! POR UMA ORGANIZAÇÃO REVOLUCIONÁRIA DE JUVENTUDE! - Território Livre

POR UMA ORGANIZAÇÃO REVOLUCIONÁRIA DE JUVENTUDE!

A deformação do conceito de juventude após a II Guerra Mundial e o Maio de 68 da França

Neste nosso primeiro congresso, para conseguir refletir sobre nossa organização, nossas perspectivas e programa, tivemos de dar um passo anterior, que nos desse maior clareza ao debate sobre o tema juventude. Para isso, buscamos mais precisamente o que é o conceito de juventude, como ele foi desenvolvido historicamente e como as organizações revolucionárias viam tal conceito. Somente assim foi possível fazer um olhar autocrítico sobre nosso passado e decidir, com firmeza, a estratégia que guiará nosso futuro.

Se buscarmos em Marx alguma menção sobre qual deveria ser o papel da juventude para a revolução socialista, não a encontraremos. Isso porque “a juventude” é um conceito abstrato e, se não amparado na análise materialista da luta de classes, se torna mera ideologia. “A juventude” não é uma classe social em si. Para caracterizar uma classe social é necessário olhar sua relação com os meios de produção, e essa ideia de “juventude” em geral é marcada pelo afastamento dos meios de produção de mercadorias.

Os anos que se seguiram ao pós segunda-guerra geraram muitas confusões na esquerda, que começou a avaliar que estávamos entrando num “novo contexto histórico”, e que algumas ideias do marxismo necessitavam serem revistas. Ora, se o contexto mudou, foi para pior: o boom econômico do pós-guerra (reconstrução de forças produtivas destruídas), a necessidade de quebrar as ondas revolucionárias diante da crise dos Estados imediatamente saídos da guerra, a desmoralização dos partidos burgueses tradicionais, tudo isso levou aos poucos à ascensão de partidos social-democratas ao poder e à criação consciente, por parte da burguesia, nos países mais industrializados da Europa, dos chamados “Estados de Bem-Estar Social” (forma em que o Estado burguês, então falido, é reconstruído, como máquina forte, em torno a políticas keynesianas, de ampliação da demanda para aquecer a economia).

Em diversos países, além dos social-democratas, também os comunistas entraram na conta, fazendo aliança “com a sombra da burguesia” para salvar o regime da propriedade privada no pós-guerra imediato. Também os trotskistas não passaram ilesos: assim como os comunistas, muitos trotskistas adaptaram-se, na prática, à conjuntura do pós-guerra e, cada vez mais, às “novas” concepções de mundo e às pautas democrático-burguesas.

Um dos elementos materiais mais importantes para se estancar uma crise revolucionária é a diminuição do exército de reserva. Isso pode ser conseguido temporariamente por diversos meios. Um deles são as políticas anticíclicas compensatórias. No caso da juventude, particularmente, elas atuaram na criação de um setor social com grande amparo estatal, passível de entrar tardiamente no mercado de trabalho e gastar grande tempo de sua vida em formação/aperfeiçoamento de sua força de trabalho.

Ora, aqui acontece o contrário do que Marx considerava ideal. Marx considerava muito importante, para o amadurecimento dos jovens, o processo de trabalho desde tenra idade. Segundo Marx – Manifesto Comunista, Crítica ao Programa de Gotha e outros –, os jovens deveriam começar a trabalhar cedo (sendo resguardadas, é claro, as condições necessárias ao seu desenvolvimento físico e intelectual), pois isso lhes amadureceria para as (e nas) relações sociais. A separação entre trabalho material e intelectual deveria ser combatida. O que se dá, sobretudo no pós-guerra, em determinados países capitalistas centrais para a luta de classes internacional, é um aprofundamento dessa divisão entre trabalho material e intelectual e uma demora no amadurecimento da juventude. A demorada inserção no mercado de trabalho conduziu, no pós-guerra, à demora no amadurecimento da juventude, portanto, à própria ampliação do conceito de juventude.

Ainda que de retardada maturidade, essa juventude-adulta também se revolta e se põe em luta, porém de maneira menos determinada, como ocorre com a juventude como um todo (um revolta idealista contra a tutela, contra valores, etc.). O ápice disso foi maio de 1968. Não à toa, esse mês de luta é pintado como um belo evento de radicalização da juventude e de ocupação de universidades. Esquece-se muitas vezes o papel central das greves operárias (e dos trotskistas da FO* em desencadeá-las) e pinta-se com todo um colorido de beleza o berro subversivo da juventude contra os “valores” da sociedade do capital. Não é à toa: esse é um procedimento ideológico do capital e de seus representantes políticos social-democratas e reformistas. Para eles, é interessante fazer migrar (ou parecer fazer) o eixo da luta de classes para a juventude e as universidades, pois nesses espaços as contradições de classe são menores e sua política traidora salta menos aos olhos.

No Brasil a experiência da Libelu, Liberdade e Luta, organização de juventude da Organização Socialista Internacionalista (OSI), era um bom exemplo disso; um bom exemplo de como até os trotskistas entraram na esteira da revolta de 1968. E é principalmente daí que no passado buscamos inspiração para a construção do TL: uma organização estudantil universitária, que luta pelas liberdades democráticas, voltada à tomada e “refundação” da universidade, em nome de uma idealista nova cultura e civilização.

Enfim, o que queremos dizer é o seguinte: dá-se há algumas décadas, em determinados países, uma ampliação do conceito de “juventude”, graças a um processo material. Essa ampliação abarca adultos e, sobretudo após 1968, deu base à essencialização de uma determinada forma de luta política que volta tais jovens-adultos a lutas menos determinadas, de caráter juvenil (comportamental, valores etc.), justamente porque estão separados dos meios de produção. Ao que parece, é sobretudo após 1968, após a teoria das novas vanguardas, dentro da qual a vanguarda “juvenil” passou a ter um grande destaque, que a fronteira clara entre uma organização de jovens e uma organização de adultos começou a ser apagada. Primeiro porque, como falamos, os adultos ficam retardatariamente jovens. Segundo porque, por ser mais fácil atuar entre esses jovens, em seus locais de estudos, do que entre operários em fábricas, a esquerda migrou seu local de atuação, e passou a considerar que nesses lugares de estudo se dão enormes, importantes e acirrados conflitos políticos. Deu-se então uma mudança de eixo, em que os “revolucionários” gastam mais força nas universidades do que com o trabalho fundamental com os operários.

A relação entre a Juventude Comunista e o Partido Comunista: Submissão politica e autonomia organizativa. Lenin e a Internacional Comunista

Como vemos, é após maio de 1968 que os movimentos e partidos ditos marxistas começaram a enxergar a juventude como conceito mais amplo. Como dissemos, é sobretudo após 1968, que a fronteira clara entre uma organização de jovens e uma organização de adultos começou a ser apagada. Aqui trata-se de compreender o processo histórico que deu base ao abandono, por organizações ditas revolucionárias, da resoluções da III e IV Internacionais sobre a juventude e suas organizações. Em nome dessa nova vanguarda (bem como das outras), abandonou-se a juventude secundarista e, ao mesmo tempo, em grande medida, a própria classe operária.

A Internacional Comunista, em seu III Congresso, ocorrido em Junho de 1921, aprovou resolução Sobre a Internacional Comunista e o movimento da Juventude Comunista. Nesse texto enxergamos alguns pontos fundamentais que foram praticamente esquecidos pela esquerda, até mesmo pela trotskista, nas ultimas décadas. Esses pontos são a diferença entre organização adulta e organização de juventude, qual deve ser papel da juventude na luta de classes e sua relação com os partidos comunistas. Como aponta a própria resolução:

“O papel atual da juventude consiste em que ela deve reunir os jovens operários, educá-los no espírito comunista para as primeiras filas da batalha comunista. Passou o tempo em que a juventude poderia se limitar a um bom trabalho de pequenos grupos de propaganda, compostos de poucos membros […] As organizações da juventude devem alargar e reforçar o trabalho de educação não se conformando com sua nova missão. O princípio fundamental da educação comunista no movimento da juventude consiste na participação ativa em todas as lutas revolucionárias, participação que deve estar estreitamente ligada à escola marxista […] Ao mesmo tempo, elas devem fazer tudo para ativar o processo de rejuvenescimento resultante do movimento de massas, delegando-o rapidamente, nos Partidos Comunistas, aos seus membros mais velhos.”

“As relações entre as juventudes e os Partidos Comunistas diferem radicalmente daquelas que existem entre as organizações da juventude revolucionária e os partidos social-democratas. A maior uniformidade e a centralização mais estrita são necessárias na luta comum pela realização rápida da revolução proletária. A direção política não pode pertencer senão à Internacional. É dever das organizações da juventude comunista se subordinar a esta direção política, ao programa, à tática e às diretrizes e se incorporar ao front revolucionário comum.[…] O abandono de sua independência política não significa a abnegação total de sua independência orgânica, que é preciso conservar por razões de educação.”

“Uma das tarefas mais urgentes e mais importantes da juventude é se desembaraçar de todos os resquícios da idéia de seu papel político dirigente, remanescente do período de absoluta autonomia. A imprensa e todo o aparelho da juventude devem ser utilizados para impregnar os jovens comunistas do sentimento e da consciência de que eles são os soldados e os membros responsáveis de um único Partido Comunista.”

Tais teses apontam corretamente, na contramão do que se construiu em 1968, que é necessário combater o autonomismo e a ideia de protagonismo ou direção da juventude sobre o movimento de massas, e que para isso devemos lutar pela total subordinação politica da juventude à classe operária, subordinando a juventude a um partido que tenha como foco a classe operária. Ainda assim, é necessário manter a independência organizativa da organização de juventude devido a características próprias da juventude: sua formação e experiência, sua posição em relação à esfera da produção e sua idade.

As teses sobre a juventude desenvolvidas nesse congresso são, em grande parte, um desenvolvimento das ideias já expressas por Lenin alguns anos antes. Em 1916, no texto A Internacional da Juventude, Lenin apontava a necessidade de uma organização autônoma da juventude por suas características e sua importância para a formação da futura vanguarda revolucionária e seu papel de identificação e aproximação com as novas gerações. Diz Lenin:

“Subentende-se ainda que não há lucidez teórica nem firmeza no órgão juvenil e talvez nunca se haja, precisamente por ser um órgão impetuoso, fervilhante, que vai em busca da juventude […] Uma coisa são os adultos que confundem proletariado, que pretendem guiar e ensinar os outros, é necessário combate-los desapiedadamente. Outra coisa é a organização de juventude, que declara de forma aberta que ainda está aprendendo, que a tarefa fundamenta é preparar os trabalhadores dos partidos socialista.

[..] Acontece frequentemente que os representantes das gerações mais maduras e velhas não sabem aproximar-se da juventude como deve ser, a qual é necessária se aproximar do socialismo de maneira diferente, não pelo mesmo caminho, nem da mesma forma, nem nas mesmas circunstâncias em o que fizeram seus pais. Portanto, entre outras coisas, devemos estar incondicionalmente pela independência organizadora da união juvenil, e não só pelo fato de que essa independência é temida pelos oportunistas, mas pela própria natura do fenômeno. Por que, sem uma independência total, a juventude não poderá formar por si só própria bons socialistas, nem preparar-se para levar o socialismo para frente”.

Então, para nosso futuro, trata-se de negar essas adaptações, esse suposto “novo contexto” do pós-segunda guerra mundial e retornar à situação anterior, em que se trabalhava com um recorte menos amplo de juventude. Trata-se, portanto, de considerar o conceito de “juventude” do ponto de vista de sua separação dos meios de produção e também do ponto de vista da sua idade. Trata-se de pensar a juventude como um setor menos maduro socialmente devido à idade. É preciso encontrar um corte de idade fundamental, limite, para não cair no conceito amplo e abstrato do pós-guerra, assim como entender quais são as reais tarefas dos jovens revolucionários.

Devemos retomar aos ensinamentos contidos nos textos de Lenin e da Internacional Comunista sobre a juventude, formulações também adotadas pelas organizações de juventude da IV Internacional em seu período sadio (até o final da década de 1950). É nessas bases que se dará nossa relação com o MNN, nos tornando sua organização de juventude, assumindo seu programa, seus princípios e sua estratégia, e adotando a forma organizativa clássica das organizações marxistas, sintetizada na fórmula submissão politica e autonomia organizativa.

Conclusão

Nos textos acima citados devemos destacar outra questão não menos importante, mas, na verdade, a questão vital contida nessas estratégias. A palavra “juventude” nunca, ou quase nunca, aparece sozinha e sim acompanhada de “operária” ou “trabalhadora”. Como dissemos, a juventude não é uma classe social em si; Lenin e a IC, não se preocuparam em destacar um “recorte de classe” em suas teses pois essas não eram divergências colocadas em suas organizações: esse recorte era já um pressuposto. Os partidos marxistas não se preocupavam em crescer ou aproximar qualquer juventude, indeterminadamente, mas a juventude da classe operária. Os partidos de esquerda só começaram a atuar igualmente em “toda a juventude” após os fenômenos 68 e sua adaptação ao conceito de novas vanguardas. Abstrair a juventude da classe social à qual ela pertence escondia, e esconde, o giro da esquerda a setores pequeno-burgueses ou proletários mais bem remunerados (que tendem a preencher a estrutura de profissionais liberais da sociedade burguesa ou do Estado burguês). Para nós, o fundamental é encontrar o caminho à juventude que entrará em fábricas, a juventude capaz de ajudar a socializar os meios de produção quando chegar a hora.

Como esse recorte atualmente está esquecido, devemos retomá-lo com maior clareza e dizê-lo em alto e bom som. Se hoje atuamos nas universidades e nos bairros, de maneira alguma os dois locais devem ter o mesmo peso para nós. O nossos objetivos, como a juventude de uma organização revolucionária, devem ser os objetivos da organização adulta, ou seja, os próprios objetivos do TL devem corresponder à necessidade histórica de criação de uma direção operária revolucionária, a única possível de solucionar a crise histórica do capital. Devemos focar as nossas forças na juventude mais de mais baixa idade, dos bairros mais distantes, e dar perspectivas reais aos jovens proletários. Devemos agitar aos jovens o programa revolucionário e aproximá-los para construir a organização revolucionária.

Como se vê, nossa perspectiva deve ganhar uma determinação revolucionária. Queremos e devemos atuar e crescer entre os jovens dos bairros mais distantes e operários, não por serem jovens indeterminadamente, mas porque são os filhos da classe trabalhadora, futuros trabalhadores. A juventude, sobretudo a de tenra idade, deve ser pensada também como um setor social desempregado. Na situação de crise econômica mundial, o grau de desemprego entre a juventude, sobretudo nas grandes metrópoles, atinge patamares absurdos (cerca de 30%). Ainda assim, neste momento de crise, o capital demite muitos trabalhadores na casa dos 50 anos, que não conseguirão outra boa inserção no mercado, e contrata jovens com salários mais baixos. A organização que não se colocar como tarefa fundamental crescer entre a juventude proletária estará condenando seu futuro.

Da mesma forma, nossa atuação na universidade deve avançar, o programa na universidade deve encarar os estudantes como parte da sociedade, que procura o mercado de trabalho, que sofre com a crise e com a degradação das condições de vida e de estudo. O programa deve partir da realidade concreta, não para negá-la integralmente como fazíamos lutando contra o mercado, mas para mostrar as contradições dentro do próprio mercado e do mundo do trabalho e determinar essa realidade sobre outra perspectiva, a perspectiva da luta de classes.

Esse é, em linhas gerais, o conteúdo das teses aprovadas pelo Território Livre em seu I Congresso. Queremos que esta organização seja composta de jovens de mais baixa idade e dirigida por jovens trabalhadores. Evidentemente, esse não é, nem está próximo de ser, o nosso estágio atual, portanto temos muito e muito trabalho pela frente. Mas acreditamos que, vinculados à juventude da classe trabalhadora, o futuro nos reserva seu espaço.

*Força Operária (em francês, Force ouvrière, FO; oficialmente Confédération générale du travail-Force ouvrière, CGT-FO) é uma confederação sindical francesa, criada em 1947. É a terceira mais importante do país, depois da CGT e da CFDT. A FO é membro da Confederação Sindical Internacional (CSI).