! NOVOS ARES NO MOVIMENTO ESTUDANTIL DA USP - Território Livre

NOVOS ARES NO MOVIMENTO ESTUDANTIL DA USP

BALANÇO: ELEIÇÕES DAS ENTIDADES ESTUDANTIS 2016

Apesar do marasmo que toma conta do movimento estudantil da USP, mudanças relevantes aconteceram nas eleições de algumas das suas principais entidades estudantis neste ano. Apesar do profundo estado de dormência e do imobilismo reinantes no movimento hoje, em importantes entidades foram rechaçadas gestões que, há anos, ajudavam a manter o movimento restrito a uma política insossa de calendário.

Nos últimos anos, a reitoria intensificou seus ataques, avançou nos cortes de serviços e bolsas, ampliou a repressão e instaurou o Koban, projeto que torna mais constante a vigilância policial sobre estudantes e trabalhadores. Enquanto isso, os trabalhadores resistiram com uma forte greve contra o arrocho em 2014, mas os estudantes permaneceram paralisados. A última mobilização estudantil relevante na USP ocorreu em 2013 e, desde então, o movimento entrou num profundo refluxo.

Enquanto as principais entidades estudantis se ocupavam em traçar planos mirabolantes e grandes esquemas sobre uma possível universidade reformada e cheia de democracia, no mundo real os ataques da reitoria não encontravam resistência séria por parte dos estudantes. Assim, a universidade se tornou ainda mais fechada, burocrática e submissa aos interesses do mercado. Como já dissemos diversas vezes, o movimento estudantil, em vez traçar grandes planos para a universidade do futuro, precisa se preocupar acima de tudo em organizar os estudantes para que resistam e, em unidade com os trabalhadores, produzam desde já o futuro por meio de sua luta e de sua livre criação.

Apesar de todos os ataques e da intensificação da crise econômica e política, o movimento seguia com seus planos mirabolantes e não aparecia, desta forma, como perspectiva séria de organização para os próprios estudantes, que nos últimos dois anos se distanciaram mais e mais de suas entidades. Estas passaram cada vez mais a servir apenas para a autoconstrução de alguns poucos grupos políticos.

Nestas últimas eleições, no entanto, em diversas unidades e cursos do campus Butantã, venceram chapas que rechaçam esta forma rotineira de atuação. Com diferentes programas, compostas por diferentes coletivos e uma grande quantidade de estudantes independentes, estas chapas têm em comum a compreensão de que o movimento estudantil deve servir, acima de tudo, como ferramenta de organização e resistência dos estudantes; procuram atacar o burocratismo nas entidades e compreendem a necessidade de lutar ao lado dos trabalhadores para resistir aos ataques da reitoria. Em diferentes níveis, enxergam a necessidade de que o movimento seja dirigido sempre pelos próprios estudantes e não veem as entidades como um fim em si, mas como importantes ferramentas para potencializar a ação e a produção estudantil.

São os casos, por exemplo, da chapa “Gasolina”, eleita para o CALC (ECA), da “Revide”, eleita para o CAHIS (História), da chapa “Por isso me grito”, vencedora das eleições do CAELL (Letras) e da chapa “Da Lama ao Caos” eleita para o CAPPF (Pedagogia). Nas eleições destas e de outras entidades de base, perderam espaço o burocratismo e, acima de tudo, o governismo. Estas chapas são compostas por inúmeros estudantes independentes, além de correntes como o Território Livre, a Juventude às Ruas, a tendência estudantil libertária Rizoma e a Corrente Proletária Estudantil.

O cenário é tal que o movimento estudantil da USP se depara com o momento de maior fragilidade do petismo e do semi-petismo em décadas. Perderam espaço também as organizações de esquerda não-governista que, apesar de se colocar contra o governo em palavras, por anos estiveram nas entidades com a lógica de utilizá-las para fins particulares de autoconstrução.

Estas correntes e partidos sempre colocaram em segundo plano a luta dos estudantes e o controle democrático do movimento pela base. O quórum abaixo da média em diversos processos eleitorais reflete a fragilidade a que esses tipos de atuação submeteram as entidades. Onde estas correntes geriam as entidades, os centros acadêmicos sequer eram conhecidos pelos estudantes e mal abriam suas portas durante o ano. As entidades funcionavam, assim, apenas como espaço para aproximar novos militantes destes grupos e como aparato para eles falarem em nome dos estudantes sem, no entanto, procurar articulá-los minimamente.

Estes resultados, além de um rechaço dos estudantes a estas correntes burocráticas, expressam sobretudo os ventos da conjuntura atual. Cada vez mais, a crise econômica e política em que se encontra o país faz com que a juventude e os trabalhadores se disponham a resistir e busquem as formas de fazê-lo.

Desde a tomada das ruas pela juventude em 2013 até a onda de ocupações de escola que fechou 2015, vemos surgir dia a dia, nas lutas, um novo movimento que não nutre qualquer tipo de esperança na experiência petista de conciliação, subserviência e bom mocismo. Cada vez mais, as águas da história se dividem entre os que continuam apegados a este governo moribundo e entre aqueles que inauguram uma nova etapa de luta, que passa completamente por fora do carcomido petismo.

Pensamos que é dever daqueles que compreendem a atual conjuntura buscar construir a unidade da esquerda disposta a armar o movimento com um programa de resistência. Para nos defendermos e resistirmos aos ataques da reitoria e barrar o avanço da repressão é preciso unidade. Para enterrar de vez o governismo e o burocratismo moribundos, é preciso unidade.

Assim, a partir do balanço dos resultados eleitorais nas entidades citadas, vemos como tarefa dos estudantes e correntes políticas que compuseram as chapas mencionadas apresentar uma perspectiva unitária, em escala maior, para a futura eleição para o DCE Livre da USP, o Diretório Central dos Estudantes. Precisamos construir uma chapa que se contraponha ao governismo e ao burocratismo a partir da defesa da democracia direta e da resistência como método de organização dos estudantes.

Tal chapa seria um grande avanço político para o movimento estudantil, pois travaria um debate político e programático sério e apresentaria uma perspectiva de luta para um setor amplo de estudantes. Para compô-la, acreditamos que o melhor método é discutirmos abertamente e encontrarmos, em primeiro lugar, aquilo que nos unifica, que nos é comum, para a partir disto forjar um programa. Os independentes e correntes que a compusessem, no entanto, teriam total liberdade para apresentar na campanha seus programas específicos para além do defendido pela chapa.

Companheiros, novos ventos sopram no país e no movimento estudantil da USP. Saibamos reconhecê-los para, a partir disso, construirmos a unidade que pode apresentar ao movimento estudantil da USP uma perspectiva séria de luta na próxima eleição para o DCE. É hora de aproveitar a maré e arrancar o movimento da apatia dos últimos anos.