! balanço das ocupações secundaristas de 2016 - Território Livre

balanço das ocupações secundaristas de 2016

O movimento estudantil secundarista está fazendo história; construindo uma nova geração, que será lembrada no futuro assim como, até hoje, os antigos lutadores lembram-se dos jovens que em 1977 começaram a tomar as ruas contra a ditadura militar, e anteciparam as lutas dos operários em 1978 e 1979. A juventude é o apito da panela de pressão e anuncia uma luta social muito maior por vir.

Todavia, para que essa nova geração não se disperse, para que a nova “vanguarda” das escolas não se perca, não se burocratize, é preciso fazer balanços sérios dos processos de luta, para que cada uma delas — mesmo as não vitoriosas — contribua para formar melhor a nova geração.

Neste ano de 2016, apesar da importante força do movimento, que se mostrou nacional, é inegável que perdemos uma grande oportunidade histórica. É sobre ela que trataremos.

As raízes de 2016 estão em 2015, para o bem e para o mal

O ano de 2015 foi fundamental para a juventude secundarista pois a fez reencontrar um método de luta fundamental: as ocupações. Tomar o que é nosso! Essa nova poética ressoou na cabeça de vários jovens do país e estava pronta para ganhar vida. Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Ceará, Goiás comprovaram-no, tão logo os jovens começaram neste ano a ocupar suas escolas espontaneamente. No final do ano passado, os secundaristas de São Paulo foram a ponta de lança que espalhou o fogo pelo país inteiro. Neste ano, entretanto, na mesma capital o fôlego do movimento pareceu esmorecer. Como esta luta, neste período de extrema agitação política no país, pode ficar isolada?

Assim como em 2015, em 2016 se apresentaram os problemas: as ocupações surgiram e registraram seu poder, mas a falta de articulação do movimento impediu que este demonstrasse verdadeiramente a sua força para dobrar o Estado. Leia nosso balanço detalhado sobre a luta de 2015.

O peso dos erros cometidos pela vanguarda do movimento no ano passado ainda é muito grande e se faz sentir, reproduzindo no movimento de 2016 vícios e fragilidades. A derrota sofrida agora — o movimento terminou de forma melancólica e sem grandes garantias — deve ser procurada no movimento do ano passado. A não formação de uma articulação de verdade entre as escolas no ano passado, por meio de um Comando de delegados democrático, eleito nas assembleias de base, que permitisse a entrada e a articulação da grande maioria dos estudantes, fez com que o movimento das escolas estaduais não conseguisse se reerguer neste ano para apoiar as escolas técnicas. Motivos não faltavam para as estaduais lutarem: além dos ladrões da merenda, está ainda em curso, de forma acelerada, a “reorganização” de Alckmin. A não formação de um Comando de verdade no ano passado impediu que se registrasse uma experiência histórica para toda a juventude do país. Assim como o método das ocupações é uma experiência histórica gravada na cabeça dos estudantes, também a articulação pela base teria sido.

E mais: neste ano teria sido possível criar pela primeira vez, em cerca de quatro décadas, uma articulação de verdade dos estudantes de todo o país, como um Comando Nacional de Luta da Juventude. Caso se olhe os problemas das escolas e as reivindicações da juventude em todo o país, perceber-se-á que são praticamente iguais em todos os lugares. Um dos principais problemas da luta deste ano foi ficar circunscrita apenas aos estados. A própria luta secundarista neste ano não teve grande adesão popular como no ano passado porque a grande parte das preocupações da população trabalhadora estava voltada a questões nacionais e não estaduais. As ocupações de escola se deram no mesmo momento em que a maioria da população brasileira estava preocupada e discutindo a questão do impeachment de Dilma Rousseff. O movimento da juventude deveria ter sido capaz de se colocar à altura das questões e preocupações nacionais. O movimento da juventude estava aquém do que pedia o problema social. A formação de um Comando Nacional de Luta da Juventude teria permitido erguer a luta ao âmbito nacional e lançar o poder dos estudantes contra o frágil e moribundo governo de Dilma (ou, agora, o frágil e moribundo de Temer). Contra um governo frágil, temos de demonstrar nossa força e impor derrotas. Os comandos nacionais não são uma utopia: a juventude chilena os construiu nos últimos anos, durante suas lutas, bem como a juventude francesa o construiu em 2007.

Como apito da panela de pressão, como quem prenuncia a luta social muito maior da classe trabalhadora, era fundamental que a juventude tivesse erguido uma força nacional. A classe trabalhadora está atenta e de ouvidos abertos à luta da juventude. Pouco após as ocupações de escolas estouraram algumas ocupações de fábricas (Mabe, Kharmann Ghia e outras). A articulação nacional pela base da juventude poderia ter criado as condições materiais e reais para a superação das entidades estudantis pelegas e vendidas ao Estado burguês, como a UNE ou a UBES, e teria criado pela base uma nova representação real da juventude em luta. Essa experiência também poderia ajudar amanhã a classe trabalhadora a ultrapassar suas entidades burocratizadas em todo o país.

O fato de o movimento não ter conseguido ultrapassar o âmbito estadual fez com que ficasse refém, em alguns estados, dos oportunistas petistas. Isso foi o que ocorreu em São Paulo, por exemplo, com a tentativa de neutralizar a luta jogando-a dentro do parlamento, por meio da CPI da Merenda. Outro exemplo: quando o Território Livre colocou uma faixa no prédio ocupado do Centro Paula Souza, com os dizeres “Nem PT nem PSDB: Poder Popular”, ela quase foi arrancada por jovens petistas que queriam usurpar da ocupação seu caráter independente. Da mesma forma, toda a mídia petista, com seus blogs e “jornais” alternativos, dava grande apoio à luta secundarista somente para tirar o foco de Dilma e divulgar, depois, atos a favor da presidente, contra o suposto golpe etc. É a velha lógica de que o PT é menos pior do que o PSDB, como se não fossem todos feitos do mesmo lixo. O isolamento da luta no âmbito estadual facilitou que ela fosse relativamente aparelhada pelos lobos petistas em pele de cordeiro. Esse é um câncer que novamente se desenvolve dentro do movimento, lhe tirando sua independência e combatividade.

Que fique o exemplo de quanto uma derrota ou ação oportunista pesa sobre um movimento. As consequências de 2015 ainda são muito sentidas pelos jovens lutadores e produzem até certas formas de esquerdismo e burocratismo. O isolamento dos estudantes não se deu apenas em relação aos outros estados, que não se reergueram em uma luta comum, mas também em relação ao próprio conjunto dos estudantes das escolas. Reproduziu-se, com a experiência do ano passado, uma distância ainda maior da vanguarda em relação à sua base. Os estudantes devem duramente rever suas táticas e se reaproximar do conjunto dos estudantes nas escolas, senão estarão condenando a luta desde o seu princípio. Enquanto o movimento secundarista não encarar seriamente, e de forma honesta, tais problemas, não conseguirá se projetar para o futuro, nem estar à altura das tarefas históricas. É fundamental que os novos jovens que entraram na luta em 2016 aprendam com os erros de 2015 e não se dispersem. 2017 está logo aí.

Que fazer agora?

Com o recuo dos estudantes, o Estado já avança e começa a perseguir os jovens mobilizados. Devemos erguer uma luta contra a repressão aos lutadores e urgentemente voltar para as bases das escolas para erguer a luta futura. As ocupações das escolas, durante a luta, tornam-se naturalmente espaços vivos de discussão e produção de novos conteúdos que imprimem um novo caráter à escola do capital. Essa nova dinâmica, esta nova forma, este novo conteúdo contém em si a construção da sociedade futura.

Devemos fortalecer a organização local em cada escola, construindo grêmios estudantis combativos, que realizem atividades de discussão e produção com o conjunto dos estudantes, mantendo vivo o espírito das ocupações.

Preparar a luta futura: organizar e articular! Erguer a Escola Paralela, o poder da maioria!

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