, para as reformas, para a conciliação com os patrões e, por fim, para o próprio governo burguês. Essa lógica reformista serviu e ainda serve para desarmar a juventude e a classe trabalhadora, neutralizar sua resistência e bloquear seu potencial revolucionário.

É preciso superar esses entraves históricos da esquerda, seu reformismo e seu horizonte limitado, e se livrar desse passado petista que oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. A mudança de lógica do M.E. a partir desta última experiência deve ser um importante saldo dessa greve, se conseguirmos fazer a crítica e as avaliações corretas, nos permitindo levantar a luta em outro patamar no próximo período.

“Talvez a história esteja nos dando mais uma chance, dolorosa, de sacudir de nossas formas o mofo e deixar ver, por baixo da poeira envelhecida dos tempos, aquilo que de mais jovem guardamos no sentido: o desejo, inquestionavelmente jovem, de revolucionar até as estruturas mais profundas desse mundo carcomido”. (Helena Silvestre do movimento Luta Popular)

O PASSADO

4. ORIGEM E MEMÓRIA RECENTE DO MOVIMENTO ESTUDANTIL

A luta unificada dos estudantes, trabalhadores e professores é o que melhor conserva qualquer potencial criativo e transformador na universidade! Apesar da derrota da última greve e do atual refluxo, apenas por meio da nossa organização direta poderemos construir uma nova universidade aberta, livre da burocracia parasitária, do Estado, do mercado e da polícia. Na resistência à destruição desta universidade em franco declínio, como tantas vezes nossa própria história nos demonstrou, podemos erguer o poder da maioria e engendrar outra universidade dentro desta.

A própria a entidade central dos estudantes da USP (DCE-Livre), o DCE-Livre, foi fundada em meio ao levante da juventude pelas liberdades democráticas no final da década de 70, ainda sob a Ditadura Militar. Os estudantes, a partir de sua organização independente, em aliança com os trabalhadores, desencadearam um processo com grande abrangência social e prenunciaram as grandes greves operárias, sobretudo do ABC paulista, que abalaram decisivamente o Regime. A USP, como território livre dos estudantes, era um importante pólo de crítica e resistência, com inegável relevância para o conjunto da juventude e dos trabalhadores e do futuro de nosso país. Aos levantes que refundaram as entidades livres da USP, livres por que não se submetiam às leis da Ditadura, no entanto, salvas algumas poucas exceções, seguiram-se décadas de marasmo de um movimento estudantil cada vez mais domesticado e aparelhado pelo PT durante o período de “estabilidade democrática”.

Apenas em 2007, ressurgiu um novo movimento estudantil. Os estudantes ocuparam a reitoria da USP contra um decreto do governador que feria autonomia política e financeira da universidade. Após a ação direta, o movimento rapidamente se massificou e surpreendeu à todos, passou por cima da gestão petista do DCE na época, que se contrapôs à ocupação mas perdeu completamente o controle sobre os estudantes. Como há tempos não se via, assembleias de milhares de estudantes tomaram a universidade, o caos se instaurou contra a rotina acadêmica, a universidade se tornou mais viva do que nunca, a ocupação promoveu o encontro, a discussão e a ação de estudantes de toda a USP. Da confabulação de poetas, arquitetos, engenheiros, matemáticos, artistas pela primeira vez estendemos na Torre do Relógio uma faixa gigante, com os dizeres: “UNIVERSIDADE LIVRE.” Nesta ocasião dezenas de ocupações se espalharam de universidades de todo o Brasil contra o REUNI de Lula, ultrapassando em muito os limites locais.

Desde então os universitários retomaram diversas vezes os métodos de greve e ocupação, sobretudo contra a presença da Polícia Militar no Campus, que em 2009 dissolveu o piquete dos trabalhadores e bombardeou uma manifestação dentro da USP, violando primeira vez desde a ditadura, a conquista democrática de não intervenção militar para reprimir o movimento dentro da universidade. Especialmente em 2011, a partir da tentativa de detenção de dois estudantes e expulsão da PM do morrinho da História, forjou-se uma das maiores experiências de organização e poder estudantil paralelo que desafiou a Reitoria. Duas ocupações, greve, assembleias de milhares de estudantes, e um Comando de Greve com centenas de representantes eleitos nas assembleias de base e enraizado em dezenas de cursos da USP. Este Comando de Greve organizou uma das maiores calouradas da USP sob forte proibição e repressão da reitoria, mesas de debate e um show protesto, com Bnegão e Isca de Polícia e mais de cinco mil jovens de toda cidade. Afinal, todas as greves colocam na ordem do dia a seguinte questão: quem manda na universidade, a minoria de burocratas ou a democracia da maioria organizada?

Felizmente, tais mobilizações apenas prenunciaram levantes muito maiores da própria juventude, como vimos nas ruas desde Junho de 2013 e agora com as ocupações das escolas, ano passado em SP e a esse ano no Paraná e em todo o Brasil, mais de mil escolas são ocupadas contra as reformas do governo Temer. A juventude que resiste apenas prepara o terreno para que a classe trabalhadora entre em cena em combates ainda mais grandiosos . Precisamos retomar o nosso próprio histórico de luta, vincular-se a esse ascenso da juventude em aliança com os trabalhadores, fazer de novo da universidade um pólo de organização e revolta!

O FUTURO

5. FRENTE ÚNICA NO DCE! ESTUDANTES EM MOVIMENTO!

Nestas eleições propusemos mais uma vez a ampla unidade a todos aqueles que estiverem dispostos a combater a destruição da universidade, os ataques da reitoria e dos governos (estadual e federal), a repressão policial e perseguição aos lutadores e suas entidades. Infelizmente esta unidade não se conformou no processo eleitoral, mas ainda assim, insistimos quanto à sua necessidade para a luta no próximo período. Não devemos esquecer que as entidades estudantis são propriamente isso: aparelhos de Frente Única, e a Frente Única se dá sempre escolhendo um problema (ou inimigo) comum a ser atacado, contra o qual se coloca o conjunto dos estudantes em movimento.

É verdade que temos muitas e muitas diferenças com os mais diversos estudantes e correntes, sejam eles do PSTU, do PSOL, e mesmo com os estudantes que apoiaram a Dilma e o PT no último período. Mas, mais importante do que quaisquer diferenças, é a tarefa imediata que se coloca em nossa frente: a de mobilizar todos os estudantes em luta contra nossos inimigos comuns e principais. Só a nossa correlação de forças pode transformar o movimento estudantil, novamente, em um pólo significativo das lutas estudantis em aliança com a classe trabalhadora. Se ficarmos apenas nos dividindo e disputando “concepções” de mundo, sem colocar a maioria em movimento, seguiremos isolados e enfraquecidos.

Contra nossos inimigos que nos cercam por todos os lados (a burocracia, a Procuradoria Geral, a PPUSP, a Koban, PM, os governos…) é necessário erguermos uma só voz! Nos armar para resistência conjunta e em aliança com os trabalhadores de dentro e de fora da universidade. Já passou da hora de pormos os vícios sectários e eleitoreiros de lado, e assim podermos apresentar aos estudantes um programa comum, que aponte uma perspectiva consistente para os combates que se aproximam e para o nosso futuro!

Contra o desmonte da USP! Reverter o sucateamento dos hospitais, creches, escola de aplicação, restaurantes e prefeituras! Contratações de funcionários USP já!

Contra a repressão! Cada vez mais, as possibilidades de organização coletiva e resistência paralelas são minadas – os ataques à autonomia estudantil, com a proibição das festas, processos e sindicâncias e dos trabalhadores, com cortes de ponto e perseguição aos lutadores tornam-se cada dia mais comuns. Contra a retirada dos espaços estudantis, contra o fechamento do Vão da História/Geografia! Em defesa da sede do Sintusp! Contra os processos e perseguições aos estudantes e trabalhadores! Em defesa das festas! Fora PM, Fora Koban!

Resistir aos ataques do governo Temer! Contra qualquer ataque, a aliança operário-estudantil. Abaixo as reformas da previdência, do ensino médio e trabalhista e a PEC 241.

6. CRIAR A UNIVERSIDADE PARALELA!

A partir da resistência mínima contra o desmonte da universidade e a repressão, e contra esta cultura falida, a fusão, na prática e na ação, de todos os saberes; a superação de todas as divisões de trabalho estanques; a superação da divisão entre trabalho intelectual e manual; a superação das sub e micro divisões do saber instrumentalizado pelo e para o mercado.

Todo território que seja livre, que aglutine jovens e trabalhadores fora das estruturas oficiais da universidade, entra necessariamente em choque com elas, com a burocracia e a polícia. É para impedir que territórios livres surjam que a burocracia ataca as entidades estudantis e o Sintusp, tentando cortar o mal pela raiz, inviabilizando nossa autonomia política e financeira. É para o mesmo propósito que as câmeras brotam como cogumelos e a polícia se torna senhora do Campus.

Quantos filmes, teatros, músicas, festas, debates, teorias não estão engendrados no enorme potencial da juventude e dos trabalhadores? Quanta liberdade não existe, na resistência diária e numa greve, além da prisão das grades curriculares?

Trata-se de, na resistência política, exercer um conhecimento e uma produção livres, democratizados, da maioria, sem barreiras ou rótulos, onde qualquer pessoa possa participar ativamente, independentemente de matrícula ou local de origem.

A universidade paralela pode ser a universidade de transição para uma nova cultura. A luta pela criação da universidade paralela é a única herdeira legítima do projeto original de universidade — de um saber livre para o progresso da maioria da sociedade.

Criar e aprofundar o pólo de resistência, cultura e produção é criar, ao mesmo tempo, um pólo de poder da maioria. Esse outro poder, construído na luta e nas ocupações, é o único capaz de dirigir a universidade quando chegar a hora de passar por cima, de vez, dos burocratas acéfalos que nos governam.

VIVA A RESISTÊNCIA DA JUVENTUDE E DOS TRABALHADORES!

CRIAR A UNIVERSIDADE PARALELA!

CRIAR O PODER DA MAIORIA!

 
 

07.11.2016


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