! balanço de 2012 e perspectivas da nossa luta - território livre

balanço de 2012 e perspectivas da nossa luta

Balanço de 2012

Neste fim de 2012 precisamos parar e pensar; fazer um balanço do que representou politicamente o ano, para que disto tiremos perspectivas as mais corretas possíveis para 2013.

Iniciamos 2012 em greve, após a grande mobilização que estourou ao final de 2011. Nós, do Território Livre, realizamos junto ao Comando de Greve – onde nossa influência política era grande, pensamos, graças às propostas que defendemos – uma importante calourada, destoando e muito das realizadas pelos DCE’s nos anos anteriores. A calourada, em geral, é um momento em que se foge dos conflitos centrais da universidade; questões candentes são trocadas por temas abstratos e o estudante é recebido, quase sempre, de forma morna (o que já o desmotiva para a participação política).

Nós não fizemos isso; não aceitamos encobrir os conflitos. Junto com um grande setor de estudantes – de dentro e de fora do Comando de Greve – realizamos um show histórico para cerca de 7 mil pessoas, um show de combate, proibido até o último momento. Invadimos a USP com mais de 40 carros para garantir a entrada da cerveja (proibida pelo reitor Grandino Rodas) e garantimos a entrada do caminhão de som graças a muita pressão. Rodas recuou. No fim do dia se podia ver e ouvir Arrigo Barnabé e Isca de Polícia – fazendo um arco com a geração que, ao final da década de 70, foi contemporânea do ressurgimento do movimento estudantil. Por tudo isso, acreditamos, a manutenção da greve nas férias foi uma proposta muito acertada, apesar das fragilidades, pois estendeu aos calouros de 2012 da melhor forma possível a politização da luta ocorrida ao final de 2011.

Entretanto, como era de se esperar, o movimento refluiu – pois a política tem dinâmicas complexas, mas, sobretudo, porque o movimento não se vinculou a outros setores da sociedade, como a juventude secundarista ou a classe trabalhadora. A primeira assembleia do ano foi muito dividida quanto à manutenção ou não da greve. Saímos da greve por uma pequena margem de votos, mas, até pouco mais da metade do ano, a situação política na USP manteve-se particularmente instável. Naquela assembleia, os grupos políticos hoje representados no DCE defendiam que sairíamos da greve para construir, com paciência, uma grande mobilização.

A eleição para o DCE da USP, ocorrida em março de 2012 – acompanhada até pela grande mídia –, foi um ponto de virada na mobilização, pois representou o retorno dos grupos tradicionais do ME ao controle da situação política. Mesmo não estando em greve, a nossa posição, que julgamos correta, buscava fazer expressar nas urnas a luta política que ainda se dava contra o Rodas. A chapa que compúnhamos anteriormente – a “27 de Outubro”, da LERQI – sustentava (e contra isso argumentamos infinitas vezes) que nosso “inimigo” mais imediato era a burocracia do ME (sobretudo os grupos que hoje compõem a gestão do DCE), pois ela impedia uma luta maior contra Rodas e a PM. Consequentemente, recusavam-se a fazer qualquer chamado de unidade de luta com esses setores “burocráticos” do ME. Nós, pelo contrário, afirmávamos que nossos inimigos centrais eram a Polícia repressora e o reitor Rodas e, contra eles, poderíamos fazer unidade com qualquer setor político do movimento estudantil.

Além disso, os companheiros da “27 de Outubro” não entendiam que queríamos dialogar com um setor novo de estudantes, bastante amplo, que passou a participar do movimento estudantil após outubro e novembro de 2011 (quando “estourou” a greve), e que, por ser novo, ainda não havia passado por nenhuma experiência com as posições burocráticas do ME tradicional. Justamente por isso, tal setor não entendia as acusações e picuinhas dos grupos políticos – sobretudo diante da necessidade urgente de lutar por liberdade no campus.

Por todas essas divergências, nos retiramos da referida chapa e declaramos nosso apoio à “Não Vou Me Adaptar”. Esta era, no momento, a chapa mais apta a canalizar os votos desse amplo setor que entrou na luta e que tinha grande repulsa contra as políticas do Rodas. Defendemos o voto crítico nessa chapa, com o objetivo igualmente importante de esmagar aquela que representava as posições do Rodas no pleito, a chapa Reação. A própria eleição seria, assim, um golpe contra o Rodas, uma espécie de plebiscito sobre a legitimidade desse reitor na universidade. E isso se deu: a “Não Vou Me Adaptar” derrotou fragorosamente a “Reação” (6964 votos contra 2664), num dos quóruns mais altos numa eleição para o DCE desde a reabertura da entidade em 1976.

Poucos dias após a eleição, em texto público dirigido à chapa vencedora, afirmávamos: “A ‘Não Vou Me Adaptar’ só tem duas opções: ser consequente com seu discurso, ser consequente na luta contra o Rodas, ou, pelo contrário, pela via da conciliação, baixar o ânimo de luta dos estudantes e jogar fora esse novo e grande setor (4.000 estudantes) que se mostra disposto a lutar.” (do texto “Depois de esmagada a chapa do Rodas, que fazer?”)

E o que fez a chapa “Não Vou Me Adaptar”? Optou por jogar fora os quatro mil votos desse novo setor que entrou em luta! Basta ver o resultado das eleições para o DCE agora, ao final de 2012, quando novamente os mesmos grupos políticos compuseram a chapa “Não Vou Me Adaptar”: tiveram 2640 (quatro mil votos a menos que no começo do ano).

Ora, isso foi resultado da política rebaixada e conciliadora que realizaram durante 2012. Poucos meses depois da grande mobilização contra a polícia, os processos e o Reitor, o que fez a gestão “Não Vou Me Adaptar”? Um congresso – que, ainda que mais politizado que os anteriores, novamente produziu pouco mais que letra morta –, um “plebiscito pela democratização da USP” e um abaixo assinado! Esses são métodos extremamente insuficientes de participação política, similares aos da nossa democracia parlamentar, contra os quais o ME tece críticas há décadas. Sobretudo, esses métodos pouco estimulam a participação política dos estudantes.

Se contrastarmos esses métodos com as assembleias massivas de 2011, os atos de rua na USP e fora da USP, a diferença é gritante. Dificilmente se poderia imaginar uma gestão que tão facilmente se adaptou à normalidade e à rotina pequeno-burguesa da universidade. Ao adaptar-se, romperam com a construção de uma “grande mobilização”, promessa feita na primeira Assembleia Geral do ano, quando votaram pela saída da greve. Hoje assistimos, desarticulados, possíveis novos ataques, eliminações e processos, nestas férias.

Agora, ao final de 2012, os quatro mil novos estudantes que no início do ano votaram pela “Não Vou Me Adaptar” passaram por uma experiência – muito negativa – com essa gestão: tiveram seu ímpeto de luta frustrado. Chamamos os sobreviventes desse processo a somar forças com o TERRITÓRIO LIVRE, por um movimento estudantil vivo e não eleitoreiro.

Perspectivas para 2013

O campus Butantã – o maior e politicamente mais importante da USP nas mobilizações – passa por um momento de indefinição política, em que muita coisa pode mudar. A correlação de forças pode, no médio prazo, abrir espaço para posições mais progressistas ou mais reacionárias, a depender dos acontecimentos. Basta saber quem melhor ocupará o terreno.

Para clarificar isso, é preciso retomar rapidamente um elemento de balanço. Observemos o resultado deste último processo eleitoral, realizado em novembro de 2012. A chapa eleita – “Não Vou Me Adaptar” – perdeu a votação em grande parte dos cursos do campus Butantã, principalmente naqueles “carros-chefes” das principais mobilizações políticas. O interior – onde a politização historicamente é menor e as mobilizações, muitas vezes, menos dinâmicas – foi o bastião da sua supremacia nas urnas.

É curioso que a mobilização mais expressiva do interior em 2012, ao contrário do proposto pelo DCE e aprovado protocolarmente no congresso, se deu contra o avanço da repressão: os estudantes de São Carlos realizaram fortes atos em defesa da autonomia estudantil sobre seus espaços e contra as proibições de festas e da venda de bebidas alcoólicas.

Fica, assim, evidente uma situação de fragilidade política de direção no movimento; a gestão eleita se assemelha a um executivo com pouca legitimidade no parlamento para efetivar as suas políticas. Mas, como comentamos, isso não é à toa. Em grande parte, aqueles estudantes que haviam adentrado a mobilização e confiado seu voto à chapa “Não Vou Me Adaptar”, no início de 2012, migraram para outros grupos políticos, sobretudo no Butantã. (Nesse campus, alguns CAs foram agora eleitos com muitos independentes e em repúdio à burocracia do DCE, mas suas posições políticas ainda são muito indefinidas para fazermos uma caracterização). Ao menos quanto à eleição para o DCE, a chapa mais favorecida nos principais cursos do Butantã foi a “Universidade em Movimento”.

Mas isso tudo é um avanço ou um retrocesso para o ME uspiano? De certo ponto de vista, representa um repúdio aos métodos burocráticos e aparelhistas que alguns grupos da “Não Vou Me Adaptar” executam há anos no ME e poderia representar um avanço caso esse repúdio fosse canalizado numa via não burocrática. Mas em parte, como vemos, o movimento é canalizado pela “Universidade Em Movimento”, que sabe explorar bem esse descontentamento, com um discurso antiburocrático. Entretanto, no caso, a frase vai além do conteúdo. Como comentamos na eleição para o DCE sobre a “Universidade em Movimento”, “para além da aparência de renovação, suas posições visam uma maior simbiose das entidades estudantis com a burocracia universitária; focam-se na defesa dos órgãos colegiados e no fortalecimento dos conselhos de centros acadêmicos (CCA), porém, sem questionar seu atual distanciamento em relação aos estudantes”. Para esse grupo, políticas de cúpula são valorizadas em detrimento de espaços de democracia direta – como as assembleias, por exemplo. Além disso (e para piorar), algumas das suas posições políticas fazem coro a propostas apresentadas pelo governo federal – altamente repudiadas nas greves das universidades federais –, que apenas aprofundam o caráter mercadológico que tem, atualmente, a universidade.

Para nós, portanto, o fortalecimento da “Universidade em Movimento” significa, no fundo, um retrocesso ao ME uspiano, pois representa uma política ainda mais conservadora, que se sente confortável em adotar uma postura falsamente progressista em tempos de baixa mobilização. Sobre isso também alertamos, no texto público sobre a primeira vitória da “Não Vou Me Adaptar”, em março:

“Se optar por esfriar o ânimo dos estudantes, abrirá necessariamente o caminho pela direita e terá que colher os frutos disso amanhã (o que pode ser catastrófico a médio prazo para toda a esquerda)”. (do texto “Depois de esmagada a chapa do Rodas, que fazer?”).

Há, portanto, uma indefinição política na USP, sobretudo no Butantã, que vem sendo capitalizada pela “Universidade em Movimento”… Mas ainda há tempo e espaço para a construção de outra via, não burocrática. Sobretudo, julgamos, algumas lutas em 2013 podem ser fundamentais para definir a ocupação dos espaços políticos. São elas:

1. A luta contra a repressão.

É desnecessário relembrar que nenhum dos problemas contra os quais lutamos em 2011 está resolvido. Para piorar, além de termos que conviver com a polícia num ambiente acadêmico, multiplicaram-se os processos administrativos e policiais e cruzaremos o ano sob maior risco de expulsões de alunos. O cerco ainda está fechado na universidade. A atmosfera mantém-se tensa sobre entidades como o Sintusp (cuja diretoria está seriamente ameaçada), a Adusp, e diversas entidades estudantis cujos espaços estão em disputa. As festas tradicionais dos estudantes, como a Quinta i Breja, estão seriamente ameaçadas. Como sempre afirmamos, essa luta é muito importante também por conseguir fazer uma ponte com outros setores da sociedade, como a juventude das escolas e periferias – que neste momento sofrem graves ataques policiais – assim como com a classe trabalhadora, que tem sido reprimida nacionalmente em suas mobilizações políticas.

2. As lutas por questões particulares nas unidades

Algumas questões particulares em andamento representam sérios ataques a algumas unidades. Veja-se, por exemplo, o caso da Nova Eca ou a proposta de divisão da FFLCH. Ainda que sejam questões particulares, representam um só e mesmo processo: a submissão da universidade ao mercado. Se observarmos as outras unidades, certamente, em maior ou menor grau questões semelhantes serão encontradas. Trata-se de ataques graves à pouca liberdade – acadêmica, intelectual, cultural e política – que ainda temos… Querem transformar a USP num grande shopping-center, aos moldes de algumas universidades particulares bastante conhecidas.

3. A democratização da universidade.

As más línguas do ME dizem que o TERRITÓRIO LIVRE é contra a democratização da universidade. Já afirmamos milhares de vezes e afirmaremos mais uma que não somos contra isso, mas achamos que o eixo do movimento estudantil, neste momento, deve ser a luta contra a repressão, como foi ao final de 2011 (gerando grande politização). O argumento de que a luta pela “democratização” da USP é a pauta que mais poderia unificar o ME – inclusive unidades reconhecidamente afastadas do mesmo – tem sua contraparte no rebaixamento da mobilização, contentada com urnas e plebiscitos, sem efetiva politização. Além disso, atentamos sempre para a limitação dessa pauta. Se é evidente que eleições diretas para Reitor na USP seriam um avanço em relação ao que temos hoje, é também evidente que isso, apenas, não é suficiente para inverter os rumos que a universidade cada vez mais assume. Se compararmos com as diversas universidades federais que têm um processo democrático de eleição para reitor, essas ponderações colocadas ficam evidentes. Em suma: essa pauta não questiona centralmente nem ameaça necessariamente a submissão da universidade ao mercado. O caso recente da PUC-SP evidencia um outro caminho muito mais provável (e muito mais profícuo para erguer uma mobilização): ao invés de uma luta por maior “democratização”, é mais provável que uma grande mobilização estoure a partir da defesa contra um ataque à – já restritíssima – democracia uspiana, como seria o caso de uma tentativa de reeleição do Rodas.

Em 2013, lutaremos contra a repressão, contra os processos, perseguições e restrições de liberdade. Ao mesmo tempo, lutaremos contra os ataques do mercado à nossa já fragilizada universidade. Para isso, como temos afirmado, o movimento estudantil precisa sair do seu eixo, dos seus vícios, dos seus círculos viciosos que já provaram não ser capazes de engendrar nada novo. As atuais tentativas de reformar a universidade têm apenas reforçado seu processo de destruição e sua submissão ao mercado.

O estímulo, defendido pelo TERRITÓRIO LIVRE, à democracia direta e às organizações de base dos estudantes é, ao mesmo tempo, uma contraposição à já esgotada política de autoconstrução de alguns grupos políticos, bem como a contraparte que consideramos necessária às instâncias institucionais. A livre produção, as festas, festivais e atividades de politização/celebração são a imagem que contraporemos à atual universidade burocratizada, funcional e eficiente para o mercado (e para pouco mais que isso). Apenas contra esta sociedade a cada dia mais asfixiante e esta universidade cada vez mais apática comporemos um movimento, um campo de combate, capaz de mirar um horizonte vivo.