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balanço da greve de 2014 na usp

A greve dos estudantes da USP em 2014 precisava ser histórica, tamanho era o ataque à universidade. Ele primeiro apareceu como ataque aos trabalhadores e professores, mas em pouco tempo se mostrou como um mais profundo ataque à própria existência da universidade (o “pacotão” do Zero Zago).

Diante de tamanho ofensiva da burocracia, era a hora de lutar e lutar de forma radical. Mas apenas os trabalhadores e os professores se levantaram… Os estudantes, grosso modo, não entraram em cena; fizeram “greve de pijama”! Por que isso aconteceu? Para tentar explicar esse problema é que escrevemos este balanço.

KAIRÓS – MOMENTO OPORTUNO

Em grego há a palavra kairós, que não tem correspondência direta em português. Ela significa uma forma de vivência histórica: a ação humana propriamente na história, um “momento oportuno” (como usualmente se traduz). O “momento oportuno” é um momento único, que jamais se repete.

O único motivo que a nosso ver explica a apatia dos estudantes neste greve é a luta inoportuna conduzida pelo DCE (Diretório Central dos Estudantes) em outubro de 2013, luta que criou uma ressaca no corpo estudantil, duradoura até hoje. Graças a uma luta sem sentido histórico ao final de 2013, concebida sobretudo na cabeça do DCE e desatada artificialmente por uma ocupação de reitoria de calendário (pois tinha dia para começar e visava acabar a tempo de erguer a campanha eleitoral para a entidade); graças a essa luta, a defesa da Universidade ficou impossibilitada quando chegou a hora. Uma suposta ofensiva em 2013, impossibilitou a ação defensiva real e fundamental, quando vieram os ataques. O TL, em 2013, fez um grande esforço para dialogar com a pauta da greve e escreveu, depois, um longo balanço crítico (disponível aqui).

É preciso entender que nem todo momento é de luta. É preciso saber o momento oportuno de lutar para não banalizar a própria luta e para não desgastar seus métodos (só isso explica o crescimento de posturas conservadoras entre estudantes, como o repúdio a cadeiraços, piquetes, trancaços etc).

Sobretudo, é preciso entender que uma luta consequente e radical não pode ser desatada por uma proposta frágil e reformista, como a de 2013. A universidade não pode ser reformada, não pode ser “melhorada” ou “democratizada” dentro do capitalismo, pois a universidade é burguesa e é a totalidade da sociedade burguesa que está em crise nos tempos de hoje. Qualquer ação reformista, como a que propôs o DCE em 2013, está fora do momento histórico; é, portanto, inoportuna ou oportunista.

Mas, para a sorte do conjunto da universidade, tanto o movimento dos trabalhadores quanto o dos professores, não levaram a sério a simulação de luta realizada pelo DCE em 2013 e puderam defender a universidade no momento certo.

O QUE A LUTA INOPORTUNA ACARRETOU?

A história sempre cobra o seu tributo. Ela vingou-se da postura errada dos estudantes em 2013, isolando-os tragicamente em 2014. Todo movimento, mesmo o mais vigoroso e sadio, tende a trazer à luz suas piores características, mais frágeis e infantis, num momento de baixa e isolamento. Nesta luta recente a “vanguarda”, isolada, sem encontrar caminho que a vinculasse ao corpo estudantil, optou por fechar-se em si mesma e partiu para o delírio inebriado, talvez para apaziguar a dor do isolamento. Veio à luz então o esquerdismo. Em cada assembleia e em cada comando de greve realizaram-se grandes discussões e lutas de princípios sobre as concepções de universidade e sobre a universidade do futuro; e o movimento não saiu do lugar, não se mexeu.

É preciso ressaltar que o esquerdismo é a outra face do reformismo. Num momento em que a universidade sofre os maiores ataques, a vanguarda, isolada em si mesma, delira sobre a universidade do futuro, reformada ou completamente revolucionada, mas pouco apresenta ações consequentes para a luta ou para trazer de volta os estudantes para a greve.

O esquerdismo de hoje, embora seja passageiro, é de total responsabilidade dos grupos reformistas hegemônicos do movimento estudantil, a saber, os que controlam o DCE. Só a sua ação inoportuna e irresponsável explica a infantilidade atual.

Mas nem tudo são lágrimas: viva a greve dos trabalhadores da USP!

06.10.2014


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