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balanço da greve de 2013 na usp

Este balanço é voltado aos estudantes das universidades estaduais paulistas e aos jovens ativistas de todo o país. Não temos prazer em escrever textos longos — quem viu nossos panfletos na greve da USP sabe disso. Mas, diferentemente dos balanços superficiais que de nada servem — a não ser para iludir militantes pelo Brasil afora —, este procura detalhar os acontecimentos, ainda que isso traga o demérito do tamanho.

Um outubro pré-junho

Apesar de toda a radicalidade nas ruas após junho de 2013, a luta grevista em outubro pareceu pertencer a 2012 ou antes. A greve nos remeteu, em grande parte, aos ares sufocantes do pré-junho: paralisia, assembleias sem sentido e distância das ruas. Temendo imiscuir-se na atual conjuntura, temendo fazer com que os estudantes da USP ocupassem um papel de vanguarda da juventude, temendo, enfim, assumir o papel de direção de um movimento de massas da juventude, o recuo foi o mote impresso pela “direção”.

Ensaiada a partir de uma pauta frágilíssima — diretas paritária para reitor, tão recuada que importantes cursos e faculdades como a Geografia, a FAU e ECA relutaram em participar no início — a luta só começou com o fato político da ocupação da reitoria. Depois de anos de plebiscitos, twittaços e outras ações “radicais” para supostamente democratizar a USP, a gestão do Diretório Central dos Estudantes (DCE, composto por setores do PSOL e pela Juventude do PSTU) mostrou serviço e corretamente conduziu a ocupação da reitoria no dia 1 de outubro.

Essa ação radical esteve à altura dos ares de junho e, por isso, desencadeou um movimento que animou inicialmente a juventude da universidade. Entretanto, foi um dos poucos elementos em acorde com a radicalização de 2013. Na verdade, como veremos, o maior mérito de toda a greve foi o de escancarar a contradição entre o atual Movimento Estudantil e os ares radicais de 2013. Tal contradição, como também veremos, se expressou na relação contraditória entre as palavras e as ações dos “dirigentes” do movimento – onde se falava “vitória” podia-se ler derrota; onde se falava “conquista do apoio da sociedade” podia-se ler isolamento. Isso levou tais “direções” ao enfraquecimento e à desmoralização entre os estudantes, abrindo espaço para algo novo.

Abaixo comprovamos isso detalhadamente.

Qual era a real intenção da gestão do DCE com a ocupação?

Levantamos uma hipótese, plausível diante dos fatos, buscando entender o que estava por trás daquela radical entrada no prédio da reitoria. Pensamos que com a ação do 1 de outubro, talvez superestimando os rachas internos à burocracia universitária, a gestão do DCE acreditava poder forçar o Conselho Universitário — então reunido para deliberar sobre uma suposta democratização do processo eleitoral — a aprovar a eleição para reitor na proporção 70/15/15 (ou seja, participação de 70% de professores, 15% de funcionários e 15% de alunos).

Essa proporção, 70/15/15, poderia ser aprovada diretamente pelo Conselho Universitário (CO), pois está prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN). A proporção 70/15/15 já ocorre em 37 universidades federais e muitos membros da burocracia da USP — inclusive o Rodas — se posicionam a favor dela.

A proposta apresentada pela gestão do DCE, formulada inicialmente pela Associação dos Docentes da USP (ADUSP), era diferente: “diretas paritária”, 33/33/33. Acontece que, sendo ela uma proposta não prevista pela LDBEN ou pela legislação estadual, não poderia ser efetivada apenas pelo CO – careceria de aprovação, criação de uma Lei, pela ALESP (Assembleia Legislativa do Estado de SP). A gestão do DCE, que sempre preza pela legalidade, sabia dessa dificuldade e considerava sua via pouco viável (ainda que, se percorrida, seria interessante para propaganda dos parlamentares “amigos” da educação na ALESP).

Acreditamos, por isso, que a gestão do DCE propugnava, ao entrar com a proposta de 33/33/33, pressionar o CO a aprovar, por meio de uma ação incisiva, curta e radical, a proposta de 70/15/15, prevista na legislação. Seria isso um avanço em relação ao atual funcionamento da USP? Não, não seria. Entretanto, assim seria apresentado. Mas a ação curta e radical durou um pouco mais que o planejado: 42 dias. A situação, diante de plano tão frágil, saiu do controle.

O primeiro recuo da “direção” — logo no primeiro dia!


Assim que os estudantes entraram na reitoria o CO terminou de deliberar sobre as principais questões referentes ao processo eleitoral. Em protesto contra as falsas resoluções para “democratização” da eleição, os representantes dos funcionários e dos estudantes romperam com o CO e se juntaram à movimentação. Dentro do prédio, estabeleceu-se uma plenária no hall para decidir o que fazer imediatamente. Aí se deu o primeiro recuo, a primeira posição burocrática e contraditória da gestão do DCE da USP.

Mesmo cientes de que o CO havia votado pelas questões referentes às eleições e seguia em outras pautas, boa parte dos estudantes queria avançar no propósito inicial do ato promovido pelo próprio DCE: ocupar o CO, o centro do poder da USP, e forçar os burocratas a deliberar sobre o processo eleitoral. Entretanto, uma vez lá dentro, na própria plenária, membros da gestão do DCE e da APG espalharam a “informação” de que o CO havia terminado e não fazia mais sentido tentar ocupá-lo. Nesse ínterim, estudantes, exasperados, correndo, informavam à plenária o melhor caminho para se chegar ao CO. A ocupação ainda era possível. No entanto, se valendo da informação de que o CO havia terminado, a gestão do DCE foi vitoriosa na votação — apertada — sobre a ocupação do órgão da burocracia. Decidiu-se apenas por preparar uma assembleia do lado de fora do prédio. Poucas horas depois os estudantes souberam que a informação divulgada era falsa e que a reunião do CO durara ainda mais uma hora…

Foi perdida assim, logo de cara, uma grande oportunidade de pressão sobre a burocracia. Um mês depois, durante as negociações, esse fato embasou os argumentos da reitoria sobre a impossibilidade das “diretas”, vez que não se podia contrariar o CO de 1 de outubro.

Por que a gestão do DCE fez isso? O que eles temiam?

Território Livre a favor das diretas?

Nessa primeira assembleia após a ocupação, no próprio dia 1º de outubro, o Território Livre defendeu a eleição direta universal para reitor.

Alguns diziam que o TL havia mudado de posição, pois sempre centrou sua luta nas reivindicações contra a repressão — fora PM, fim dos processos, reintegração dos eliminados, etc. Isso, em parte, é verdade: o TL se foca nessa pauta, pois é uma frente contra a repressão (e a miséria cultural). Entretanto, já defendemos eleições diretas em outros anos, como em 2007, num momento de grande mobilização estudantil – mas sempre com o diferencial da defesa do voto universal. Ou seja, em vez de panaceias matemáticas para respeitar os pesos supostamente diferentes das categorias da universidade, o TL se vale do princípio claro “uma cabeça um voto”, sem respeito à meritocracia.

Essa posição era também a menos rebaixada e passível de ser aprovada naquele CO do dia 1º. Diferentemente da proposta da gestão do DCE, a eleição universal é um preceito máximo da Constituição Federal e rege não só os âmbitos federal, estaduais e municipais, como também várias autarquias e agências governamentais. Por que não poderia reger a USP? Assim, entre as propostas democráticas, o TL optou pela que tinha maior potencial de aprofundar a luta dos estudantes e levá-la ao seu limite.

Essa mudança de posição, evidentemente, significou um esforço de unidade com o movimento por parte do TL — que, apesar disso, foi muitas vezes chamado de “ultra-esquerdista” e “sectário”. O TL adequou seu programa à situação para apoiar a luta iniciada pelo DCE, dialogar com os estudantes despertos pelo fato político da ocupação e apontar as fragilidades dessa pauta.

Costurando uma unidade, o TL ainda dirigiu uma crítica aos que defendiam o “governo tripartite” e o “fim do reitorado”, argumentando que tais posições ultra-esquerdistas nos isolariam da maioria dos estudantes (veja aqui). Não se tratava, como argumentamos, de falar utopicamente do governo futuro da USP sem reitores e tomado pela maioria estudantil, mas de realizá-lo. Tratava-se dialogar com a pauta da ocupação de forma a ampliar a organização e o poder da maioria.

A posição do TL significava também unidade com um importante setor da USP: os funcionários. O Sindicato dos trabalhadores da USP (vinculado à CSP-Conlutas), como se sabe, é defensor da “diretas universal” por entender que apoiado na maioria estudantil pode conquistar melhores condições de trabalho para a base que representa. Assim, no momento de decidir entre “diretas paritária” ou “diretas universal” estava em jogo a questão: aliar-se aos professores ou aos trabalhadores?

Prevaleceu, nessa primeira assembleia, a proposta da gestão do DCE da USP: diretas paritária para reitor.

A estratégia errada do DCE levou à paralisia e ao isolamento

Nessa mesma assembleia foi aprovada a greve dos estudantes, defendida corretamente pelos próprios membros do DCE da USP. Focavam-se eles, ali, em exigir a anulação do CO (não inviabilizado por eles) e a exigência de um novo CO com pauta eleitoral.

Em poucos dias as assembleias de curso também aprovaram a greve. No dia 3 de outubro alguns dos principais cursos da USP — como toda a FFLCH e toda a ECA — já haviam decretado greve.

No entanto, logo nos primeiros dias ficou claro que a reitoria ocupada não era moeda de troca suficiente para um novo CO. A verdade é que a maior parte da gestão burocrática da universidade independia daqueles prédios ocupados, pois as principais funções foram transferidas dali nos últimos anos. Assim, praticamente sem moeda de troca, quais seriam a estratégia do movimento para alcançar a vitória?

A gestão do DCE, com a bomba na mão, traçou uma estratégia que o TL considerou errada no momento: internamente exigir o quanto antes a abertura das negociações com a reitoria, e externamente voltar a movimentação contra o governador Alckmin.

O TL não tem, por princípio, nada contra essas propostas, mas considera que naquele momento ajudaram a desarmar o movimento. Como afirmamos: é evidente que a negociação é parte de todo processo de luta, mas exigir desesperadamente a abertura de negociações poucos dias após a entrada no prédio só poderia mostrar fraqueza e abrir negociações nos termos da reitoria. Já a luta contra Alckmin poderia ser importante se ganhasse a dimensão que ganhou, por exemplo, a luta contra Sérgio Cabral no RJ, mas tal projeto era tentado em São Paulo desde junho e não deslanchava. Em última instância, a luta contra Alckmin era usada apenas para publicidade partidária de setores do DCE.

O TL se contrapunha a esses 2 pontos da estratégia do DCE, os considerando uma dicotomia simplista entre o interno (diretas) e o externo (Alckmin), e insistia na necessidade da ação direta como principal forma de pressão sobre a reitoria. Assim, defendemos desde o início que a estratégia para vencer consistiria em 3 pontos: vincular a defesa da eleição direta universal (uma pauta interna) com a luta contra a repressão (uma pauta interna e externa ao mesmo tempo, em voga diante dos casos de repressão na periferia e nas manifestações), e eleger um Comando de Greve capaz de organizar ações radicais para impulsionar o movimento e pressionar a reitoria. O Comando de Greve seria também, em certo sentido, a base de um poder paralelo que poderia se contrapor ao poder dos burocratas universitários e mesmo derrubá-lo.

Entretanto, em toda a movimentação prevaleceu a estratégia proposta pela gestão do DCE, o que levou o movimento ao enfraquecimento interno (carente de novas ações radicais) e ao isolamento externo (“Fora Alckmin” não deslanchava). Mesmo aprovada a estratégia do DCE, julgamos no momento que a organização de novas ações radicais poderia alavancar o movimento e ajudar na clarificação das estratégias. Era preciso ter paciência (mas sem desperdiçar tempo) e realizar as ações.

Esse primeiro momento foi marcado pela paralisia, por disputas vazias entre o DCE e a oposição de ultra-esquerda sobre a pauta – que, aliás, era um consenso entre amplos setores estudantis. Nosso primeiro ato de rua sério foi marcado apenas para o dia 15 de outubro, duas semanas após o início do movimento!

Nesse ínterim uma notícia alentadora: o pedido de reintegração de posse foi parar, por sorteio, nas mãos de um juiz da progressista Associação de Juízes pela Democracia (AJD), que deu parecer contrário ao pedido da reitoria, afirmando a via do diálogo para a resolução do conflito. A USP recorreu à segunda instância, mas o desembargador, constrangido a não confrontar diretamente a posição do juiz da AJD, deu mais 60 dias para que as partes se resolvessem.

O ato do dia 15 e o medo dos Black Blocs

O ato do dia 15 de outubro foi o ponto nevrálgico da mobilização. É verdade que houve um ato anterior, no dia 8 de outubro, mas por ser vinculado à estratégia geral do DCE parecia, como tudo até ali, artificial. Era para ser um ato-palanque dentro da USP, com figurões — políticos e sindicalistas — falando contra o Alckmin. Por pressão da assembleia estudantil se tornou um ato de rua, ainda assim submetido à linha geral do DCE de pressionar Alckmin; seu trajeto deveria terminar na ALESP, para ouvir deputados “de esquerda” falar contra Alckmin. Nada mais morto, conforme sabem os estudantes. Exatamente por isso desconsideramos aqui esse ato e passamos direto ao do dia 15.

O do dia 15, pelo contrário, por pressão da assembleia estudantil, foi pensado vinculado aos atos fortes que ocorriam e eram reprimidos no Rio de Janeiro, da greve dos professores, herança da luta de junho. Por isso, e por fazer um chamado a toda a juventude em luta desde junho, ganhou certo ar de luta unificada, além do corporativismo universitário.

O destino do ato era o palácio do governo. Foram estendidas as faixas usuais contra Alckmin. O TL levou suas faixas contra a PM e a repressão, assim como plaquetas — já usadas no dia 8 — com os dizeres “a direita veta o direito ao voto direto!”. Estavam presentes também os “Black Blocs” e diversos grupos anarquistas, setores da juventude despertos depois de junho. Finalmente o movimento da USP integraria a atmosfera geral brasileira do pós-junho? A juventude da USP poderia começar a assumir o papel que lhe coube em vários momentos da história brasileira, a de vanguarda da juventude? O ato logrou reunir cerca de 5 mil pessoas e parecia ser promissor.

Entretanto, já para sair, um impasse: não se sabia se ia ou se ficava, se avançava ou se parava. O que estaria acontecendo? Soube-se que a direção do ato, monopolizada pelo DCE da USP — sem considerar as demais forças políticas da universidade —, era disputada com os “Black Blocs”. Se os BBs tomavam a dianteira o DCE, com o cordão de isolamento da faixa inicial, segurava todo o ato até que os BBs se submetessem e passassem para detrás da faixa. A cada quarteirão o ato parava por alguns minutos. Assim revelou-se o medo do DCE da USP em conduzir livremente a passeata — chegaram mesmo a vir falar com o TL e com a Juventude às Ruas para pedir apoio para segurar os BBs.

Seria a independência dos BBs no ato um problema? Se é possível discutir a justeza dos métodos do “Black Bloc” — o que não convém aqui —, é certo que estiveram presentes em várias manifestações pós-junho e isso não foi motivo para atravancar atos. Pelo contrário, em unidade com os BBs (e outros) os atos em geral andaram bem.

Mas esse ato não funcionava como os de junho; manteve-se no impasse. Por isso, carente de direção, se tornou refém de iniciativas individuais não planejadas e foi parar no pior lugar para uma manifestação daquele tamanho — a Marginal Pinheiros —, virando alvo fácil da Polícia Militar. A repressão dura naquele dia, que obrigou inclusive a massa estudantil a se refugiar na loja da Tok Stok por conta das bombas e do gás policial, fez 57 presos estudantis.

Terminava assim, da pior forma possível, com um duro golpe contra o ME, a passeata mais esperada. Daquele dia em diante tudo mudaria. O DCE da USP — que teve muitos dos seus diretores presos — abaixaria as bandeiras, mesmo as contra Alckmin, optaria pela saída das ruas e pelo controle cada vez maior da mobilização na USP — ou seja, pela desmobilização.

O ato do dia 15 simbolizou o divórcio entre o ME uspiano e a juventude despertada após junho, nos isolando ainda mais. Essa juventude radical, daí em diante, passou a tratar com certo desprezo a movimentação que ocorria na USP, como ação pequeno-burguesa ou burocrática. Tomaram, infelizmente, a direção do movimento pelo movimento como um todo.

Trabalhando durante toda a madrugada do dia 15 para o dia 16 — enquanto nossos companheiros ainda estavam presos — o TL espalhava centenas de cartazes pela USP dizendo: “Abaixo o Poder dos Burocratas! Chega de Prisões!

Após repressão, DCE se torna um bloqueio


Aprendemos em junho que se somos reprimidos devemos sair novamente às ruas e dar resposta. O dia 13 de junho está na mente de todos que foram feitos de gato e rato pela PM, encurralados nas ruas do centro de São Paulo, pois desencadeou as maiores manifestações em todo o país nos últimos 20 anos.

Na USP, entretanto, as coisas funcionam assim. Se fomos reprimidos no dia 15, precisávamos mesmo dar o troco? Não, pensava a gestão do DCE, o foco deveria ser ficar na USP e abrir negociações com a reitoria.

Na assembleia do dia 16, marcada em urgência para responder à prisão dos 57 estudantes, o panfleto do TL estampava: “Dar o troco de ontem!”. O TL e diversos grupos defenderam a proposta de um ato no dia 17 ou no começo da semana seguinte. Entretanto, foi vitoriosa a proposta, apresentada pela gestão do DCE, de realizar um ato apenas no dia 22 — uma semana após as prisões. A justificativa era a necessidade de construir um grande ato. O ato consistiria num arrastão pela USP que seguiria em passeata até a Avenida Paulista, terminando no MASP. Lá, inclusive, encontraria outra passeata da juventude.

Entretanto, o ato que deveria ser preparado nesse longo período não foi preparado, por boicote vindo da gestão do DCE. Por algum motivo difícil de explicar, a gestão do DCE, em vez de radicalizar a luta após as prisões, enveredou pelo caminho contrário. Assim, os delegados do Comando de Greve vinculados à gestão e responsáveis pela divulgação nada fizeram. O evento do facebook foi feito um dia antes do ato (e à noite) e os panfletos de divulgação chegaram no próprio ato (e atrasados). Para piorar, nos materiais dos grupos políticos vinculados ao DCE o horário divulgado do ato estava errado. Os membros do DCE não atenderam aos telefonemas nem disponibilizaram as senhas do facebook para o restante da Comissão de Comunicação divulgar a atividade. O ato não foi construído! O Comando de Greve — órgão executivo da greve — não funcionava para executar nada (característica que manteve até o fim).

Mas o boicote maior ainda estava por vir, no próprio momento do ato. Realizado o arrastão pela USP e juntado um número razoável de estudantes — cerca de 300 — era hora de sair da Cidade Universitária e partir para a Av. Paulista. Se o número de estudantes era relativamente pequeno, isso se devia ao boicote e ao horário da atividade. Em pouco tempo um número maior de estudantes se juntaria, pois o horário pós-expediente de trabalho se aproximava. Dois dias antes o Black Bloc havia realizado um ato no centro da cidade com cerca de 100 jovens.

A gestão do DCE reuniu a Comissão de Segurança do ato quando este saía do portão principal da USP e decidiu que ele não mais poderia ir à Av. Paulista, pois estava muito vazio. Instalou-se uma plenária no portão, que votou pela posição do DCE (que atemorizava os estudantes com o risco da repressão e novas prisões). Assim, restou apenas um tour pelo quarteirão e voltar para dentro da USP com o rabo entre as pernas. Não foi dada a resposta às prisões.

Esse “ato” simbolizou o início da decadência de toda a mobilização. Não à toa a decadência é marcada pelo exato momento em que a direção do movimento, que até então não era um completo bloqueio, se colocou contra o movimento.

Pensamos que com isso o ato anterior, do dia 15, dia das prisões, automaticamente assumiu o posto de ápice do movimento. A gestão do DCE, por sua vez, mais tarde leu o ápice do movimento no dia 30 (quinze dias depois), dia em que a reitoria publicou seu primeiro termo de negociação. Eis aí uma diferença entre concepções políticas de ME: enquanto uns leem o movimento nos conflitos reais e na participação dos estudantes, outros o leem nas reuniões de gabinete da comissão de negociação com a reitoria.

Os terríveis dias de paralisia da negociação

O processo de negociação com a reitoria, que começou no dia 21 de outubro, foi terrível. Não porque a reitoria fazia seu desserviço usual, mas porque o movimento ficou ainda mais paralisado que na primeira quinzena da mobilização. Antes do dia 15 o movimento estava em ascensão, portanto a paralisia e morosidade pouco eram notadas pela maioria dos estudantes. Agora, um movimento envergonhado, que apanhou, foi preso e não deu resposta, ficava cada vez mais marcado pela exasperação. Tal foi o caráter dramático — tragédia? — da negociação com a reitoria.

Se o movimento não tinha mais forças, supostamente, para sair da USP em ato, podia ao menos radicalizar em ações internas à USP. Por isso o TL defendeu (na verdade desde a primeira semana) ações radicais internas à USP como alavanca da mobilização. Se essa necessidade era clara desde o início, ficou gritante no período da decadência da mobilização.

Propusemos a transformação imediata dos blocos K e L ocupados em moradia autogestionada. Tratava-se de organizar o despejo da reitoria dos blocos; de levar seus móveis até a nova reitoria, do outro lado da praça, e lá deixá-los para que a reitoria os reunisse. Tudo seria organizado e inspecionado por uma comissão de professores, funcionários e estudantes que já haviam se predisposto.

Não seria, em nossa concepção, apenas uma política de “permanência estudantil”, uma “ação afirmativa”. Tratava-se de exercer o poder estudantil, exercer a dualidade de poderes, ou seja: caberia ao Comando de Greve, como ferramenta democrática de organização dos estudantes, mostrar que também compartilhava do poder na USP e podia decidir pelos rumos da universidade. Na verdade, essa é a linha geral do programa do Território Livre — a maioria nela presente deve, por meio de sua própria organização e luta, controlar cada vez mais a universidade e socializar seus meios de produção (laboratórios, estúdios, salas, instrumentos, moradia) para todos que nela quiserem produzir. Essa é única forma de arrancá-la da sua limitada destinação privada.

Foi nessa mesma linha de ações radicalizadas que o TL defendeu e ajudou a realizar o piquete nas obras da nova reitoria. Foi nessa linha que o TL propôs a mudança do uso da Tenda do Santander simbolizada pelo ato “Burocratas no Espeto”. Foi nessa mesma linha que o TL apoiou a proposta dos companheiros da Juventude às Ruas de quebrar os muros que separam a USP da favela São Remo.

Mas as propostas mais radicais — blocos K e L e muros São Remo — foram bloqueadas pelo DCE nas assembleias gerais ou no Comando de Greve, onde tinha maioria. As propostas menos perigosas — como o piquete e o ato “Burocratas no Espeto” — não foram bloqueadas, mas boicotadas. A cartilha era: nada deve melar o bom andamento das negociações com a reitoria, a garantia de um happy end sem complicações. A luta deveria ficar para 2014, como já se comentava.

Assim, ganhamos mais duas semanas de enrolação sem grandes ações, até a reitoria apresentar seu termo.

O vergonhoso termo da reitoria

No dia 30/10, fruto das longas reuniões de negociação, a reitoria finalmente apresentou por escrito seu termo de negociação. Defender o fim de uma mobilização tendo conquistas ou vitória não é um problema, pelo contrário. Mas cabe saber se havia algo realmente a ser considerado conquista ou vitória no termo da reitoria. Cabe saber se a reitoria “começava a ceder”, como falaram os materiais do DCE.

Vejamos os pontos:

Quanto à eleição direta para reitor, a pauta principal desde o início da mobilização: isso nem estava em discussão, diziam os representantes da reitoria, pois cabia apenas ao CO. Prometia-se um “processo estatuinte”, aberto pelo VI Congresso da USP (congresso sem poder deliberativo, apenas como fórum de discussão para o movimento definir suas propostas).

Quanto ao eixo da repressão: o termo não só mantinha as promessas de punição antigas quanto prometia que puniria todos os que fossem responsabilizados pela ocupação e pela abertura da torre do relógio.

Quanto à moradia: a reitoria mantinha a promessa de transformação dos Blocos K e L em moradia (promessa de gestão do Rodas que, ao que tudo indica, estava mesmo sendo preparada). Evidentemente, no termo constava que a gestão da moradia seria feita pelo órgão repressor da assistência social da universidade (SAS), e não de forma controlada pelos estudantes.

Para piorar, o termo indicava que o espaço do DCE, então em reforma, seria devolvido “nos termos legais”. Ou seja, o espaço seria devolvido de acordo com o “termo de concessão de uso dos espaços da USP”, que realiza a retirada da autonomia política e financeira das entidades estudantis. Contra esse termo os estudantes de várias unidades se mobilizavam e, justamente, os estudantes de São Carlos faziam greve naquele momento… Assinar embaixo significaria legitimar a retirada do espaço do DCE! A reitoria aproveitava para zombar e atacar o ME!

Possíveis conquistas: aumento de vagas na creche da USP e possibilidade de recarga do bilhete estudantil nos bandejões (o aumento das bolsas estudantis proposto no termo já estava sendo realizado). Tudo a ser encaminhado em futuras comissões que apreciariam as mudanças. Em suma, a reitoria oferecia migalhas e promessas.

Seria possível defender um termo tão rebaixado? A resposta da gestão do DCE foi contraditória: os setores do PSOL, majoritários, defenderam que se tratava de uma grande vitória; já os ligados ao PSTU, sem romper com a gestão, expressaram seu incômodo afirmando que era preciso radicalizar e se focar em “pautas específicas” dos cursos – vacilação que indignou cursos da FAU e da ECA, que aprovaram em suas assembleias que só sairiam da greve com a conquista das pautas gerais.

Inabilidade da gestão do DCE leva à piora do termo

Apesar das divergências internas, no dia seguinte a gestão do DCE se apresentou em uníssono, afirmando que nada restava senão aceitar o termo da reitoria. Estava refém da desmobilização que ela mesma criou e sabia que não tinha forças para melhorar o termo.

Entretanto, aí a gestão do DCE foi inabilidosa: em vez de manter pressão sobre a reitoria (mesmo que em blefe), indicou e realizou um recuo ainda maior para criar condições de aprovar o termo entre os estudantes. Com isso se tornou ainda mais refém da sua própria desmobilização e ainda mais impotente diante da reitoria.

Abandonando – pela primeira vez de forma clara – a pauta central do movimento, a “diretas”, e defendendo o “processo estatuinte” e o Congresso como grandes vitórias, a gestão do DCE aprovou nos cursos com menor tradição de mobilização a saída imediata da greve. Assim, já não estavam mais em greve os 80 ou 60 ou 40 cursos iniciais (o número variava de acordo com a impressão que se queria dar ou com o diretor do DCE que falava) e só restava aos cursos mais de luta acabar com a mobilização. Neles a gestão propôs um indicativo de saída de greve para a assembleia geral e na maioria o conseguiu aprovar.

Um texto do TL no facebook avisava que essa “tática” ia dar errado:

“NÃO EXISTE INDICATIVO DE SAÍDA DE GREVE.

imaginem vcs que são trabalhadores de determinada categoria e têm uma negociação amanhã com o patronato. entretanto, sinalizam um dia antes da negociação que vão sair da mobilização. vcs acham que conseguirão arrancar no dia seguinte algo relevante?”

Dito e feito. No dia seguinte às assembléias a reitoria deitou e rolou. Na negociação apresentou um termo ainda pior, que retirava a mais mínima referência a um possível processo estatuinte em 2014, ficando apenas a promessa do Congresso inútil. Um professor da FFLCH, membro da ADUSP, foi o primeiro a notar: “quero chamar a atenção sobre um problema que acabo de ver, e que, se não for um erro, parece muito grave”. Na reunião de negociação o representante do DCE chamou tal modificação de golpista e quase fez um membro da burocracia, diretor da FFLCH, chorar de constrangimento.

A tragédia virou farsa: o termo ficava igual ao que pôs fim à ocupação de 2007 – terminada em nome de um Congresso que nem mesmo aconteceu.

Mas, quando as coisas pareciam não poder ficar piores, ficaram: se aproveitando da fragilidade da mobilização a reitoria recorreu novamente na justiça, tirou da cartola outro desembargador e conseguiu, pela primeira vez, aprovar a reintegração de posse do prédio (estavam também aprovadas a reintegração das diretorias da EACH e de São Carlos).

DCE decide fazer o impossível e “base” se revolta

Com a possibilidade imediata da chegada da Tropa de Choque, o que já era marcado pelo desespero assumiu ar quase histérico. Evidentemente, a melhor possibilidade de defesa não seria pela resistência, pela força, mas aumentando a mobilização. Só que a gestão do DCE estava totalmente refém da sua própria impotência. Temendo a chegada da Tropa de Choque, se viu obrigada a defender, com todas as forças, o indigesto termo “golpista”, como forma de acabar imediatamente com tudo.

Para a assembleia do dia 07/11 — o dia de “consolidar as vitórias” — a máquina de agitação da entidade funcionou melhor que nunca: foi publicado seu primeiro jornal na mobilização, tratando das conquistas e divulgando a “principal assembleia”; foram trazidos ônibus e vans com estudantes do interior. Tudo estava certo para acabar finalmente com aquele movimento que saíra do controle.

E não é que aconteceu, pela primeira vez, o inimaginável? A base da gestão DCE ficou menor que a da oposição e ela perdeu a votação sobre o termo e a greve por 747 a 562! O que teria acontecido? De onde teria vindo aquela “massa” contra a política do DCE segurando cartazes escrito GREVE?

Ao contrário do que diz o DCE, aquela massa raivosa não foi fruto apenas da “política inconsequente e aventureira da ultra-esquerda”, mas sobretudo da política errada e incompetente do DCE desde o início da mobilização. Aquela “massa”, na verdade, estava muito consciente e queria dar vazão à sua revolta contra a posição autoritária da reitoria — que tripudiava do ME e preparava mais repressão — e contra a ameaça de reintegração de posse. Para isso, parecia estar disposta a mais luta.

O TL defendeu naquela assembleia — em panfleto — a necessidade de ocupar a nova reitoria, proposta já aprovada nas assembleias da FAU e da Geografia. Se não seria possível resistir na antiga, a ocupação da nova, além de criar um imbróglio jurídico, seria um golpe duro sobre a gestão Rodas. O prédio novo estava em reforma e era muito fácil de ser ocupado. A proposta, a ser votada após a deliberação sobre o termo e a greve, parecia ter respaldo na plenária. Entretanto, surgiu repentinamente um boato de que ônibus da Tropa de Choque entravam no campus (mostrava-se até fotos escuras de celular onde nada se podia ver!) para realizar a desocupação. Uma diretora do DCE encaminhou, em urgência, o fim da assembleia sem a deliberação sobre a nova ocupação, para que todos descessem até a ocupação para defendê-la.

Chegando lá, evidentemente, constatou-se que não passava de boataria.

DCE coloca em risco a ocupação

A assembleia do dia seguinte, dia 08/11, foi marcada para terminar as deliberações do dia anterior. Entretanto, o número de pessoas presentes era muito menor e não seria possível realizar uma ação radical a partir dela. Marcada pela tensão e por fortes provocações entre o DCE e a “ultra-esquerda”, a assembleia terminou sem deliberar nada relevante.

Mesmo assim, um fato curioso: a gestão do DCE encontrava-se em minoria novamente. Perceberam eles que, daquele momento em diante, seriam minoria nos fóruns gerais do ME, o que de fato aconteceu. Aceitariam ser reféns também dos “loucos” e “inconsequentes” da oposição? Que fazer, pensavam?

Eis que estoura uma briga. Não se sabe de quem partiu a primeira acusação nem a primeira agressão, mas o fato é que um membro do DCE levou um soco de um membro do Partido da Causa Operária (PCO) — que com isso fez o jogo do DCE e lhe deu a desculpa que faltava para romper com a assembleia e, em parte, com o movimento.

Daí em diante a presença dos membros do DCE nas atividades e na ocupação minguou. Mantiveram poucos membros se revezando em postos de segurança da ocupação e nada mais — o que fragilizou por completo a segurança da ocupação. A ocupação da reitoria, por isso, após o dia 08/11 ficou fragilizada, praticamente sem direção, sob a constante ameaça da reintegração de posse.

Coube à oposição ao DCE, junto com pouquíssimos membros do DCE, organizar a segurança e manter a deliberação da assembleia geral dos estudantes. Como tática de defesa, foram realizadas festas para manter estudantes no campus o máximo de tempo possível e cobrir o período mais grave, as madrugadas. Com isso foi possível segurar a ocupação por mais 5 dias, sob risco intenso de chegada da Tropa de Choque. Até que no dia 12/11 ela veio.

As prisões e a “depredação” da reitoria

Ainda que enfraquecida, a ocupação se defendia. Nos ombros da oposição coube a principal parte das vigílias e das rondas entre 8 e 12 de novembro. Quando a Tropa de Choque se dirigiu à reitoria foi facilmente percebida. Um rojão avisou a todos os ocupantes, que tiveram tempo suficiente de sair e pegar os últimos pertences. Os policiais encontraram um prédio escuro e vazio. Quando acenderam as luzes viram os dizeres: “perderam a viagem, vermes!”

Frustrada a ação, que fazer? Era vergonhoso demais para a PM não ter resultado. Resolveu-se então arranjar bodes expiatórios. Foram pegos, aleatoriamente, dois estudantes que se dirigiam da FFLCH até o CRUSP, após uma festa no espaço dos estudantes da Filosofia/Ciências Sociais. Presos, após a delegacia foram transferidos para o Centro de Detenção Provisória de Osasco, onde tiveram seus cabelos raspados. Sobre eles, hoje, pesam — e pesará por longo tempo — as acusações de formação de quadrilha, furto qualificado e destruição de patrimônio, todas falsas.

O Movimento Estudantil não é uma quadrilha, como é evidente. Tratá-lo assim revela a mais pura ignorância e aspiração ditatorial. Mas a “destruição do patrimônio” e o “furto qualificado” não passaram de pichações internas à reitoria e deslocamento de móveis dentro do prédio para montar barricadas. Em 2007, quando a reitoria foi entregue, uma comissão de estudantes, professores e funcionários foi formada para entregar o prédio, que ficou brilhando — apesar das pichações. Magicamente, quando a polícia lá entrou encontrou destruição, máquinas grandes de xerox quebradas no hall central. Em 2011, os estudantes ocupantes presos viram com seus próprios olhos a reitoria ser devastada pela força policial. O mesmo se deu em várias ocupações, como na do Pinheirinho, onde a polícia além de destruir todos os barracos violou mulheres e crianças. Há motivos para se acreditar na versão da perícia policial? Há motivos para se levar à sério a versão dos burocratas universitários, acusados com frequência de desvio milionário de verbas públicas? Lembre-se dos tapetes persas do Rodas, da Fundação Zerbini, do desvio de dinheiro do restaurante da Química, e um longo etc.

Um dia após as prisões houve nova assembleia estudantil, novamente para deliberar sobre a greve. Era evidente para todos os grupos que a manutenção da greve era muito frágil e artificial. O movimento estava desagregado e novamente humilhado. Com exceção de alguns cursos da ECA, da Filosofia, da Geografia e do Design (da FAU), todos os cursos haviam saído da greve. Mas como sair da greve um dia após o Choque entrar no campus Butantã pela terceira vez, e prender novamente companheiros? Tal posição, além de desmoralizante, fortaleceria o grave precedente da ação policial. Por isso o TL defendeu, contra a maioria dos grupos políticos, a manutenção da greve, ainda que praticamente como um protesto, posição que predominou entre os cerca de 400 estudantes presentes.

Que fazer, como continuar o movimento?

No ato em defesa dos estudantes presos o TL elencava as prioridades imediatas para a continuidade da luta:

1. defender os companheiros Inauê e João Vitor, presos no dia 12/11;

2. defender os companheiros presos no dia 15/10;

3. defender a entidade e membros do DCE de possíveis processos;

4. impedir a demolição do SINTUSP e do CALC no final do ano;

5. impedir fechamento da prainha da ECA (espaço da QiB) no final do ano;

6. deslegitimar o próximo processo eleitoral para reitor.

É preciso reerguer a mobilização — superando o quanto antes as limitações burocráticas do próprio Movimento Estudantil. Isso é possível? Depende, em parte, de saber o quanto a direção atual do movimento se deixará levar pelos ares de junho de 2013. Independentemente disso, a juventude deve se preparar para ultrapassá-los desde já.

Que venha 2014!