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[panfleto] a anel na encruzilhada

A ANEL AINDA NÃO DECOLOU

A ANEL já tem seis anos, mas ainda não decolou. A rigor, a ANEL tem mais de 11 anos, pois é sucessora da CONLUTE (Coordenação Nacional de Luta dos Estudantes), criada em maio de 2004 para ser oposição à UNE. Como a CONLUTE não decolou, seu nome foi mudado para ANEL em 2009. Mas isso não resolveu o problema.

Neste Congresso, reunida a vanguarda estudantil nacional, é importante nos questionarmos: por que a ANEL, assim como antes a CONLUTE, não decolou? O que está ocorrendo de errado?

Essa questão é fundamental justamente porque, desde 2005, inegavelmente, há uma conjuntura favorável à luta da juventude em todo o país (e sobretudo após 2013). Nesse período houve processos de luta em que a ANEL (e antes dela a CONLUTE) poderia ter se alçado à crista da onda e virado referência nacional. Mas isso não aconteceu. Afora as universidades públicas nacionais, a ANEL é desconhecida da juventude. E mesmo nesses locais, é conhecida apenas pela vanguarda.

Se não fizermos um balanço sério dessa situação, de nada adiantará tirarmos deste Congresso as mais belas deliberações (sobretudo se elas forem só as reafirmações das mesmas posições dos últimos congressos, desde 2004).

POR QUE A ANEL NÃO DECOLOU?

Pensamos que, por mais importante que seja a luta atual da ANEL, esta entidade ainda carece (desde a época da CONLUTE) de sentido histórico de existência. Não falta espaço, é claro, para algo novo. A conjuntura pede algo novo. Mas a questão ainda é: o que deve ser esse novo? Com o que está defendendo, a ANEL ocupa esse espaço?

Pensamos que não. Enquanto a ANEL viver na dependência da UNE e se pautar sempre em relação a ela, jamais ocupará esse espaço. Enquanto a ANEL não tiver um programa realmente próprio e independente, ela não terá uma identidade própria, uma poética para a atrair a juventude. Assim ela parecerá sempre velha.

O ar de cópia é visível para quem olha de fora. O nome ANE (Livre) é uma variação de UNE. O logo da ANEL é o contorno do Brasil, assim como é o logo da UNE. A cor da ANEL é nacionalista (verde), assim como é nacionalista (azul) a da UNE…

Mas o problema da identidade visual e do nome é fácil de resolver. O principal problema é que o programa da ANEL é praticamente igual ao da UNE. Ora, como efetivamente ser oposição ao governo com praticamente o mesmo programa que o governo? Como construir algo novo, com as palavras de ordem do velho? Será que não é hora de parar para pensar se essas palavras de ordem, reafirmadas em todos os congressos, desde 2004, não são insuficientes para essa tarefa?

O programa da ANEL baseia-se na mesma lógica que o programa da UNE, mas com uma aparência mais à esquerda. Por exemplo: defende-se também os 10% do PIB para a educação, mas de outra forma; defende-se uma reforma universitária, mas não a do governo; defende-se a ampliação de verbas do PNAES, mas com outros critérios… e por aí vai. Ora, se for para a ANEL parodiar a UNE, é mais proveitoso que os lutadores aqui presentes voltem para a UNE e fortaleçam a oposição de esquerda lá dentro. A ANEL precisa buscar outro caminho.

REFORMAR AS ESCOLAS E UNIVERSIDADES?

Copiando o programa da UNE, não se coloca nunca em questão sua lógica geral. Nunca se questiona se está certa ou não a luta por pequenas reformas. A verdade, entretanto, é que o problema das universidades e escolas brasileiras não é nem de longe solucionável por reformas e, assim fazendo, elas só piorarão. As escolas e universidades passam por uma crise profunda, reflexo da crise civilizatória da sociedade burguesa. Elas caminham aceleradamente para a barbárie. A crise da burguesia é tamanha, que nenhuma pequena reforma pode se contrapor à degeneração e decadência, pois estas avançam em velocidade e amplitude muito maiores do que a capacidade de ação das pequenas reformas.

Em quatro décadas, por exemplo, enquanto a UNE esteve sempre controlada pela UJS e seu programa nacional-reformista, a educação pública secundária foi destruída de forma quase completa (as escolas hoje são praticamente apenas prisões para a juventude mais pobre, e pedir mais verbas para a educação pode significar apenas torná-las meios de repressão mais eficazes). Nossos pais ainda lembram-se de terem estudado em escolas públicas de qualidade; lembram-se de que praticamente não havia escolas secundárias privadas etc. Se seguirmos assim, com esse programa impotente de pequenas reformas, em duas décadas nada restará das universidades públicas, assim como hoje praticamente nada resta das escolas públicas.

O novo pede passagem, mas não por meio de um programa reformista. A juventude pede algo muito mais avançado e radical, diferente dessa cara reformista que a geração do PT deixou no país e ainda domina a esquerda. A juventude não é boba: ela sente o ar asfixiante que o ME tradicional ainda exala, percebe que essa atmosfera é a dos que há anos prometem melhoras e melhoras, que nunca chegam. A maioria dos jovens – sobretudo os das periferias das grandes cidades – percebe que as propostas reformistas são politicagem e falatório vazio. Esses jovens não têm paciência diante da gravidade dos problemas, e percebem que o ME atual é inofensivo, bom-mocinho, burocrático, professoral e, em grande medida, controlado por uma panelinha. É um ME que não atrai, não seduz, não tem poesia. A ANEL não pode continuar associada a isso, pois assim nunca decolará.

O QUE A ANEL DEVE FAZER PARA SAIR DA CRISE?

Para a ANEL sair da crise e dialogar com a juventude, ela precisa mudar de eixo, de lógica, de ar e de localização. O primeiro passo é parar de parodiar a UNE e pensar com uma lógica própria. O segundo é desistir de tentar salvar, de forma quixotesca, as escolas e universidades burguesas, por meio de reformas. O terceiro é erguer, desde já, a partir da resistência sem conciliações, da luta defensiva contra a destruição (portanto, não a partir de uma luta reformista e positiva, mas a partir de uma luta negativa, de resistência aos ataques), formas de organização que criem o espaço do futuro.

Em vez de tirar sua poesia do passado, tentando salvar o que não pode ser salvo, a ANEL precisa mudar absolutamente de lógica e defender que as escolas e universidades tornem-se bases de um novo poder que aponte para o futuro; bases que sirvam na transição desde já para uma nova cultura e uma nova civilização. Só assim a ANEL tirará a sua poesia do futuro.

Não lamentemos o desaparecimento das escolas-prisões, nem das universidades públicas burguesas decadentes ou dos shoppings-centers privados do ensino superior! Construamos desde já nesses locais, a partir da luta mínima defensiva, formas de resistência que, baseadas na democracia direta, sejam um poder paralelo, um poder que aponte para o futuro, que apresente mais vida que as aulas mortas, que as prisões, que as catracas, as câmeras e a ronda escolar da PM. Numa ocupação de universidade ou escola, por exemplo, há mais vida, aprende-se e cria-se muito mais que em períodos de normalidade, em lutas pequeno-burguesas ou de calendário. Mas para essas ocupações irem adiante, por exemplo, não se pode reivindicar pequenas reformas; deve-se colocar de forma intransigente a defesa diante dos ataques, se valendo de todos os métodos de resistência necessários, sem tréguas. Em vez de buscar pautas que contornem o problema e conciliem a luta, ajudando a finalizá-la, a ANEL deve buscar métodos de luta e resistência que ampliem as contradições.

Mas para realizar tudo isso, há uma condição: que a ANEL mude a sua localização e ancore-se nos setores mais radicais da juventude, ou seja, na juventude secundarista das regiões mais proletarizadas das grandes cidades. A ANEL precisa deixar de gastar tanto tempo com os meios pequeno-burgueses e com as pautas pequeno-burguesas, e aproximar-se da juventude que está sedenta pela luta e pela resistência sem tréguas contra este Estado falido do capital, a juventude que está desesperada por uma perspectiva de futuro, além da mediocridade do presente. A ANEL deve buscar ser mais um movimento da juventude que um movimento de estudantes (e menos ainda de universitários).

UM PROGRAMA DE LUTA PARA A ANEL

O programa da ANEL pode ser simplesmente:

1. resistir aos ataques que destroem ainda mais a educação e as condições de vida da juventude, bem como a toda ação repressora do Estado (seja das diretorias, reitorias, da PM, GCM ou PF);

2. na resistência, em vez de buscar a conciliação, desencadear formas de luta que criem já um poder paralelo (sobretudo com ocupações de escolas, como tradicionalmente fazem a juventude chilena e a grega), o que rapidamente se alastraria;

3. fazer com que esse poder paralelo ancorado nas ocupações (sobretudo das escolas) apoie as lutas da classe trabalhadora, onde quer que elas ocorram, ajudando ao máximo a classe trabalhadora a atropelar as burocracias e a desatar seu próprio movimento autônomo e independente.

As ocupações de escolas são os núcleos de juventude do Poder Popular. Os outros núcleos, os mais importantes, são os núcleos que a classe trabalhadora criará quando ocupar seus locais de trabalho. A juventude deve voltar todos os seus esforços, por meio do seu poder, das suas ocupações, para ajudar a classe trabalhadora a superar os seus próprios bloqueios e, assim, ajudar a acelerar o processo de criação dos núcleos de poder da classe trabalhadora. Esse Poder Popular, lastreado nas ocupações da juventude e dos trabalhadores, é o único capaz de resistir ao Estado oficial e superar a ordem do capital. A única condição para desatar o futuro é nos focarmos na construção desse Poder desde já, com todas as nossas energias, sem gastar tempo com programas reformistas e pequeno-burgueses, velhos, falidos historicamente, sem poesia.

Camaradas, a ANEL está na encruzilhada! Para sair dela é preciso ter a audácia da juventude chilena, que colocou a seguinte faixa no topo de um Liceu ocupado em 2013:

“ALGUNS PASSARÃO DE CURSO,
NÓS PASSAREMOS À HISTÓRIA!”

VEJA PANFLETO DO TL PARA O CONGRESSO DA ANEL EM PDF: