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moro x lula: jacobinos nos trópicos?

Um dos advogados de Lula, quando da recente liberação de Dirceu da prisão, resolveu fazer uma analogia histórica e, atirando no que viu, acertou no que não viu: chamou Sérgio Moro de “Robespierre dos trópicos” e associou a força-tarefa da Lava-Jato aos jacobinos – e, por oposição a eles, associou seus clientes aos girondinos –, identificando corretamente o juiz e os procuradores à classe social a qual pertencem, com o papel contraditório que tal classe cumpre historicamente: a pequena-burguesia.

Toda analogia histórica, é claro, tem seus perigos. Não há comparação entre a magnitude do processo revolucionário francês com a Operação Lava-Jato, nem as guilhotinas francesas com as conduções coercitivas, apesar de um crápula como Lula adorar se passar por algo além do simples lobbista de empreiteira que é, alçando a rapinagem do Estado brasileiro a um desígnio histórico maior. Mas as linhas de força do primeiro processo revolucionário francês – uma ação da pequeno-burguesia, expressando de maneira distorcida anseios populares, que tem como resposta a reação da burguesia –, guardadas as devidas proporções, sugerem uma correspondência interessante com o atual momento da luta de classes no Brasil.

Formado sobretudo por pequenos comerciantes e profissionais liberais, os jacobinos se apoiaram, num primeiro momento, nos sans-culottes, a massa francesa empobrecida, para levar a revolução burguesa até o máximo possível de radicalidade que aquelas circunstâncias históricas permitiam. Basta lembrar que a radicalidade dos jacobinos chegou ao ponto de abolir a escravidão nas colônias francesas em 1794 (no Brasil, isso só aconteceria em 1888) e a violência revolucionária que exerceram mandou para a guilhotina muitos burgueses, membros da própria classe que foi alçada ao poder naquela revolução – eles “passaram dos limites” e, por conta disso, foram eles próprios mandados para a guilhotina no período seguinte, período de reação contrarrevolucionária burguesa, o assim chamado 9 Termidor, ao qual o advogado de Lula também faz menção, revelando os desígnios que seu cliente ele próprio expressou com todas as letras no último congresso do PT. No período do 9 Termidor, restabeleceu-se o voto censitário nas eleições, acabou-se com o sufrágio universal e tentou-se restabelecer a escravidão nas colônias francesas. A fase mais radical da revolução chegara ao fim.

No caso brasileiro, a pequena-burguesia localizada nos órgãos da burocracia estatal que, em condições normais de democracia burguesa, possuem relativa autonomia (como é o caso do Ministério Público), “passou dos limites” com a Operação Lava Jato – digamos que a guilhotina está trabalhando febrilmente demais, mandando para a cadeia de donos de empreiteiras a políticos burgueses que, há uns poucos anos, pareciam simplesmente intocáveis. A pequena-burguesia acredita que o Estado é independente do poder econômico e, a partir de 2013, canalizando parte da indignação popular contra a corrupção, e se aproveitando da desorientação política da grande burguesia, ela pode agir com um grau de manobra relativamente grande, semeando o caos na classe política e nos meios econômicos de uma maneira inédita. A se continuar esse processo, é provável que o caos na classe burguesa chegue a tal ponto que ela se veja na boca do gol, nas eleições de 2018, sem um candidato capaz de sufocar a revolta popular que está em um crescendo desde 2013.

É aí que entra a figura de Lula. A única figura que teria as condições de controlar essa revolta seria justamente Lula. Começa a soar o alarme para os setores mais conscientes da burguesia brasileira: ou se para a Lava-Jato ou a Lava-Jato vai queimar a carta de Lula; essa é a hora em que a burguesia brasileira – para falar de um outro momento da luta de classes na França – passa a preferir um fim com terror do que um terror sem fim. A articulação no STF entre ministros ligados ao PT (Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski) e ao PSDB (Gilmar Mendes) para soltar Dirceu e, com isso, desmoralizar a Lava-Jato e abrir a porta da cadeia para outros presos do mesmo cacife, aponta nesse sentido. A burguesia começa a se unir para interromper os “excessos” desse processo antes que seja tarde demais.

No momento apropriado, ela vai tirar sua desforra. Mandar prender os procuradores, jornalistas, a própria oposição burguesa, e sobretudo, atacar a organização independente dos trabalhadores, é o que Lula fará na eventualidade de ser eleito, o que ele agora passa a dizer com todas as letras. Os procuradores da Lava-Jato e Sérgio Moro deveriam levar bastante a sério a ameaça de Lula de prendê-los se eles não tomarem a iniciativa de prendê-lo logo. As limitações de classe dos responsáveis pela Operação Lava Jato começam a ficar claras a setores mais amplos da população. Ou a pressão popular pela prisão de Lula garante que a Lava-Jato o prenda, ou será ele quem vai prender a Lava-Jato e (muitos outros mais!) depois.

LULA NA PRISÃO!

08.05.2017


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