! BALANÇO DA GREVE DE 2016 NA USP - Território Livre

BALANÇO DA GREVE DE 2016 NA USP

AS VESTES POEIRENTAS DOS NOSSOS DIAS, CABE A TI, JUVENTUDE, SACUDI-LAS

Este balanço é um registro do processo de greve estudantil que se deu na USP no primeiro semestre de 2016, a partir das avaliações do Território Livre, e nos servirá de documento histórico para formação e análise posterior da luta.

ATAQUES DA REITORIA, APATIA DOS ESTUDANTES

A gestão do reitor Zago se caracterizou desde o seu início, em 2014, pelos maiores e mais violentos ataques contra trabalhadores e estudantes já vistos na USP. O processo de desmonte da universidade, com a precarização do trabalho e dos serviços, demissões, cortes de bolsas, fechamento ou terceirização dos bandejões, prefeitura do campus, creches e hospitais, congelamento de contratações, cortes de verbas etc, tem sido efetuado por Zago em proporções e rapidez inéditas.

É claro que Zago não fez tudo isso por qualquer questão pessoal ou de caráter – embora ele sem dúvida seja um canalha. Fez porque tinha que fazer: era sua função enquanto reitor da USP cortar gastos, demitir trabalhadores e precarizar o trabalho. Zago é um burocrata, um gestor do estado burguês, e é impossível entender a crise na USP de forma isolada, sem relacioná-la com a crise nacional e mundial. Milhares de trabalhadores e trabalhadoras são empregados pela universidade, e neste momento de recessão econômica é missão do reitor (seja ele quem for) repassar a crise para a conta deles. O rebaixamento das condições de vida dos trabalhadores da USP é o fundamento do desmonte, Zago é apenas seu agente.

Para ter condições de impor todas estas medidas, o reitor foi obrigado, ao mesmo tempo, a minar qualquer tipo de resistência a elas, aumentando de forma assustadora a repressão dentro da universidade, levando-a a níveis muito mais dramáticos que seu próprio antecessor Rodas, amplamente conhecido por sua intransigência e autoritarismo. Assim, Zago concluiu a militarização do campus iniciada por Rodas, formalizou a espionagem das atividades dos trabalhadores e estudantes (através dos policiais infiltrados do Koban), colocou grades e câmeras onde foi possível, cerceou o financiamento e a organização estudantil (através da repressão às festas e dos ataques aos espaços autônomos), instaurou processos a rodo contra trabalhadores e estudantes e chegou ao descaramento de tentar despejar o Sintusp de sua sede no campus, onde o sindicato está instalado desde os tempos da ditadura.

Estes ataques, no entanto, não vieram de uma vez, mas esparsos e constantes, desde 2014 até agora. O movimento estudantil da USP, por sua vez, se viu, desde a derrota da greve de 2013, mergulhado em melancólico refluxo, desarticulado, assistindo a cada uma destas medidas passivo e impotente, incapaz de dar respostas aos ataques e se enfrentar com a reitoria, que, assim, avançou galopante no desmonte e no aumento da repressão. Este ano, porém, após dois anos de violentos ataques “a conta-gotas”, o copo transbordou: os estudantes despertaram da apatia e, mostrando disposição renovada, se levantaram para lutar contra a reitoria!

ERGUER A LUTA DEFENSIVA: CONTRA O DESMONTE E A REPRESSÃO

Para nós do Território Livre, a tarefa fundamental desta greve, desde o momento em que ela começou a se desenhar nas unidades, era esta: rearticular o movimento estudantil da USP, rearmar os estudantes para os enormes combates que viriam dali em diante. Reorganizar o movimento em suas bases, despertar uma nova geração de lutadores corajosos e apaixonados, capazes de efetivar toda a potência e a força da maioria organizada dentro da universidade, tal era o maior saldo que este processo poderia ter. Os agrupamentos da esquerda que estão à frente do ME uspiano há incontáveis anos, por sua vez, tinham uma perspectiva diferente, como veremos.

No dia 5 de maio, então, os trabalhadores e trabalhadoras da USP foram a ponta-de-lança do movimento. Em meio a sérias ameaças à sede do seu sindicato, o Sintusp, deflagraram por consenso a greve, para começar dali a uma semana, principalmente pelo reajuste salarial, contra a precarização do trabalho, a repressão à organização sindical (em defesa de sua sede) e o desmonte em suas várias facetas.

Logo em seguida os estudantes de Letras iniciaram a primeira ocupação de unidade: em assembleia no dia 11, aprovaram greve e decidiram ocupar o próprio prédio onde cotidianamente acontecem as aulas e atividades acadêmicas, sobretudo pela contratação de professores para o curso. O espectro da greve, que rondava incerto pela universidade, começava a tomar concretude. No dia seguinte, 12 de maio, uma assembleia geral com mais de mil estudantes dos mais variados cursos, com ECA, Enfermagem, Letras e Pedagogia já paradas, deflagrou a greve geral estudantil. A partir dali o movimento se ampliaria, vendo diversos cursos, com tradição de mobilização ou não, parando as atividades e colocando em prática métodos radicais de luta (piquetes, ocupações e trancaços).

O TL reivindica a luta defensiva, isto é, a luta que parte da defesa das condições existentes de trabalho ou de estudo contra algum tipo de ataque que pretende piorá-las (por exemplo a luta dos trabalhadores contra as demissões ou a luta dos estudantes contra o corte de bolsas). Esta luta, que consiste em defender o pouco que ainda se tem, em barrar os ataques em vez de propor melhorias e reformas da condição atual, é a única realmente capaz de mobilizar grandes massas de estudantes, pois parte do que é mais sensível a cada um deles, a defesa daquilo que já existe e que eles conhecem e compreendem muito bem, ao contrário das pautas propositivas (que propõem melhorias futuras abstratas e pouco sensíveis, como “mais verbas para a educação” ou “democratização da universidade”).

Na verdade, a luta defensiva, ao mobilizar os estudantes a partir do que é mais mínimo e sensível a todos, engendra uma organização que permite, a partir de certo ponto, passar à ofensiva: lutando para defender suas condições atuais de estudo na universidade, as massas de estudantes se articulam, constroem mecanismos de luta e, ao organizarem suas próprias forças para se defender, erguem um poder estudantil capaz de se contrapor ao poder da burocracia – podem, então, junto aos trabalhadores, não apenas exigir, mas criar eles próprios as condições para que uma nova universidade seja construída.

Nós avaliamos, então, que o movimento deveria se pautar pelos eixos 1. Contra o desmonte e 2. Contra a repressão, por entender que estes dois eixos teriam a potência de agrupar cada uma das reivindicações defensivas particulares das unidades, articulando, assim, um movimento geral e unificado a partir das pautas locais diretamente sensíveis aos estudantes de cada curso.

Assim, as lutas por contratação de professores na Letras, contra a desvinculação do HU nos cursos de saúde e por permanência no Crusp, por exemplo, embora específicas de cada local, poderiam e deveriam se unificar em uma luta geral pautada contra o desmonte da universidade (em geral). Da mesma forma, a luta contra os processos e sindicâncias em algumas unidades, bem como em defesa dos espaços estudantis e contra a polícia no campus deveria se unificar em uma luta geral contra a repressão.

Seria possível, desta forma, erguer um movimento de fato geral, que centralizasse e refletisse as forças dos estudantes dispersos em seus cursos – mais que isso, seria possível se aliar efetivamente com os trabalhadores, cujas principais pautas de greve consistiam justamente na luta contra o desmonte e a repressão.

Nesta primeira assembleia de greve, entretanto, em conformidade com as propostas das correntes que compõem a gestão do DCE (PSOL e PCB) e do então PSTU, o eixo aprovado foi o propositivo “Por cotas, permanência e contratações”, o que excluía por completo pautas que mobilizaram cursos inteiros sem histórico de luta, como a desvinculação do HU. Nem mesmo a luta contra a repressão, que teve tanta importância na mobilização de diversas unidades, foi aprovada, tendo inclusive estas correntes defendido contra a sua incorporação (este eixo seria incorporado na assembleia geral seguinte, por pressão de diversos cursos que o aprovaram em suas assembleias de base). A atuação dos diversos grupos de esquerda do ME nesta assembleia expressou já uma postura que se manteria e se aprofundaria até o fim da greve.

OCUPA TUDO!

Na semana seguinte outros cursos aderiram à greve. A ECA, com todos os seus 11 cursos em greve, se reuniu na maior assembleia do ano no dia 18 e decidiu ocupar o prédio central (onde funciona a diretoria e toda a burocracia da unidade) contra o desmonte e a repressão, por cotas e por contratações. Era a primeira vez que a administração da unidade era ocupada. No mesmo dia, os estudantes de História e de Geografia iniciaram a ocupação de seu prédio – mas, por se tratar de um prédio aberto, só puderam ser ocupadas as salas de aula e áreas comuns, sem afetar o funcionamento da burocracia.

Mesmo com o movimento em ascenso quantitativo, as duas primeiras semanas de greve não tiveram qualquer avanço no sentido da construção do movimento geral. Diante do feriado prolongado que aguardava no fim do mês, os estudantes em greve se enclausuraram em atividades em seus próprios cursos, e nenhuma ação de rua relevante aconteceria até a primeira semana de junho – embora os trabalhadores estivessem, desde o início da greve, procurando construir atos e passeatas unificadas.

Esta relativa paralisia no início do movimento pode ter nos custado um tempo precioso para articular os cursos em ações comuns e construir uma greve efetivamente geral, unificada, do conjunto dos estudantes e também dos trabalhadores. O que começou a se desenhar, no tocante às categorias, foram duas greves absolutamente apartadas e com pouco ou nada em comum (e a greve estudantil se fragmentaria mesmo internamente).

De todo modo, para alavancar o movimento – e no espírito de reconstruir, nas bases dos cursos de toda a USP, uma cultura de mobilização e organização independentes – o TL apostou no alastramento das ocupações de unidades pelo campus. Na assembleia geral de 2 de junho, logo após a volta do feriado, nós distribuímos um panfleto chamando os estudantes a ocuparem suas unidades. Nele, dizíamos:

“As ocupações rompem o cotidiano apático e cinzento (e cada vez pior!) da universidade e criam um centro vivo de discussão e articulação estudantil. Elas são mais do que um simples método de pressão às diretorias para conquistarmos nossas pautas. Exercendo nossa resistência e ocupando nossos espaços, fazemos política com mais rapidez e eficácia que lendo uma série de cartilhas emboloradas. […] Com as ocupações uma nova geração de lutadores é forjada dentro de cada curso mobilizado.
[…] Para que as ocupações atuais não se isolem, para que o movimento cresça e fortaleça sua unidade com os trabalhadores, para resistirmos ao poder da burocracia, é preciso ocupar! Mais ocupações significa construirmos, na prática, a universidade que queremos, não-burocrática, aberta e tomada pela juventude e pelos trabalhadores. Mais ocupações significam mais centros de luta, que atraem mais estudantes e dão mais força à nossa greve.”

Esperávamos, de fato, que as primeiras ocupações fossem a faísca que faria o fogo se espalhar por outros cantos da USP – o que não veio a acontecer. Na verdade, o método da ocupação estava amplamente em voga em todos os cursos. A questão a ser resolvida era: onde ocupar?

Nesta assembleia apareceu pela primeira vez a proposta de ocupação dos blocos K e L do Crusp. O TL, a partir de uma avaliação tática do movimento, se posicionou contra esta ocupação. É evidente que não somos contra a ocupação do K e L por princípio – pelo contrário, construímos fortemente a ocupação deste prédio em 2013, quando ele era ainda parte da reitoria, e inclusive defendemos na época, quando havia condições para isso, sua retransformação imediata, pelo próprio movimento, em moradia.

Naquele momento, no entanto, aprovar aquela ocupação não teria nenhum saldo para o movimento: tratava-se de uma assembleia vazia demais para executar uma ocupação central (que portanto sequer ocorreria de fato, seria uma deliberação formal); ocupar o K e L não exerceria nenhuma pressão sobre a reitoria (e portanto não criaria uma correlação de forças mais favorável ao movimento) e não havia condições de transformá-lo imediatamente em moradia de forma segura (já que as férias estavam próximas e ele não seria totalmente ocupado por moradores a tempo, podendo ficar vazio e perigosamente frágil neste período).

Além disso, para nós era central naquele momento fortalecer o movimento em suas bases, e uma ocupação de unidade, como as experiências da ECA e da FFLCH nos mostravam, fundava um forte pólo de articulação e produção, com uma enorme capacidade de atrair e organizar um grande número de estudantes. Mantivemos, por isso, a linha de multiplicar as ocupações locais. A proposta de ocupação do K e L foi rechaçada pela assembleia, mas com uma quantidade bastante expressiva de votos favoráveis.

No dia seguinte à assembleia geral (03/06), uma sexta-feira, aconteceu a primeira ação unificada com os trabalhadores que teve relevância, um trancaço do P1 com passeata até o cruzamento da Vital Brasil com diversas outras avenidas (Fco. Morato, Eusébio Matoso etc). Na semana seguinte, com a ameaça de corte de salários dos trabalhadores começando a se efetivar, uma ação ainda mais radical: um trancaço unificado de todos os portões da universidade!

Estes dois atos unificados, e sobretudo o segundo, apontaram de forma inequívoca o caminho: era preciso unificar! Em meio a um movimento fragmentado e confuso, foi quando estivemos lutando nas ruas, juntos, ombro a ombro com os trabalhadores, que pudemos sentir de fato toda a nossa força. No trancaço dos três portões, centenas de estudantes das mais diversas unidades mobilizadas, da Enfermagem à Física, do IME à FFLCH, da ECA à Geociências, se encontraram, uniram suas forças e lutaram juntos, como uma poderosa multidão organizada.

Por mais de sete horas a PM deixou de ser senhora do campus, a Universidade de São Paulo não foi o reino de Zago e seus burocratas, mas foi controlada e comandada pela maioria que nela trabalha e produz! Esta articulação de milhares de estudantes e trabalhadores em greve, esta força organizada e não mais fragmentada, é o que faz os burocratas tremerem, é o que poderia nos dar condições de subjugar Zago e barrar o desmonte. Dali pra frente, no entanto, o movimento se estagnaria e se retrairia, recuando com o rabo entre as pernas a cada ataque brutal da reitoria, que soube identificar as fragilidades e divisões internas do movimento e aproveita-las para liquida-lo. Aquele trancaço foi, por isso, o ápice da greve geral.

A MISÉRIA POLÍTICA E PROGRAMÁTICA DO ME USPIANO

Desde o início da greve estudantil alguns setores do movimento (PSOL e PCB, bem como o então PSTU) colocavam a necessidade de esta ser uma “greve de resultados”. Para eles, a tarefa central desta greve não era reorganizar e reconstruir o ME nas bases, dando condições aos estudantes de enfrentar a reitoria neste e nos próximos combates, e, ao lado dos trabalhadores, barrar o desmonte da USP e os ataques que virão no futuro próximo.

Para eles, a maior tarefa da greve era conquistar “vitórias concretas”, isto é, qualquer coisa que eles pudessem apresentar aos estudantes como vitórias, para supostamente aumentar a autoconfiança do movimento. Assim, desde a primeira assembleia estas direções atuaram no sentido de afastar o movimento de uma perspectiva séria de barrar o desmonte pela luta conjunta com os trabalhadores. De forma irresponsável e inconsequente, estes grupos centraram fogo no pedido de abertura de negociação pelas pautas menos estruturais ao desmonte, como as cotas ou pequenas melhorias neste ou naquele departamento.

Estas pautas poderiam ser mais facilmente cedidas pela burocracia – é sabido que, dentre as reivindicações centrais do movimento, a implementação de cotas é a única que o reitor poderia ter atendido sem recuar um centímetro nos cortes do orçamento (e portanto no desmonte) que está promovendo. Na verdade, essa voracidade por “vitórias concretas” visa tão-somente a moralizar e autoconstruir estes grupos políticos.

Isso fica explícito por exemplo quando, em detrimento das demais pautas comuns a todo o movimento (inclusive dos trabalhadores), a gestão do DCE levanta quase exclusivamente “abertura de negociações e cotas já!”. Esta posição, colocada desde o início da greve, sinalizava um recuo à menor menção da reitoria em ceder um pouco na democratização do acesso à USP. Isso é uma herança do sindicalismo petista, cujo horizonte máximo é a conciliação de interesses de exploradores e explorados e que, posto que esta conciliação é impossível, apresenta as migalhas dadas pelos poderosos para conter a revolta como grandes vitórias.

Os grupos políticos à frente do ME, parodiando o programa do PT, se baseiam em cartilhas mágicas, com fórmulas prontas e promessas da universidade perfeita do futuro, cartilhas nas quais a conjuntura pode ser abstraída. Assim, não importaria a destruição sem resistência da universidade, o sucateamento dos serviços prestados à população, o corte de bolsas e permanência, o arrocho salarial e a demissão de centenas de trabalhadores. Bastaria que o movimento tivesse em mãos qualquer pequena conquista para “moralizar-se” – e às suas direções.”

Os companheiros partem de um pressuposto falso de que é possível melhorar a universidade por meio de reformas e mudanças parciais. Mas a crise que assola a universidade é, na verdade, apenas parte da crise de toda a sociedade burguesa. A construção do PT desviou por décadas as energias da juventude e dos trabalhadores para dentro dos limites da própria sociedade burguesa, para o parlamento, para as reformas, para a conciliação com os patrões e, por fim, para o próprio governo burguês. Essa lógica reformista serviu e ainda serve para desarmar a juventude e a classe trabalhadora, neutralizar sua resistência e bloquear seu potencial revolucionário.

Ora, estamos diante dos mais avassaladores ataques já vistos na USP. Zago e seus habilidosos burocratas já mostraram absoluta determinação em aplicar todos os cortes na universidade que lhes forem designados, e a esmagar com mãos de ferro todos os obstáculos que lhes forem postos no caminho. Trata-se de um inimigo implacável, como os estudantes e trabalhadores já tiveram diversas ocasiões de experimentar no último período.

Contra uma força de destruição da universidade de tamanha magnitude, apenas um movimento amplo, unificado e radical poderia ser capaz de resistir. A única perspectiva possível de vitória real para esta greve era esta: conseguir articular um movimento amplo, em unidade total de todos os estudantes com os trabalhadores, que oporia ao poder da burocracia um poder paralelo, da maioria organizada da universidade, e poderia, talvez, ter força o suficiente para subjugar o poder oficial, derrotar Zago e barrar o desmonte de conjunto – e, neste processo, conquistar inclusive as cotas e demais demandas parciais.

O centro da disputa entre a burocracia parasitária de um lado e a maioria de trabalhadores e estudantes do outro está nos recursos da universidade. Quaisquer conquistas reais do movimento, ainda que parciais, seriam necessariamente produtos desta resistência fundamental contra a burocracia – isto é, contra o arrocho salarial, contra os cortes, contra a precarização etc. Ao distanciar-se desta perspectiva e essencializar uma ou outra reivindicação parcial, ao reivindicá-las separadamente das pautas mais estruturais, o movimento se faz refém das manobras da burocracia, como ocorreu posteriormente com a implementação de “cotas” pelo Sisu.

O desafio colocado ao movimento, desde o seu início, era imenso. Por isso mesmo, havia pouco espaço para erros. Acima de tudo, uma greve com tão difíceis tarefas, sofrendo tanta repressão e pressionada pela proximidade das férias estudantis não podia se permitir se isolar dos trabalhadores, se fragmentar e ainda ter condições de ser bem sucedida. Unificar – nas ações práticas e não apenas no discurso – era questão de vida ou morte para o movimento! As direções majoritárias do ME, todavia, se recusaram a abandonar sua falida e embolorada lógica de atuação e encarar os problemas de frente, reforçando a divisão e desarmando os estudantes.

A ESQUERDA COLHE O QUE PLANTOU: A DIVISÃO DO MOVIMENTO E SEU DISTANCIAMENTO DOS TRABALHADORES

A atuação destes grupos da esquerda, portanto, permitiu que se criasse uma cisão cada vez maior entre a luta por cotas e a resistência conjunta contra o desmonte e a repressão. Abriu espaço, assim, para que um setor que há alguns anos atua no movimento estudantil da USP, os anarco-petistas, pudessem aprofundar o divisionismo do movimento, travá-lo e enfraquecê-lo. Este setor, que procura se diluir no grupo que se autointitula autonomista, atua em diferentes locais e movimentos na USP, como o movimento negro e o movimento por moradia, mas não representa a totalidade deles.

Na verdade, enquanto procuram mostrar uma roupagem nova e radical, eles são os herdeiros mais legítimos do velho programa petista (embora neguem vínculos com o PT ou qualquer organização), e o estão levando às últimas consequências.

Assim, na semana após a assembleia geral de 02/06, em que a proposta de ocupação do K e L foi derrotada, soubemos da intenção deste setor de propor novamente a ocupação do prédio na assembleia seguinte, e de conduzi-la independentemente do resultado da deliberação.

A assembleia estava marcada para o dia 16, mesmo dia em que aconteceria uma reunião do Conselho de Graduação (CoG) que discutiria o acesso à universidade. O movimento negro da universidade realizou uma aula pública em frente à reitoria durante a reunião e, após ser impedido de enviar uma comitiva para colocar cotas na pauta, conduziu corretamente uma ocupação do prédio da reitoria para implodir a reunião. Após esta implosão (e já dentro do palácio-bunker do reitor!), no entanto, o movimento decidiu sair do prédio e se concentrar no estacionamento, para onde deveria ser transferida a assembleia geral, o que nós consideramos um equívoco. Uma vez abandonado o saguão da reitoria, esta foi sitiada por dezenas de PMs, praticamente inviabilizando uma reocupação.

Durante esta assembleia (que foi monitorada e intimidada pela polícia do início ao fim, que inclusive colocou ela própria um teto para encerrar a reunião) nós do TL distribuímos um outro panfleto, em que dizíamos:

“A greve estudantil na USP continua avançando em muitos cursos mobilizados, mas o risco de estagnação já está colocado. O movimento se vê diante de um impasse: ou radicaliza e coloca a reitoria contra a parede, ou tende a retroceder, isolado e pressionado pelas férias.
Os burocratas, sabendo do impasse do movimento, aumentam a repressão contra os trabalhadores, ameaçando-os com o corte de ponto. O desconto dos dias parados é uma grave violação do direito de greve, cuja violência é inestimável para aqueles que dependem dos salários para sustentar a si e à sua família. Sem os trabalhadores na greve, os estudantes não conseguirão alavancar sozinhos a luta contra o desmonte da universidade, que atinge em cheio as condições de vida dos funcionários (arrocho salarial, perda de direitos e demissões).
[…] Nesta semana, é preciso construir com toda força os piquetes, trancaços e demais ações conjuntas com os trabalhadores, compreendendo que uma luta unificada é a única que pode dar sobrevida à nossa greve. Se os trabalhadores forem derrotados, perderemos um pólo fundamental de resistência aos ataques da reitoria. Se nos mantivermos segregados, não há pauta estudantil, por mais “concreta” que seja, que impeça a rápida destruição da universidade.”

As ocupações de unidades não tinham se alastrado, como esperávamos, e percebemos a partir da experiência das ocupações existentes que ocupar os departamentos/salas de aula, ainda que inegavelmente crie um pólo importante de articulação da luta, não exerce qualquer pressão sobre a burocracia (a ocupação da ECA, por ter impedido o funcionamento da administração, foi a única que exerceu essa pressão, conseguindo uma rápida abertura de negociações). Por isso, propusemos também neste panfleto a ocupação das diretorias das unidades, ou da própria reitoria se fosse possível. Corríamos contra o tempo, e era preciso prejudicar o máximo possível o funcionamento da burocracia para impulsionar o movimento.

Na assembleia duas propostas de ocupação foram feitas: a do K e L, novamente, e a da reitoria. O TL, mais uma vez, foi contra a ocupação do K e L: se duas semanas antes esta ocupação não avançaria o movimento por não pressionar a reitoria, agora, a duas semanas das férias, seria uma sentença de morte ao movimento centrar nossas forças em uma ocupação que não colocasse o reitor na parede. A greve estava na encruzilhada, não podíamos vacilar.

Neste sentido, afirmamos a necessidade de concentramos nossas forças em ações unificadas e radicais, que obrigassem Zago a recuar em suas medidas repressivas (sobretudo o corte de ponto) e dessem condições ao movimento de tentar se colocar novamente de pé, e defendemos a ocupação da reitoria (cientes da indisposição da maioria do plenário para com esta proposta).

Embora a ocupação estivesse militarmente inviabilizada, o movimento estudantil não podia admitir o cerco policial que se formara. Era absolutamente inaceitável que a polícia ditasse as regras do que os estudantes fariam sem nenhuma resistência da nossa parte. Deliberar pela saída da reitoria naquele momento era decretar a rendição do movimento, e admitir o domínio policial sobre a USP.

A ocupação da reitoria ou ao menos a resistência à repressão policial sobre o movimento unificado era nossa última chance de alterar a correlação de forças naquele momento de fragilidade. Manter-se nas dependências da reitoria e votar pela ocupação do prédio, ainda que como uma demarcação de posição política, era a única ação que nos restara diante da absoluta impotência em que o movimento foi lançado pelas ações irresponsáveis de suas direções.

Os anarco-petistas, a gestão do DCE (PSOL e PCB) e o então PSTU defenderam contra a ocupação da reitoria na assembleia. E como esperado, tal proposta foi rechaçada na votação, assim como a proposta de ocupação do K e L – mas desta vez com uma pequena diferença de votos. Procuramos apontar ainda algum caminho ao movimento, propondo o piquete total do prédio da reitoria a partir do dia seguinte, mas esta proposta sequer foi encaminhada, já que a assembleia foi encerrada pela polícia.

Em seguida à dispersão confusa da assembleia, os anarco-petistas, seguidos por algumas dezenas de estudantes, se encaminharam ao K e L, anunciando que ocupariam o prédio à revelia da decisão da assembleia. Ora, os mesmos que minutos antes haviam argumentado contra a ocupação da reitoria pelo risco de repressão policial saíam agora para enfrentar sozinhos a PM numa tentativa aventureira de ocupação do K e L.

Isso deixa evidente que as posições colocadas na assembleia não tinham uma dimensão meramente prática (se era viável ou não ocupar este ou aquele prédio) mas expressavam conteúdos políticos distintos. A defesa de cada uma das ocupações representava perspectivas diferentes: de um lado a defesa da resistência unificada e em apoio aos trabalhadores com a ocupação do centro do poder da universidade, de outro a divisão do movimento para responder apenas à demanda de moradia estudantil.

Esta ação teria graves consequências ao movimento dos estudantes e dos trabalhadores (embora não possa, de nenhuma maneira, ser considerada responsável pela derrota do movimento). O campus foi completamente tomado pelo choque e pela força tática, a ocupação não apenas não aconteceu como dezenas de lutadores foram brutalmente reprimidos, perseguidos e agredidos pela PM; de um lado, as viaturas perseguiram estudantes que fugiram para a prainha da ECA, onde acontecia a quinta i breja, jogando bombas na festa e prendendo três companheiros; do outro, os vermes invadiram o Crusp, preenchendo os corredores de gás de pimenta, entrando em alguns dos blocos, transformando as casas de centenas de pessoas, inclusive crianças, em campos de tortura.

No dia seguinte, e ao longo de todo o fim de semana, viaturas da tática rondaram, pelas calçadas e sem nenhuma cerimônia, a sede do Sintusp e os entornos da ocupação da ECA, que ficavam assim expostos a uma repressão que poderia acontecer a qualquer momento. Cinco estudantes passaram a madrugada na delegacia.

Esta ação, isolada do conjunto do movimento – ainda mais grave: contra a própria decisão do conjunto do movimento! – sepultou definitivamente a greve estudantil. Um movimento fragmentado, sem direção, reprimido de todos os lados e, por fim, massacrado pela polícia, não tinha mais condições de erguer a cabeça, nem mesmo para responder à absurda repressão daquela noite. Um ato contra a repressão até foi convocado para a segunda-feira seguinte, mas sequer aconteceu. Os estudantes não mais se sensibilizariam com um movimento que desde o início virara as costas à sua disposição de lutar. A confiança das bases dos estudantes nas direções do movimento se esgotara. Daquela noite até o fim da greve o movimento geral se manteria quase – e o estudantil absolutamente – paralisado, assistindo à sua própria destruição.

A AUTONOMIZAÇÃO DA REIVINDICAÇÃO POR COTAS E O DIVISIONISMO DO MOVIMENTO

Nós estamos certos que as dezenas de estudantes que participaram da tentativa de ocupação do K e L o fizeram com intenções honestas e legítimas, mas não podemos por isso nos furtar a fazer a crítica política desta ação, e sobretudo do grupo que a liderou. Acreditamos que o grupo que estamos designando de anarco-petistas tinha total consciência das consequências catastróficas para a greve de estudantes e trabalhadores da tentativa de ocupação por fora da assembleia, e sua intenção era precisamente enfraquecer o movimento e, sobretudo, enfraquecer a esquerda que faz oposição ao PT na USP.

Muitos dos autonomistas e demais lutadores que participaram da tentativa de ocupação são companheiros firmes e honestos, com um sentimento legítimo de rechaço ao burocratismo das direções do ME – que nós compartilhamos. Tal ação, no entanto, foi inconsequente e irresponsável com o movimento. Escancarou a divisão e fragilidade do movimento e deu a Zago a justificativa que ele queria para destruir de vez a resistência (com a repressão e vigilância policial, o mantenimento do corte de ponto, o aumento da multa contra o Sintusp, tudo isso justificado em e-mail da própria reitoria pela ação realizada contra a decisão da assembleia).

O saldo desta ação foi, enfim, o enfraquecimento e impotência do movimento. Na verdade, ela só coroou diversas ações e atitudes assumidas pelos anarco-petistas, durante toda a greve, no sentido de dividir e desarmar os estudantes. Ao longo da greve, eles se apoiaram sobretudo na autonomização da pauta de cotas para dividir o movimento e afastá-lo dos trabalhadores.

Apoiado em uma retórica politicamente frágil, mas blindando-se das críticas por meio de ataques e insultos morais, este setor buscou todo o tempo separar a reivindicação democrática por cotas da luta pelas demais reivindicações comuns a todo movimento. Para eles, não importava a situação da greve estudantil, não importavam as forças em jogo, não importava para onde caminhava o movimento unificado, não importava sequer a democracia direta, a decisão da maioria em assembleia. Importava apenas a luta por cotas, embora também não importasse como realmente conquistá-las!

Assim, em vez de fomentar a unidade entre as categorias em greve, atacaram os fóruns unificados e democráticos do movimento, atacaram o próprio movimento, promoveram ações isoladas que não apenas dividiram os estudantes, mas também fragilizaram e enfraqueceram a greve dos trabalhadores. Atuaram, na prática, para fragmentar o movimento e enfraquecê-lo.

Os grupos políticos da esquerda compreendiam isso perfeitamente bem, mas se viam reféns desse setor, pois temiam ser atacados pelos seus insultos de cunho moral e populista (os quais por diversas vezes militantes do Território Livre e outros estudantes sofreram ao longo da greve), cuja base ideológica esses mesmos grupos reforçaram por anos, ficando nesse momento paralisados. Assistiram então, acovardados, os anarco-petistas levarem a cisão do movimento até o seu limite, abandonando-o impotente.

Não se trata aqui, evidentemente, de negar a justeza da pauta de cotas raciais. Trata-se de não se esconder atrás de uma cartilha politicamente correta e fechar os olhos para a política real. Trata-se, antes de tudo, de não se abster do debate político e das críticas políticas necessárias para ajudar o movimento a avançar. É este o nosso espírito com a publicação deste balanço, e foi este nosso espírito com a distribuição do nosso último panfleto da greve, onde criticamos este setor e que nos rendeu uma nota de repúdio do coletivo “Por que a USP não tem Cotas?”.

Como já expusemos na nossa resposta a esta nota, o TL considera o racismo um problema grave no Brasil, que precisa ser resolvido urgentemente. Além disso, considera que o protagonismo na luta revolucionária futura em nosso país será sobretudo dos negros, que compõem os setores mais explorados da classe trabalhadora. Para nós, a questão racial está intrinsecamente ligada à questão de classe.

A sociedade vive hoje um processo de decadência em direção à barbárie, ela amplia necessariamente o racismo, a violência de classe, a opressão, etc. A burguesia e seu Estado avançam sobre as condições de vida da classe trabalhadora e aumentam a repressão. Isso é bastante claro para os setores mais oprimidos. Dia após dia, além de mais pobre e explorada, a população negra bate recorde de mortes na mão do Estado.

O fim do racismo é uma das tarefas democráticas que a burguesia não conseguiu resolver historicamente em nosso país (e no mundo todo). Reconhecer que o problema democrático existe e precisa ser resolvido não significa que temos de resolvê-lo necessariamente por reformas. Todos os problemas democráticos, não resolvidos historicamente pela burguesia, só podem ser resolvidos efetivamente pela classe trabalhadora, após uma revolução, e não dentro da sociedade capitalista por meio de reformas.

Nenhuma reforma pode conter essa decadência, pois não tem a menor força para se contrapor a um processo histórico objetivo dessa magnitude. Somente uma revolução (ou seja, a luta pelo controle dos meios de produção) pode dar condições para resolver o problema. Em pouco tempo de revolução tais questões avançam muito mais rapidamente, e de forma mais consistente, do que em uma década de supostas reformas. A história do PT está aí para comprová-lo. Os dados sobre racismo aumentaram no Brasil nos últimos anos, e acentuadamente no último período, quando a crise capitalista se aprofundou, destruindo de forma avassaladora empregos e salários.

Assim, paradoxalmente, quanto mais a esquerda se focar apenas em lutas por reformas (e principalmente reformas no Estado burguês, como é o caso da universidade), mais a esquerda contribuirá para aprofundar esses problemas que ela tanto critica. Se distante de uma perspectiva de classe, as lutas democráticas podem servir para o aumento da miséria e da barbárie e o consequente fortalecimento de todos os tipos de opressões. É significativo que as lutas democráticas das mulheres, dos negros e dos LGBTs, tomadas de forma isolada e “autonomizadas” – isto é, separadas da resistência da classe trabalhadora contra a exploração capitalista -, tenham se disseminado no ME nos anos de crescimento do PT, atestando que a esquerda ainda não conseguiu superar sua gênese petista.

Nosso programa é centrado na resistência a esse processo de decadência e aumento da exploração e da opressão. A defesa das condições de vida, de trabalho, do salário e do emprego, junto com a resistência ao aumento da repressão nos são centrais para organizar os trabalhadores e a juventude e para erguer o poder da maioria contra o poder oficial do Estado burguês, dos patrões e da Reitoria. Assim podemos construir na resistência, luta após luta, as bases do poder popular.

Ainda assim, nós não iremos nunca impor nossa leitura do problema ao ME da USP ou a qualquer outro movimento. Se há um movimento por cotas, nós apoiaremos criticamente, e ajudaremos o movimento a radicalizar ao máximo possível nos seus métodos (sempre respeitando, é claro, os fóruns gerais do movimento), pois assim, levando o embate com a reitoria a seu limite, de forma mais rápida os próprios estudantes poderão tirar as suas próprias conclusões a respeito dos limites dessa pauta e das táticas mais apropriadas para reivindicá-la. Foi assim que fizemos com a luta por cotas no ME da USP em 2015 e em 2016. Em nenhum momento votamos contra essa pauta ou defendemos que ela não fosse incluída na luta, apenas fizemos nossas críticas às suas limitações.

O que combatemos, e continuaremos a combater, é a separação oportunista da reivindicação por cotas do restante das pautas do movimento, são aqueles que utilizam a pauta de cotas para dividir e desarmar o movimento. Ora, a que serve separar a luta por cotas da luta geral? Apenas ao enfraquecimento da luta em seu conjunto.

É gravíssimo que o divisionismo do movimento estudantil tenha fragilizado e abandonado à própria sorte a greve dos trabalhadores, que tenha deixado uma avenida aberta ao avanço do desmonte (que agora, é certo, galopará com ainda maior violência e rapidez) e nos impedido de dar resposta à repressão crescente. Mas a mais educativa das suas consequências é que a autonomização da demanda por cotas em relação ao movimento geral tenha nos impedido de conquistar, inclusive, cotas. Fomentar esta separação, agora fica claro, só serviu para bloquear o potencial enorme do movimento e torná-lo impotente.

A assembleia da semana seguinte à repressão brutal (22/06) atestou que a greve geral estudantil estava morta, e não tinha nenhuma intenção de lutar por uma sobrevida. Nos restava talvez reunir a quase inexistente força remanescente para ajudar a reverter o corte de ponto e começar a tirar do processo suas lições, e nosso panfleto começava já a fazer um balanço do movimento.

Algumas dezenas de estudantes, em sua maior parte militantes das correntes que atuam no ME, assistiram alguns de seus colegas se sucedendo no microfone repetindo, um após o outro, a gravidade da repressão policial e do corte de ponto, e a necessidade inadiável de se unir com os trabalhadores para barrar estes ataques.

Ao final das irrelevantes deliberações – alguém poderia pensar que nada de excepcional estava acontecendo na rotina morna do ME uspiano – companheiros do Enfrentamento propuseram a incorporação a um ato do Sintusp durante a reunião seguinte do Conselho Universitário (onde também ocorreria um ato por cotas), com a pauta Contra a repressão. Era fundamental, afinal de contas, além de respondermos à repressão policial, lutarmos junto com os trabalhadores contra o corte de ponto.

A proposta foi defendida pelos companheiros e por nós, mas jamais chegou a ser encaminhada, pois a assembleia foi implodida no grito por alguns poucos anarco-petistas, com ataques e xingamentos morais contra nossos militantes (por colocarem divergências políticas!), sob o mais resignado silêncio de todos os companheiros dos outros grupos da esquerda. Terminava assim a greve estudantil (pois dali em diante todos os fóruns e ações do movimento seriam apenas formais): com um setor petista que tanto batalhou para nos dividir e enfraquecer impedindo a esquerda, reunida em uma assembleia minúscula, de sequer tentar reunir suas forças em um último suspiro.

AS VESTES POEIRENTAS DE NOSSOS DIAS, CABE A TI, JUVENTUDE, SACUDI-LAS

Esta greve, desde seus primeiros episódios, deixou uma incômoda sensação em muitos estudantes: ela exibia, de um lado, enormes assembleias de curso e intensa participação e produção locais e, de outro, fóruns gerais esvaziados e estéreis; se consolidou uma greve muito forte e efervescente nas bases, mas completamente desarticulada a nível geral, sendo incapaz de erguer um poder estudantil na universidade apto a resistir e enfrentar a reitoria.

Isto, como nós propusemos, foi em grande medida consequência dos limites programáticos das direções majoritárias do movimento, que se enterraram em suas verdades eternas, se recusaram a assumir responsabilidade pelo movimento real permitindo, assim, que ele se fragmentasse e se isolasse cada vez mais dos trabalhadores. Os estudantes, a bem da verdade, não enxergavam nas assembleias gerais um reflexo da política real que eles estavam fazendo em seus cursos. Foram deixados órfãos pelas direções do movimento e não puderam efetivar toda a potência e disposição de luta que guardavam.

Esta incapacidade de unificar os dispersos mas combativos movimentos locais em um forte movimento geral e unificado, evidentemente, nos legou a derrota da greve, que não conquistou nenhuma de suas reivindicações e deixou o campo aberto para o desmonte e o avanço da repressão. Esta constatação dura, no entanto, não deve desanimar os lutadores. A outra sensação que esta greve deixou foi esta: a de ter sido um prólogo, uma espécie de ensaio geral – que anuncia uma nova fase do movimento, que voltará renovado, educado pela experiência e preparado para enfrentar Zago, a polícia e todos os burocratas que governam a universidade.

Estará o movimento estudantil disposto a mudar de postura política diante da realidade?

Este movimento viciado, eleitoreiro e carreirista, com toda certeza não. Mas a greve despertou uma nova geração, que ainda não tem apego à cartilha morta do passado. Jovens piqueteiros e ocupantes, espalhados pelas bases dos cursos, que experimentaram viver uma outra universidade e que agora sabem que podem se organizar, lutar, e fazer a própria lei. Novos lutadores que continuarão o movimento e precisam desatar um novo futuro.

Essa nova geração não pode se intimidar diante dos desafios colocados nem cair cética diante deles. Deve tomar da greve as lições mais importantes para reorientarmos nosso movimento para a unidade e construirmos, a partir de agora, um movimento real, defensivo e radical, que consiga levantar os estudantes no que é mais sensível e central, e que leve os confrontos até seus limites.

Os ataques à universidade estão vinculados à ofensiva da burguesia e dos governos sobre a classe trabalhadora, e é preciso reconhecermos que nós estudantes não conseguiremos resistir a eles sozinhos e isolados. O movimento estudantil, ao mesmo tempo que deve confiar em suas forças, deve ter clareza de sua impotência diante do inimigo se não se aliar aos trabalhadores da USP e de fora dela. O destino do que ainda resta da universidade está vinculado às demandas dos trabalhadores, à sua luta por contratações e para manter suas condições de vida e de trabalho. Mais do que isso, é imprescindível ao movimento estudantil aliar-se à resistência da classe trabalhadora como um todo contra os efeitos da crise e os ataques dos governos. Nosso poder está na maioria de jovens e trabalhadores organizada para defender-se!

O fracasso de mais essa greve também é determinado pelo isolamento da luta nas universidades, graças ao imobilismo e desorganização geral que a classe trabalhadora enfrenta hoje, gerados nas décadas de construção do PT. Com o acirramento da luta de classes no país e na medida em que a classe trabalhadora entrar em movimento ultrapassando suas direções sindicais pelegas e toda sua tradição petista decadente, é possível que no futuro próximo nos encontremos em melhores condições também para a luta na USP.

É preciso desde já superar esses entraves históricos da esquerda na juventude, seu reformismo e sua covardia, e se livrar desse passado petista que oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. Os ares da juventude começaram a soprar para longe o cheiro de naftalina do movimento estudantil. A mudança de lógica do ME a partir da atual experiência será o mais importante saldo desta greve, e é o que nos permitirá levantar a luta em outro patamar no próximo período.

CONTRA O DESMONTE E A REPRESSÃO
VOLTAREMOS MAIS FORTES

FORA PM! FORA ZAGO!
VIVA A LUTA DOS TRABALHADORES E DA JUVENTUDE!