! ENTREVISTA: ESTUDANTE DA VENEZUELA CONTRA MADURO - Território Livre

ENTREVISTA: ESTUDANTE DA VENEZUELA CONTRA MADURO

O TL entrevistou David Chacón, 18, estudante da Venezuela que agora vive na França, sobre a situação econômica e política de seu país natal.

Território Livre: David, pode nos contar um pouco como era a sua vida na Venezuela? E o que o fez sair de lá?

David Chacón: Bom, foi a situação caótica da Venezuela que me fez vir para a França. O aspecto da segurança e a questão econômica são coisas que afetam a população venezuelana em grande escala. Eu estudo e toda a crise afeta também o sistema educacional, então os jovens que buscam uma educação com alguma qualidade não o conseguem no país. 

TL: E há muita gente que fez o mesmo que você?

DC: Sim, muita gente. Mais de metade dos meus colegas do liceu estão ou na Argentina, ou na Colômbia. Há muita gente que vai a outros países trabalhar como garçons, limpando casas… pessoas que já tinham diplomas.

Por exemplo, eu tenho dois primos, um deles se formou em medicina veterinária na Universidade Central da Venezuela (UCV), uma das mais importantes e conceituadas do país. Conseguiu sair do país com ajuda e ir para Austrália, e agora trabalha com pequenos empregos, bicos. Nunca conseguiu exercer sua profissão. Mas ele teve sorte, pois os mais pobres têm muita dificuldade em sair do país, quando o fazem, são em situações absolutamente precárias.

TL: E vale a pena? Trabalhar nesses bicos fora do país é melhor do que exercer uma profissão que normalmente é estável, como veterinário?

DC: Totalmente. Nesses bicos ele consegue sobreviver e já até conseguiu comprar uma bicicleta para si. Um veterinário na Venezuela nem dinheiro para isso tem. Como posso te explicar? Chegam a tal ponto as condições de vida na Venezuela, que mesmo tendo salário pequeno, uma parte significativa do dinheiro do meu primo vai para sua família que ficou na Venezuela.

Meu irmão, por exemplo, está na metade de sua graduação, também na UCV e se depara com a mesma problemática. Largar os estudos, já que a universidade mal funciona, e exercer uma profissão qualquer em outro país. O ensino público já mal funciona, e agora, sobretudo com a violência geral, os professores suspendem suas aulas com frequência. Só nessa semana, meus antigos colegas da UCV dão início ao seu segundo semestre, e em menos de um mês e meio o fecharão.

TL: Como é essa questão da violência?

DC: Há, por um lado, a violência e a repressão estatal, que temos que olhar com muita atenção. Mas, nesse caso, estou me referindo a criminalidade, que é um fator que também pesa para a crise econômica.

Na Venezuela, seis horas da tarde já é um horário perigoso. Quando dá oito da noite as ruas já estão vazias. O comércio fecha, as pessoas ficam em suas casas. Porque se saem, há um alto índice de terror, a partir do crime organizado. Roubos, às vezes até assassinato. 

TL: Você nos disse antes que gostaria muito de falar sobre a questão da escassez na Venezuela, que acha muito importante. O que pensa disso?

DC: Nos últimos cinco anos a Venezuela tem sofrido com a escassez. Antes, não se conseguiam produtos básicos como papel-higiênico, farinha para fazer harepas… Agora achamos com menos dificuldade, mas é por um preço altíssimo. Da última vez que ouvi dizer, o preço do pacote dessa farinha para a massa de harepas, por exemplo, estava cerca de 20 mil bolívares*. Os preços dos produtos são absurdos em relação ao poder aquisitivo das pessoas.

Por exemplo, o salário de minha mãe, que era funcionária pública, mesmo sendo reajustado com frequência (mas a inflação subia muito mais, o que fazia com que o aumento não valesse de nada), era todo gasto em comida. Não havia dinheiro pra mais nada.

O governo venezuelano, para apaziguar essa situação, convoca comitês locais de abastecimento público, os chamados CLAPs. Em que consistem os CLAPs: você se inscreve, e mensalmente faz compras, por um preço mais barato que nos supermercados. Mas isso não chegava a todo mundo, nunca chegou a minha família, que se recusava apoiar o governo. Chegava a alguns setores específicos da população, para evitar sua rebelião: muitas vezes a moeda de troca para se conseguir isso é oficializar apoio ao governo. É tentar calar a voz das pessoas com pouca comida.

TL: Você acha que é por isso que ainda existem pessoas apoiando Maduro? Ou ainda há gente que verdadeiramente acredita e concorda em seu projeto?

DC: Na minha visão há dois tipos de pessoa que apoiam este governo. Você tem as pessoas que se beneficiam do governo, são os que se aproveitam da corrupção, estão em altos cargos para roubar dinheiro. E também há esses setores que se beneficiam destas políticas populistas, que lhes traz comida e lhes ajuda a sobreviver, pois como o resto da população vivem em condições muito ruins.

Em alguns elementos desse setor, realmente, o contínuo discurso ideológico, por 17 anos [de chavismo], se incrustou no pensamento. E aí, por isso, há algumas pessoas que apesar da situação do país seguem pensando que ‘o governo Maduro faz tudo o que pode’, ‘o governo Maduro é bom, porque traz comida a minha família’, ‘são os Estados Unidos que estão conspirando contra nós’…

TL: Que elementos você avalia contribuir para a consolidação dessa narrativa governista? A mídia cumpre algum papel nesse sentido?

DC: Os meios de comunicação na Venezuela em geral, os canais de televisão especialmente, tendem a não transmitir as manifestações. Houve uma grande manifestação na Venezuela, por exemplo, com forte repressão: isso só chegou para nós por conta do Instagram, Twitter… redes sociais. Você não se inteira disso pela TV. Mesmo a internet da Venezuela sendo uma das mais lentas do mundo. Muitas vezes fica difícil saber o que é verdade ou não.

TL: Uma das mais lentas do mundo?

DC: Quando não se tem dinheiro o suficiente e dirige-se o pouco dinheiro que existe à políticas populistas, não sobra pra investir em infraestrutura… Por isso é tão ruim a qualidade do acesso à internet. Mas, quando a televisão não te passa as notícias, os jornais não te passam as notícias, o meio mais confiável com certeza é a internet. Por exemplo, a Globovisión, que era um dos canais que no fim das contas fazia oposição ao governo, hoje não se posiciona. Coisas que acontecem como grandes repressões a atos de estudantes não são transmitidas.

Há um órgão, o CONATEL (Comissão Nacional de Telecomunicações), que fica responsável pela regulamentação dos meios de comunicação. O governo se utiliza dele para censurar, por trás das cortinas ameaçando, fechando as mídias que fazem oposição, enfim.

TL: O que pode nos contar sobre essa questão da repressão nos atos?

DC: Na Venezuela há uma problemática: ou a pessoa sai nas ruas para protestar, mas arrisca sua vida, ou se protege, mas fica em casa. Porquê as manifestações são violentas. Eu não cheguei a ir nas manifestações. Minha mãe tem graves problemas de saúde e uma doença autoimune degenerativa, lhe fazia muito mal o stress, então escolhi não ir. Mas meu irmão frequentava, e a repressão era algo de todos os dias.

As manifestações estavam orientadas a irem para instituições públicas, para ir a sede da defensoria pública, para ir a sede do Supremo Tribunal de Justiça, mas nunca chegavam a seu fim. Se partiam de A, para chegar em B, as forças públicas sempre lhe impediam no meio do caminho. Bombas de gás lacrimogêneo são um elemento comum. Uma estourou nos pés de um colega meu da UCV e isso foi tratado como algo normal, banal. A polícia mira as bombas diretamente no corpo das pessoas.

Houve também acusações do uso de armas de fogo, letais nos atos, mas não tenho certeza se procede.

TL: E a questão das prisões e desaparecimentos políticos?

DC: São pessoas que são colocadas na prisão por estarem protestando contra o governo. Esse é seu delito. Realmente, algumas manifestações tornam-se violentas a ponto de haver confronto físico com os policiais e atitudes que o governo taxa de vandalismo, ou seja, há manifestantes presos por esta prerrogativa. Mas a grande maioria é presa por como pensa, mesmo sem estar vinculada a este tipo de ação.

O exemplo mais próximo que posso te dar é de quando eu estava na Venezuela e houve um protesto. Voltando para casa, no fim da manifestação, vinte e poucos estudantes da minha universidade foram encurralados pela força policial e foram presos. Ou, por exemplo, eu tenho um amigo que vai às manifestações e se envolve com a política estudantil e indo para um ato, foi parado pela polícia, que o revistou. Consigo, carregava uma máscara para o gás e uma bandeira da Venezuela. Ele começou a ser interrogado ali mesmo, até que um grupo de pessoas começou a criar um pequeno tumulto em cima desta situação e ele aproveitou para sair.

Há casos de desaparecidos. Presos políticos, muitas vezes nem julgados. Muitas vezes seus familiares demandam por vê-los, por saber de seu paradeiro e o governo não dá satisfação alguma.

TL: No Brasil estamos falando muito sobre a questão da Venezuela. Grande parte da “esquerda” brasileira está apoiando Maduro, justificando que seria “menos pior” que a oposição. Que pensa sobre essa oposição?

DC: A oposição está muito dividida, na verdade. É um problema, porque não está organizada. Quando se aproximaram as eleições regionais [que eventualmente Maduro adiou, como fez outras duas vezes], uma boa parte dela agiu pelos interesses próprios e parou de chamar os atos para se focar na agenda eleitoral, mas muitas pessoas ali eram honestas e queriam continuar as manifestações.

Acredito que existe um setor da oposição que age sim pelos interesses próprios e não gerais, mas a população está cada vez mais decepcionada e afastada dele, porque exige uma sede por um combate mais enérgico. Você está nas ruas todos os dias contra Maduro e de repente não existem mais atos porque a oposição quer eleger um governador? Isso afasta as pessoas. São poucas as direções que se propõe a um combate verdadeiro contra Maduro.

TL: Quais são as perspectivas para o futuro da Venezuela?

DC: O futuro, eu creio, é incerto para o venezuelano. Incerto porque tem uma grande maioria descontente com o governo venezuelano, mas não há uma direção. Uma direção que seja capaz de canalizar esse descontentamento. E quando não há uma direção com essa capacidade, o povo pode se decepcionar, se conformar, se acostumar a viver dessa forma tão precária… Mas podemos chegar ao ponto de uma situação de tensão tão extrema, que haja uma convulsão social.

 

*de acordo com o câmbio oficial do país, este valor seria equivalente a R$6349.26

**as eleições regionais já foram adiadas 3 vezes na Venezuela e, na data desta entrevista, ainda não foram feitas


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